sábado, julho 14, 2012
quarta-feira, julho 11, 2012
"Histórias de um raciocinador" - Uma Apreciação Crítica
"Histórias de um raciocinador" é a mais recente edição da Assírio & Alvim dedicada às novelas policiárias de Fernando Pessoa. Depois de Ana Maria Freitas ter editado em 2008 o volume "Quaresma, Decifrador", que reunia novelas policiárias tardias e escritas em Português, agora apresenta-nos uma espécie de colectânea de "proto-novelas", escritas em Inglês entre 1906 e 1907.
Sabemos que Fernando Pessoa teve, desde muito cedo, uma grande paixão pelo género, tendo começado a inventar charadas tão cedo quanto 1901, na viagem de férias da família a Portugal. Já antes lia Edgar Alan Poe, que tanto o influenciou.
O gosto pelo mistério e pela aventura misturaram-se à sua inteligência e deram origem a diversas personagens interessantes, das quais se destaca William Byng. Uma espécie de Quaresma em formação, também já morto e ex-sargento (Quaresma era "médico sem clínica"). Ambos os personagens partilhavam outras importantes características: eram alcoólicos e possuiam uma grande incapacidade para viver uma vida normal. É evidente que há, em ambos, muito de Pessoa, que, mesmo já na tenra idade de 18 anos, se sentia um verdadeiro inadaptado, estrangeiro em Durban e estrangeiro mais tarde em Lisboa.
É curioso ler estes textos e, ao mesmo tempo, ir lendo os diários de 1906/7 de Pessoa. Um exemplo pode ser a elaboração da novela "The Stolen Document" que sabemos ter sido começada entre os dias 13 e 17 de Abril de 1906. Claramente esta era uma época de grande agitação mental para ele, e a sua escrita mostra isso mesmo.
Esta edição traz, em resumo, o grande interesse de compreender a evolução da obra policial de Fernando Pessoa, entre 1906/7 e 1914/14, alturas que marcam, respectivamente, o aparecimento de Byng e de Quaresma. As duas edições, lado a lado, permitem-nos agora estabelecer um fio condutor neste tipo de literatura em Pessoa. Continuo a acreditar que as novelas, enquanto obras policiais, são sofríveis e muito abaixo do resto da qualidade da obra de Pessoa, mas, como indicava Ana Maria Freitas na altura da apresentação desta obra, é possível retirar delas frases, pensamentos e expressões tipicamente Pessoanas e, se fosse só por isso, já poderiam ser diferenciadas.
Este volume pode já ser adquirido aqui.
Um agradecimento a Ana Maria Freitas pelo envio de um exemplar para análise.
terça-feira, julho 10, 2012
"Prosa de Álvaro de Campos" - Uma Apreciação Crítica
Lançado recentemente, "Prosa de Álvaro de Campos" pretende redefinir Álvaro de Campos como grande prosador, ao lado daquele que até agora tem sido visto como a maior figura prosadora no universo Pessoano - Bernardo Soares (o autor, embora tardio, do Livro do Desassossego).
Temos mais uma vez de dar os parabéns à equipa da Ática, que, evitando as edições fáceis - seria bem simples retomar edições anteriores e dar-lhes poucos retoques - está seriamente empenhada em redescobrir a Arca, publicar inéditos e até reformular já antigas concepções da obra de Pessoa. Certamente que muito desta atitude e energia está ligada à juventude desta equipa liderada por Jerónimo Pizarro.
É uma juventude que, embora esteja a trazer grandes frutos, também origina por vezes alguns precalços. Desde logo parece-me exagerado equiparar esta edição à edição original do Livro do Desassossego. Há claramente uma diferença entre ambas e essa diferença tem a ver com a própria natureza dos "livros-Pessoas" que as escreveram. A Campos, embora grande prosador, falta a anemia permanente e dialéctica de Soares. O mínimo raio de acção é estranho a Soares enquanto que em Campos é a acção que transforma ao longo da sua vida e faz dele o homem que ele acaba por ser - um diluído e um decepcionado. Soares já nasceu decepcionado e o seu livro não poderia equiparar-se a qualquer outro de Pessoa, pelo menos enquanto prosa pura.
A edição, de Pizarro e António Cardiello, que conta com a colaboração de Jorge Uribe, divide os textos em prosa de Campos entre éditos e inéditos. São cerca de 40 os textos inéditos, que variam de tamanho, desde apenas uma frase a várias páginas.
