sexta-feira, junho 01, 2012

"O Mendigo e Outros Contos" - Uma Apreciação Crítica









"O Mendigo e Outros Contos", edição a cargo de Ana Maria Freitas pela Assírio e Alvim (agora já parte do grupo Porto Editora), traz-nos uma colecção de contos de Pessoa que reúne material inédito e outro material nunca antes apresentado em língua Portuguesa (com apenas uma excepção, o conto "O Peregrino").

Ontem falámos de uma outra edição de contos de Pessoa e, colocando-a em confronto com esta da Assírio, é evidente qual prevalece. A edição da Assírio é muito mais cuidada, tanto ao nível do critério de edição - são escolhidos apenas contos ainda não conhecidos do público (doze), quer por estarem inéditos ou publicados fora de Portugal - e a apresentação dos textos é feita de forma mais científica, embora não se tratanto em rigor de uma edição crítica, como bem indica a editora.

Ana Maria Freita elabora uma excelente introdução explicando de maneira sucinta mas completa as raízes da vertente contista de Pessoa, elaborando mais em profundidade sobre determinados pormenores de grande interesse, como sejam os nomes de algumas personalidades literárias dedicadas aos contos e respectivo papel no todo da obra de Pessoa. A editora introduz também um termo que nos parece muito interessante: conto estático. Dá este nome aos contos intelectuais, em que Pessoa parte de um conceito e onde se desenrola uma teoria, sem acção - comparativamente com a falta de acção nos dramas estáticos para teatro de Pessoa. Três dos textos inéditos são contos estáticos: «O filatelista», «Num Bar de Londres» e «O Mendigo». 

Para qualquer Pessoano "O Mendigo e Outros Contos" é uma adição essencial para a sua biblioteca, compondo um espaço ainda vazio da obra Pessoana publicada. Embora os contos presentes nesta edição não sejam de valor extraordinário, eles ampliam a nossa visão de Pessoa contista e isso é uma mais valia evidente do volume. 

Esta edição pode ser adquirida aqui

Um agradecimento a Ana Maria Freitas pelo envio de um exemplar para análise.

quinta-feira, maio 31, 2012

"Contos Completos" - Uma Apreciação Crítica










Curiosamente, ou talvez não, Maio marca a edição de dois volumes de contos de Pessoa. 

O primeiro que analisamos intitula-se "Contos Completos" e é editado pela Antígona.

Este volume reúne 17 textos, com um critério que nos parece um pouco amplo pois não se tratam apenas de contos mas incluem por exemplo textos publicitário, traduções e até o drama estático "O Marinheiro", que não é propriamente um conto mas um drama estático para encenação teatral (aliás, na edição de contos da Assírio & Alvim existem contos estáticos, que, claramente são contos e não dramas para teatro). Inexplicavelmente, faltam outros contos como "Um jantar muito original" que, nesta lógica, deveria estar presente. Seja como for, no âmbito mais amplo das ficções narrativas, o volume pretende reunir pela primeira vez num só volume este tipo de produção Pessoana apresentando assim Pessoa ao público para além do prosador do "Livro do Desassossego" e mesmo da prosador das novelas policiárias de Abílio Quaresma. 

O volume inicia-se com um texto introdutório da responsabilidade de Zetho Cunha Gonçalves. Confesso que o nome não me era imediatamente familiar. Na "Pessoana" de José Blanco não aparece, mas ele afinal já publicou Pessoa, mais propriamente "Contos, fábulas e outras ficções" pela editora Bonecos Rebeldes em 2008 (razão porque não aparece na "Pessoana", que vai apenas até fim de  2004). Aliás, essa edição parece ser uma proto-edição da presente, pois já publicava alguns dos textos que encontramos nesta. 

