segunda-feira, junho 25, 2012

"Assalto à Casa Fernando Pessoa" - Uma Apreciação Crítica
















Esta não vai ser uma crítica habitual. Desde logo porque é a primeira vez que criticamos um livro infantil/juvenil sobre Fernando Pessoa. Não é possível submeter uma obra deste género aos mesmos critérios apertados a que submetemos todos as outras obras que apreciamos neste blog, mas mesmo assim não queríamos deixar de a ler criticamente e ir mais além do que só apresentá-la sem mais. 

"Assalto à Casa Fernando Pessoa" faz parte de uma colecção - "O Diário do Micas" - que apresenta um grupo de jovens que atravessam as mais incríveis aventuras, sempre em cenários inspiradores Portugueses, alguns desses, museus. A aventura Pessoana inicia-se na Casa Fernando Pessoa, numa maratona de leitura do "Ano da morte de Ricardo Reis" e o texto, que começa algo lento, tenta introduzir alguns elementos biográficos de Pessoa antes de entrar na acção da aventura propriamente dita. 

Sem querer tirar o mistério ao livro, a acção decorre num assalto (aliás, nada se revela, porque isto está desde logo expresso no título) que acaba por correr menos bem. No meio de toda a confusão aparecerá uma senhora idosa que desvenda uma parte desconhecida da vida de Pessoa. Achei muito curioso que a autora tocasse neste assuno - aliás, um assunto que nem Cavalcanti, com a sua investigação minunciosa e demorada, consegui resolver: a identidade da loura de olhos azuis que Pessoa referia nas cartas a Ophélia...

Este livrinho com pouco mais de cem páginas lê-se com grande facilidade e, embora tenha aqui e ali alguma linguagem que eu consideraria demasiado complexa para o público-alvo, serve perfeitamente de introdução ligeira a Fernando Pessoa, sem revelar demasiado mas mesmo assim sendo capaz de aguçar a curiosidade de quem o leia e queria saber mais. Temos de dar os parabéns à autora por cair na facilidade possível do tema e tentar trazer alguma novidade, mesmo que quem leia o livro não tenha um conhecimento aprofundado do poeta. 

Este livro pode já ser adquirido aqui. 

Um agradecimento à Editora Planeta pelo envio de um exemplar para análise.

quarta-feira, junho 20, 2012

"Fernando Pessoa e Maurice Maeterlinck - A Voz e o Silêncio na Fragmentação da Obra"









No âmbito do nosso desejo em promover o state-of-the-art dos estudos Pessoanos, pretendemos divulgar, sempre que possível, as mais recentes teses de mestrado e doutoramente elaboradas em volta de temas relacionados com Fernando Pessoa.

Hoje apresentamos "Fernando Pessoa e Maurice Maeterlinck A Voz e o Silêncio na Fragmentação da Obra". Esta tese de doutoramento, da autoria de Maria Fragata Correia e defendida a 19 de Março de 2012, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, debruça-se sobre as obras de Pessoa e Maeterlinck. 

Lembramos que basta enviarem as vossas teses para o nosso email para que as mesmas sejam divulgadas no nosso blog. 

terça-feira, junho 19, 2012

"Poesia, Ontologia e Tragédia em Fernando Pessoa" - Uma Apreciação Crítica










"Poesia, Ontologia e Tragédia em Fernando Pessoa" de Pablo Javier Pérez Lopéz, é o mais recente título que aborda a ligação entre a obra poética e a obra filosófica de Fernando Pessoa. É com imenso prazer que saúdo mais um estudo filosófico-poético Pessoano, que vem em linha com óptimos estudos recentes, como por exemplo "El Pensar Poético de Fernando Pessoa" ou a edição crítica dos escritos filosóficos de Pessoa por Nuno Ribeiro.

Existe uma nova geração de Pessoanos que se está a dedicar a esta vertente de estudos Pessoanos com grande seriedade e os resultados estão claramente a aparecer. Julgamos que é apenas o início de uma nova janela para a compreensão de Pessoa, e uma altura muito entusiasmante para os estudos Pessoanos.

Devo dizer que as expectactivas eram bastante altas, sobretudo porque Pablo Lopéz era um dos co-organizadores do volume "El Pensar Poético de Fernando Pessoa" que eu, na altura, considerei como uma das melhores obras conjuntas sobre o tema da filosofia em Pessoa.

Começando pelo fim acho que o livro de Lopéz falha no mesmo ponto em que todos os livros que sairam neste âmbito estão a falhar. De forma algo ingénua, todos os exegetas filosóficos de Pessoa estão a analisar a ligação poesia-filosofia no âmbito dramático da produção poética. Ou seja, o poeta-pensador aparece quase enquanto tese-antítese, porque é o confronto entre a poesia e a filosofia que produz a necessidade da experiência ontológica que se concretiza na heteronímia.