O livro inicia-se com textos não publicados em vida, muitos deles reflectindo várias dimensões da polémica entre Reis e Campos, dentro da "discussão em família". Trata-se de um aspecto pouco abordado pelos especialistas - ou abordado superficialmente - que Pessoa pretendia desenvolver a interacção entre os heterónimos, colocando-os em discussão entre si, levantando assim a validade de pontos de vista aparentemente opostos. A polémica em Pessoa, como se vê, não era só externa, mas era sobretudo interna...
Segue-se uma entrevista que Pessoa preparou a Campos. A meio do livro aparece o que julgo seja uma parte que devia ser mais destacada e que tem que ver com a tentativa de "recombinação" do texto paradigmático de Campos - "Notas para a recordação do meu Mestre Caeiro", da responsabilidade de Jorge Uribe. Pena é que, no prefácio, Uribe não nos explique melhor a lógica desta "recombinação" ou "reorganização" face sobretudo a edições anteriores.
Segue-se a obra publicada em vida, a correspondência, uma secção dedicada a "outros textos" e uma secção final dedicada a projectos. O volume termina com o aparato genético.
Esta edição, como a esmagadora maioria das edições da Nova Série dedicada a Pessoa refresca o panorama de edições Pessoanas e é de louvar, ampliando e focando o nosso conhecimento actual de Álvaro de Campos. No entanto devo reforçar que me custa muito ver Campos essencialmente como prosador. Para mim há muito maior vitalidade e riqueza na sua prosa poética e nos seus poemas do que propriamente nesta prosa solta, muito à base de apontamentos, em que escapam apenas alguns textos paradigmáticos como as "Notas", o "Ultimatum" ou os "Apontamentos para uma estética não-Aristotélica". Será descabido a meu ver comparar a grandeza de uma prosa mais coerente, embora dispersa, do Livro do Desassossego, com a prosa pura de Campos.
Como nos lembram os editores no prefácio Campos foi o heterónimo que mais "durou" durante a vida de Pessoa, quando Reis foi exilado e Caeiro morto. Mas por essa mesma razão, Campos é a sua própria vida e limitarmo-nos a potenciar a importância da sua prosa - iminentemente (mas não só) interventiva - é limitar a sua própria importância dentro da mais vasta obra Pessoana.
Este volume pode já ser adquirido aqui.
Agradecimentos à Editora Babel pelo envio de um exemplar para análise.
Agradecimentos à Editora Babel pelo envio de um exemplar para análise.
segunda-feira, julho 09, 2012
quarta-feira, junho 27, 2012
As fotos perdidas de Hanni Jaeger
Estamos há algum tempo à procura de imagens de Hanni Jaeger. Recentemente tinhamos encontrado uma fotografia da sua irmã, Else. Agora foi-nos possível encontrar (e confirmar) duas fotografias da própria Hanni com cerca de 18 anos (por volta de 1927/1928, 2 anos antes da visita a Lisboa).
A primeira foto (em cima) mostra Hanni com o uniforme escolar. O seu cabelo é mais escuro do que seria de esperar, mas não contraria o poema de Pessoa que o apelida de "louro escuro". Normalmente os alunos escolhiam uma frase que os definisse. Ela escolheu: "O que é meu é teu, e o que é teu é meu". Curiosamente algo semelhante aos princípios da Thelema de Crowley ("Do what thou wilt shall be the whole of the Law"). Será que Hanni já conhecia a obra de Crowley nesta altura? É possível, mas apenas especulativo. De realçar que Hanni parece ter tido acesso a uma bolsa de estudo (scholarship) e interessava-se por Francês e literatura (Oratória e Shakespear). O seu outlook (vocação) é conclusiva: artes. Curiosamente ela será, mais tarde em Berlim, modelo para pintores.
A segunda foto mostra Hanni (2.ª fila, 2.ª pessoa da direita), com a sua turma de Francês (clube de Francês). O único elemento imediatamente perceptível é a sua altura - não deveria ser muito alta, pelo menos comparativamente com os seus colegas. Pessoa, no mesmo poema que referimos em cima, considera-a alta, pelo que deveria - em 1930 - ter mais do que 1,73m (a altura de Pessoa).
Queremos agradecer a ajuda de diversas pessoas nesta pequena investigação que levámos a curso, nomeadamente: Marco Pasi, Richard Kaczynski, William Breeze e Owen Aylesworth.
terça-feira, junho 26, 2012
"Os livros de Fernando Pessoa"
Temos o prazer de comunicar mais uma tese de doutoramento dedicada a Fernando Pessoa, desta vez de Pedro Sepúlveda, com o título "Os livros de Fernando Pessoa". Esta tese aprofunda a temática (e o conceito) do livro em Fernando Pessoa e estará disponível dentro em breve no repositório digital da FCSH e da BNP.
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