A introdução é bastante fraca em termos científicos, revelando desde logo o porquê do critério amplo de edição (o editor nem sequer nos dá as variantes dos textos, como seria de esperar). Destaque para a opinião do editor, considerando Pessoa como um "elitista" que "nunca escondeu o seu menosprezo" pelo "povo mais humilde", referindo-se ao texto inédito "A varina e a lógica" (que tem, pasme-se, uma página para ele tirar esta conclusão fantástica). Claramente falta-lhe ler Pessoa mais amplamente, sobretudo para compreender como ele, desprezando os "brutos", almejava ao mesmo tempo ser um deles.  

Passando à organização do volume, ela passa por quatro partes: 1) Contos Completos; Crónicas Decorativas, 2) Fábulas para as Nações Jovens, 3) Contos Selectos de O. Henry e 4) Drama Estático. Em rigor são portanto contos de Pessoa os das partes 1) e 2). Destes, três são anunciados como inéditos: «A Varina e a Lógica», «O Cristão e o Católico» e «Crónica Decorativa II». No entanto, tanto «A Varina e a Lógica» quanto «O Cristão e o Católico» não são textos inéditos, tendo sido publicados por Jerónimo Pizarro no Jornal i, como noticiámos aqui e aqui. Um erro bastante grave do editor, mas que não nos surpreende, dado o que foi dito até aqui sobre este volume. 

Ignorando este facto, e em geral, todos estes textos, com a excepção porventura do «Banqueiro Anarquista» são de pouco valor literário e constituem quase que curiosidades, se bem que são utéis para compreendermos melhor a vertente humorista/moralista de Pessoa. Apenas nesse aspecto os poderemos recomendar ao leitor. A edição da Antígona, em confronto com a da Assírio & Alvim (de que falaremos amanhã) é mais pobre cientificamente e contém textos que na nossa opinião não podem ser considerados contos, não trazendo nada de propriamente novo para o mundo das edições Pessoanas - os "inéditos" que revela, dois deles com apenas uma página, já vimos que não podem constituir uma novidade, embora a «Crónica decorativa II» tenha algum interesse. 


Um agradecimento à editora Antígona pelo envio de um exemplar para análise.

quarta-feira, maio 30, 2012

"Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou" - Uma Apreciação Crítica










Fará falta um livro de mesa de café (cofee table book) sobre Pessoa? Devo dizer que o primeiro pensamento que me ocorreu quando me chegou às mãos o "Quanto fui, quanto não fui..." foi precisamente esse. Não só pelo volume do mesmo (pesa bastante e é, por isso mesmo, bastante caro), mas porque pode essencialmente servir apenas como livro de demonstração, sem se lhe exigir nenhuma profundidade Pessoana particular. 

Todos nós já visitámos locais onde estes livros pairam deitados e abandonados à sorte de serem apenas decorativos. Mas o livro que analisamos aqui não deve sofrer este mesmo pobre destino. Merece ser folheado, não só por conter obras de arte que merecem ser vistas, mas sobretudo porque essas obras se referem a Pessoa de modo sincero e, por vezes, brutal. 

Não entrando numa desnecessária (e impossível) crítica de arte, os quadros de Norberto Nunes presentes nesta edição podem ser resumidos como passando da impressão clara e quente (por exemplo as variações sobre o Pessoa a beber café e a ler) à impressão negra e fria (por exemplo as produções mais abstractas onde se perdem as feições do poeta ou se adivinham apenas por ângulos mortos e parciais).  

Quanto à arte, estamos falados - vale a pena. Mas há algumas coisas a apontar quanto ao resto, nomeadamente quanto à tradução para inglês feita de alguns conteúdos. As traduções a cargo de Richard Zenith deixam algo a desejar e, em alguns pormenores, são mesmo descabidas. Um dos textos introdutórios, intitulado "Um olhar sobre Pessoa" é traduzido como "A look through Pessoa" ("Um olhar através de Pessoa).... Uma queixa antiga que tenho é a falta de alguma coerência e sobretudo imaginação nas traduções de Pessoa para inglês, mas é tema que sai desta análise em particular. 

