segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Entrevista do Prof. Pizarro à Revista Escrita



O Prof. Jerónimo Pizarro deu uma interessante entrevista, sob o título "O desafio de editar Pessoa", no n.º 13 da Revista Escrita, a revista dos alunos do Programa de Mestrado e Doutoramento em letras da PUC-Rio.

Para lerem esta entrevista basta clicarem aqui.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Uma exposição, Uma arca. Uma esperança.



"Fernando Pessoa, Plural como o Universo". Visitei a exposição ontem e deixo aqui as minhas impressões iniciais. A exposição é breve e sintética, mas penso que muito atractiva sobretudo para quem conheça mal Pessoa e essa é a sua principal virtude. Há momentos para todos, desde a descoberta visual da poesia, à deliciosa contemplação de material original, cartas, poemas, pequenos cadernos.

E depois, na sala final, o monumento "fúnebre" que é a Arca dos Inéditos, posta em destaque como fulcro de toda a exposição, parece respirar com vontade própria e simultaneamente assombra tudo o resto em seu redor de qualquer significado verdadeiro. Devo dizer que fiquei uns momentos perto dela e vi-a de todos os ângulos com algum medo de estar a sonhar. Mas não. Ela estava mesmo ali. Quem por aqui passa deve conhecer a petição que promovi (e promovo) para recuperarmos a Arca para o domínio público. Tem sido impossível conhecer avanços na petição, por falta de vontade política. Mas, assim, sem preparação, ali estava ela. Vale a pena a visita à exposição só para a ver, porque aquele é um monumento pobre e gasto de toda a nossa cultura, está ali toda a nossa identidade, polida e riscada, de fecho partido e arrancada à sua casa. Que melhor síntese há da nossa alma de país, partida e subjugada mas ainda assim forte e afirmativa? Cheguei com raiva de a ver e com vontade de insistir em que o proprietário a cedesse de volta à casa dela, à Casa Fernando Pessoa, mas talvez esteja errado, talvez ela esteja destinada a sofrer como o seu dono morto. Talvez ela esteja destinada a não ter casa nem ter sossego, como ele nunca teve. Talvez isto faça tudo sentido assim, tortuosamente.

Seja como for, vão lá se puderem. Passem por ela e deitem-lhe um olhar piedoso. Ela merece. Mas não tenham pena dela. Não é a mesma coisa. Se não entendem agora, passem por lá, vão entender certamente depois de estarem à frente dela. Há ali qualquer coisa superior e qualquer coisa que nos diz respeito a todos, mas individualmente.

Uma pequena nota para uma sanguínea que Negreiros fez de Pessoa e que está precisamente na parede oposta à da arca - sem se verem, porque a parede está pelo meio. Um quadro pequeno mas que mostra um Pessoa incrível, desregrado, diferente. Ali está o espírito que morre do outro lado da parede e, combinados, fazem a alma presente do Pessoa naquele espaço.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Jornal de Letras destaca Pessoa



A edição 1079 do Jornal de Letras, já nas bancas, destaca Pessoa, com o título de capa "Pessoa, plural e singular". No interior da edição, e a propósito da exposição "Fernando Pessoa, Plural como o Universo", encontram-se entrevistas a Richard Zenith, José Paulo Cavalcanti, bem como artigos de Miguel Real e Teresa Rita Lopes. São publicados também dois inéditos de Pessoa. A não perder!

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

"Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano" - 5.ª sessão


A quinta sessão do Ciclo de Conferências «Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano» ocorrerá no dia 8 de Fevereiro de 2012, na Casa Fernando Pessoa. A sessão terá início às 18:30 e contará com a seguinte programação:

1- Fernando Cabral Martins - O que Mostram as Cartas Astrológicas de Pessoa.

2- António Feijó - Para Precisar a Posição Filosófica de Alberto Caeiro.

No final da sessão será apresentado o livro Linguagem e Valor: Entre o Tratactus e as Investigações, organizado por Nuno Venturinha, cuja apresentação não pode ser realizada na anterior sessão de 11 de Janeiro.

Organização: Paulo Borges, Nuno Ribeiro e Cláudia Souza.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

"Pessoa & CIA" publicado na Espanha



Foi lançado na Espanha uma novela gráfica que tem Fernando Pessoa como herói principal. Chama-se "Pessoa & CIA" e foi desenvolvido por Laura Pérez Vernetti, sendo publicado pela editora Luces de Gálibo. Vamos tentar obter um exemplar para darmos uma opinião mais avisada, dentro em breve.

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

"Sebastianismo e Quinto Império" - Uma Apreciação Crítica




A Ática continua a publicação de obras de excelente qualidade, dentro da colecção "Obras de Fernando Pessoa Nova Série", desta vez com o volume "Sebastianismo e Quinto Império", uma edição a cargo de Jorge Uribe e Pedro Sepúlveda.

A equipa de jovens investigadores reunida pelo Prof. Jerónimo Pizarro continua a sua missão (certamente em igual medida sofrida e recompensadora) de re-explorar o espólio de Fernando Pessoa com vista à reorganização da obra já publicada bem como pretendendo desvendar novos documentos inéditos. Aliás, esta edição traz um volume muito interessante de material até aqui não publicado, mais precisamente 43 textos inéditos, entre os quais se destaca um conjunto de 21 páginas que constitui um ensaio sobre o "Quinto Império".