Exemplo do que dizemos poderá ser esta passagem do primeiro capítulo: "Quizá el filósofo trágico, el poeta que recupera la filosofía sin subyugación, que camina sobre el abismo de lo real, entre las dos montañas de lo poético y lo filosófico, que rompe las fronteras entre sus reinos, entre las montañas cercanas que habitan filósofos y poetas34 es el único que puede sobrevivir aceptando la tensión existencial que implica no poder evitar pasear, ser puente, entre el tenso combate entre la filosofía y la poética."

Mais à frente López escreve: "El pensador trágico es aquél que se atreve a extender un puente entre las dos distantes montañas del Reino de la Filosofía y de la Poesía, a aceptar su dualidad trágica."

Desde logo temos então de lidar, neste volume, com o pressuposto de que o pensamento filosófico de Pessoa se esgota na sua produção dramática (enquanto efeito directo e sequencial). Há um apontamento relativo à juventude de Pessoa e à sua frequência do curso de Letras, onde estudou filosofia, mas esse apontamento apenas reforça a noção de que Pessoa nunca foi verdadeiramente um filósofo, quanto muito um poeta-pensador. É uma noção que pessoalmente repudio, mas que aceito que possa ser tomada nesta fase dos estudos filosóficos Pessoanos, sobretudo quando ainda é recente a publicação da totalidade dos escritos filosóficos de Pessoa (lembremos que recentemente Nuno Ribeiro apresentou no volume 2 da sua tese, ainda não publicada, 382 páginas com este propósito). 

Mas é uma pena que Pablo López visite de tão perto o tema e não o toque de maneira diversa. A sua incursão pelo conceito de poeta-pensador é atrevida e bem suportada em materiais do espólio, no entanto não consegue chegar a conclusões finais que não saem da evidência simples do que foi revelado. Porquê ver o poeta-pensador apenas como forma expressa de elevar a poesia a um grau metafísico de maneira tão formal? O autor toca de seguida o Sensacionismo, mas é incapaz de ver este movimento para além do seu significado literário, porquê? Afinal o Sensacionismo não poderia servir de conduta metodológica para a filosofia de Fernando Pessoa, enquanto forma de linguagem filosófico-poética? Já falámos um pouco deste tema no nosso último livro em que analisámos o Livro do Desassossego. Penso que o Sensacionismo é muito mais do que apenas uma teoria literária. Sim é a aceitação do mundo enquanto literatura, mas qual é a principal conclusão que advém daí? Pablo López não nos diz. Eu penso que seja a importância da desconstrução do mundo pela poesia (pela literatura) para que possa ser comunicado para além dos limites da linguagem padrão.

A adesão à teoria do poeta-pensador dramático leva o livro a virar continuamente para esse sentido. É por isso que a comparação com Nietzsche é tão (a até demasiadamente) recorrente. É inegável que existe vasto material para esta análise, no entanto não nos pareceu particularmente inovadora ou interessante. O próprio fenómeno da heteronímia é descrito em moldes trágicos, embora com algum sabor filosófico, o que nos parece diminuir a dimensão puramente filosófica do mesmo. Será que podemos entender a heteronímia filosoficamente só enquanto forma de ultrapassar o subjectivismo pelo modelo trágico, os problemas modernos ligados à identidade pela diluição da identidade individual? Não negaremos o desejo de Pessoa em resolver o mistério da verdade através do drama - sentimos também que é aqui que reside a verdade - mas não pensamos que possa ser explicado de forma tão sucinta e esquemática...

Em resumo, este livro tenta reclamar um estatuto para Pessoa que vai para além do mero "poeta influenciado pela filosofia", colocando-o verdadeiramente como "poeta-pensador". Isto é - quanto a mim - o mais louvável do volume e não deve ser menosprezado. No entanto soube-nos mesmo assim a pouco e a nossa esperança é que no futuro os jovens investigadores filosóficos de Pessoa não tenham receio absolutamente nenhum de o colocar enquanto "pensador-poeta". Espero que o possam fazer dentro em breve.

Este livro poderá ser adquirido brevemente online na Editoral Manuscritos

 Agradecimentos ao Professor Pablo Javier Pérez López pelo envio de um exemplar para análise.

sexta-feira, junho 15, 2012

Três novas edições de Pessoa














Três novas edições de Pessoa vão ser apresentada em conjunto no próximo dia 20 de Junho na Casa Fernando Pessoa em Lisboa, pelas 18h30. Elas são: "O mendigo e outros contos" (que já analisámos aqui), "Cartas de amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz" e "Histórias de um raciocinador". 

A nova edição das cartas de amor, a cargo de Manuela Parreira, promete novidades, nomeadamente alguns excertos de cartas que tinham sido anteriormente censuradas bem como duas novas cartas inéditas de Ofélia. Já "Histórias de um raciocinador", edição a cargo de Ana Maria Freitas, reúne novelas policiárias em inglês escritas por Pessoa.

quinta-feira, junho 14, 2012

Entrevista com Manuel Portela









Temos hoje o prazer de vos apresentar uma entrevista com o Prof. Manuel Portela da Universidade de Coimbra. O Prof. Portela é o responsável por um arrojado projecto de digitalização do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, que vai decorrer até 2015.