Em resumo não podemos deixar de recomendar vivamente esta edição, que adiciona muitos elementos valiosos à iconografia Pessoana. E, já agora, para quem tiver interesse em conhecer essa iconografia, recomendamos o excelente blog "Pessoa para todas as ocasiões". 

Esta edição pode ser adquirida online, neste link

Um agradecimento à editora Saída de Emergência pelo envio de um exemplar para análise.

terça-feira, maio 29, 2012

"Os Mensageiros" - Uma Apreciação Crítica










Foi lançada recentemente mais uma antologia de Fernando Pessoa no mercado nacional, intitulada "Os Mensageiros". A novidade desta antologia é reunir alguns nomes de peso como Ruy de Carvalho, Dulces Pontes ou Joaquim de Almeida, que emprestam as suas vozes para cantar (e declamar) Pessoa. 

Devo dizer que, pessoalmente, não sou um apreciador deste estilo de antologia que tenta musicar, um pouco desorganizadamente, a obra de Pessoa. Há que realçar que o próprio Pessoa tinha uma noção muito exacta do que seriam poemas a serem musicados, tendo inclusivé planeado uma edição denominada precisamente "Cancioneiro". É por isso um pouco estranho ver poemas de Caeiro ou de Campos musicados, embora isso não seja, obviamente, um crime de lesa-majestade.

O livro inicia-se por uma interessante (embora um pouco despropositadamente complexa) introdução de Luís Filipe Sarmento intitulada "O neopaganismo de Fernando Pessoa". Embora se aplauda o tema, o mesmo pode ser demasiado estranho para a maior parte das pessoas que vão adquirir esta obra. 

Depois há a antologia propriamente dita, com poemas ortónimos, de Campos, Caeiro e Reis. Nada a apontar quanto às escolhas - que são sempre subjectivas. 

O livro termina com a porção de poemas que foram musicados. Posso pecar por exagero mas, ouvindo todas as faixas como ouvi, não me pareceu que o trabalho musical tenha sido especialmente original ou criativo, limitando-se muitas vezes a um acompanhamento simples ao piano. Aliás, o mesmo poderia ser dito de toda a edição, que não prima pela originalidade, mas que pode ser muito interessante para uma iniciação leve a Pessoa. 

No entanto há uma faixa que não podemos deixar de destacar: "O amor, quando se revela", cantado pela cantora de Jazz Ângela Maria. É-nos dito que a cantora faz a sua estreia neste CD que acompanha a antologia e, em nosso entender, faz uma excelente estreia, conseguindo a melhor faixa. Deixamos aqui precisamente esta faixa para que a possam ouvir:



Esta edição já está à venda, podendo ser adquirida aqui.

Um agradecimento à Seven Muses pelo envio de um exemplar para análise. 

segunda-feira, maio 28, 2012

Crítica de "Fernando Pessoa - Uma quase Autobiografia" por Teresa Rita Lopes









Foi publicado ontem, no jornal Público (separata Ípsilon), uma crítica do livro "Fernando Pessoa - Uma quase Autobiografia" de José Paulo Cavalcanti, por Teresa Rita Lopes. Deixamos aqui o texto integral para quem não teve oportunidade de o ler. 

Relembramos que os dois Pessoanos têm trocado algumas impressões no nosso blog, que podem ser recordadas aqui e aqui.

sexta-feira, maio 25, 2012

"Pessoa ou a Porta Aberta" de Eduardo Lourenço



Ao receber o Prémio Pessoa 2011 Eduardo Lourenço aproveitou o agradecimento para dar uma lição sobre Pessoa e clicando aqui podem ter acesso à sua comunicação intitulada "Pessoa ou a Porta Aberta", escrita pelo seu próprio punho.

Ps: o ficheiro é bastante grande e poderá demorar alguns minutos a descarregar.