A equipa da qual é responsável está a desenvolver um arquivo electrónico dedicado ao "Livro do Desassossego". Como surgiu este projecto e qual é, na sua opinião, a necessidade de uma edição digital do "Livro" no âmbito mais vasto da edição da "obra completa" de Fernando Pessoa? 

Este projeto do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra surge no âmbito de uma nova área de investigação que estamos a desenvolver na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra desde 2010 e que designámos 'Materialidades da Literatura'. Criámos um novo Curso de Doutoramento (http://matlit.wordpress.com/) e este é o primeiro projeto de investigação financiado a realizar nesse âmbito. O projeto conta ainda com a colaboração da Biblioteca Nacional de Portugal e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Investigação e Desenvolvimento em Lisboa (INESC ID, Universidade Técnica de Lisboa). Podemos enquadrá-lo em projetos semelhantes que se têm levado a cabo desde o final dos anos 90 em várias universidades pelo mundo fora, e que contribuiram para a gradual afirmação das humanidades digitais como um domínio que agrega a computação e as humanidades. Neste caso não se trata apenas de uma edição digital, mas de usar as capacidades de remediação e de processamento algorítmico para descobrir coisas novas sobre a escrita e o livro no LdoD. O projeto está circunscrito ao LdoD, mas terá certamente implicações relativamente à restante obra de Fernando Pessoa. Por outro lado, não creio que se deva equacionar este arquivo digital no programa de construção editorial da obra completa. Trata-se de um projeto de outra índole, com outros objetivos. 

Qual o maior desafio que enfrentaram? A dispersão dos materiais? A própria natureza do "Livro" enquanto "anti-livro"? 

Os desafios serão para enfrentar ao longo dos próximos três anos, uma vez que o projeto está apenas a começar. O que gostaríamos de conseguir fazer é integrar todo o conhecimento que já existe sobre o Livro do Desassossego com novas hipóteses de organização e de análise algorítmica dos textos. Pretendemos combinar uma edição genética com uma edição social, isto é, dar conta quer da produção autoral, quer da produção sucessiva do livro pelos seus diversos editores. Além disso, trata-se de imaginar novas possibilidades de articular o LdoD como processo e como artefacto, e pensar essa articulação entre escrita e livro na imaginação e nas práticas modernistas em geral. O LdoD não é tanto um 'anti-Livro' como um projeto e uma ideia de livro. Um livro em curso, digamos. 

Tendo em conta a dificuldade de editar Pessoa, nomeadamente face à dispersão e incompletude dos originais, o formato digital apresenta-se como o formato mais consensual, sobretudo face ao formato em papel, porque pode congregar as diferentes opiniões dos especialistas num único meio? 

Sim, de facto muitos dos processos de escrita de Fernando Pessoa não são facilmente traduzíveis para o livro impresso. A capacidade simulatória do meio digital abriu outras possibilidades de representar os manuscritos e os processos de escrita e de edição. A integração reticular de múltiplos materiais é uma das capacidades específicas do meio digital que pretendemos explorar. A marcação dos documentos a vários níveis de granularidade torna possível a reconfiguração radial dos objetos digitais de acordo com múltiplos critérios. Esperamos poder usar esta flexibilidade do meio como instrumento de investigação para pensar a escrita e o livro no LdoD. 

Quando estará o arquivo disponível para consulta e qual será o tipo acesso proposto ao público em geral? 

Se tudo correr como planeado, esperamos ter a primeira versão do arquivo disponível em 2015, com possibilidade de adição de novos materiais em fases sucessivas. O acesso será aberto e sem restrições para todos os utilizadores. Haverá ainda uma área de ensino e investigação especificamente concebida para criar uma comunidade, com a participação daqueles que estudam e ensinam o LdoD em todo o mundo. Esta dimensão participativa é outra das capacidades do meio digital para a qual esperamos desenvolver programação e funcionalidades específicas no arquivo. 

Na sua opinião esta edição electrónica marcará um momento para além do qual todas as edições críticas posteriores do "Livro" se verão limitadas por existir um arquivo digital do mesmo? Como prevê no futuro integrar outras leituras subsquentes advindas de novas edições? 

O arquivo do LdoD permitirá gerar edições de configuração variável, de acordo com critérios específicos que serão processados automaticamente. O seu objetico não é substituir as edições singulares que existem ou as que venham a existir, mas sim criar um espaço de modelação e de simulação da dinâmica da escrita, da edição e da leitura como processos de produção do livro. A possibilidade de integrar novas leituras será um sinal de que o projeto terá conseguido estruturar a sua base de dados e as suas funcionalidades tal como as imaginámos. Mas isso só o futuro dirá. É preciso não esquecer o título do projeto, que tomámos de empréstimo a Bernardo Soares: 'Nenhum Problema Tem Solução'...