Não é novidade que Pessoa tinha um grande interesse no Sebastianismo e no "Quinto Império" enquanto temas fortes do seu projecto de reanimar a alma Portuguesa. No entanto os presentes editores afirmam que o interesse de Pessoa, mais do que pontual, sublinhava uma espécie de influência contínua na sua obra, pelo menos desde o seu regresso a Portugal. Não é estranho a este sentimento o facto de Pessoa se sentir sempre um "estrangeirado", tentando muitas vezes compensar o facto de vir de fora com um exacerbado nacionalismo (que no entanto por vezes, e paradoxalmente, não se encontra deslocado numa época muito conturbada da política nacional).

O fascínio de Pessoa com estes temas ocultos da nacionalidade é dividido neste volume em duas grandes partes: Sebastianismo e "Quinto Império". Os editores tentaram organizar os textos dentro de cada grande tema por subtemas, de alguma forma dando uma coerência cronológica (possível) aos mesmos, o que nos permite uma quase leitura linear dos mesmos, como se estes fossem integrados dentro de um projecto editorial real. É assim possível compreender a evolução da própria interpretação do fenómeno Sebastianista, por exemplo, enquadrado quer na visão "corporativista" dos grupos a que Pessoa chegou a pertencer (de algumas revistas), quer na sua própria posição pessoal e solitária.

Percebe-se também melhor a intenção interventiva de alguns dos textos - e como os outros os fundamentos como alicerces. O projecto oculto de Pessoa, que está na base do seu projecto maior de reinvenção da alma Portuguesa e do próprio projecto nacional, acaba por desaguar na sua única obra publicada em vida em língua Portuguesa e este volume ajuda-nos a perceber o porquê disso ter acontecido e dessa ter sido uma preocupação no final da sua vida.

Para quem não conhece os textos ocultos de Pessoa esta é uma excelente introdução ao tema. Isto embora a colocação na mesma edição de semi-projectos tão diversos possa causar alguma confusão. Por exemplo o facto de poder ler sobre as trovas de Bandarra ou sobre as quadras de Nostradamus, poderá levar o leitor menos atento a considerar na mesma categorias os restantes escritos sobre D. Sebastião - ou seja, numa categoria de uma crença profética teórica e afastada de qualquer noção de realidade imanente. Penso que não devemos pensar assim, porque existem alguns temas, nomeadamente os dois que referimos, que acabam por ser auxiliares aos restantes e devem ser lidos dessa forma.

Como noutros volumes da mesma colecção, destaca
mos ainda as dimensões reduzidas que no entanto "escondem" uma edição muito completa, destacando-se os apêndices e as notas genéticas - que a distinguem das comuns edições neste formato.

Trata-se, em resumo, de mais um grande esforço editorial que é muito bem vindo, refrescando e actualizando o nosso conhecimento dos textos de Pessoa sobre D. Sebastião e o "Quinto Império". A colecção da Ática está assim a tornar-se essencial para o conhecimento da obra do poeta no Século XXI.

Ps: é possível ouvir uma curta entrevista a um dos editores, sobre esta obra, aqui.

Esta obra já está disponível para compra aqui.

Um agradecimento à Editora Ática pelo envio de um exemplar para análise.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

"Pessoa e Nietzsche" - Uma Apreciação Crítica



"Pessoa e Nietzsche", publicado em 2005 por António Azevedo, é o primeiro estudo profundo que relaciona dois dos mais importantes autores dos Séculos XIX e XX. Sabemos que Pessoa é tributário das ideias do filósofo Alemão e partilhou inclusive com ele diversos pormenores da vida pessoal, dos quais se destacam a orfandade de pai em tenra idade e o medo da loucura.

O primeiro ponto abordado é um ponto curioso: não existem; à hora da morte, livros do filósofo Alemão na biblioteca pessoal de Pessoa. Existem apenas indicações indirectas de que ele o leu, porque usou expressões típicas de Nietzche e também porque em outros livros fez anotações e sublinhados das suas ideias.

O grande desafio de um estudo sobre a influência de Nietzsche em Pessoa esbarra assim, logo de início, com a dificuldade de saber em que medida Pessoa leu Nietzche. É possível que o tenha lido extensivamente e tenha vendido os livros, mas penso que há algo a ler no facto de nenhum ter sido guardado até à data da sua morte. Foi o interesse de Pessoa em Nietzche de facto decisivo no seu "futurismo" (ele na verdade recusou sempre o rótulo de futurista) ou foi Pessoa naturalmente atraído pelos mesmos temas desenvolvidos pelo Alemão, que eram já em si mesmos temas fin de siècle como a morte de Deus, a solidão, o individualismo, a força/vitalidade individual, o renascimento dos valores da antiguidade Grega e a decadência da religião? Serão todos os autores que escrevem no Séc. XX sobre estes temas necessariamente tributários de Nietzsche?

Parece ser neste sentido que António Azevedo dedica uma parte importante do livro a explicar a sua visão da recepção de Nietzsche nas literaturas Europeias e em particular na Portuguesa.

António Azevedo consegue identificar bem que Pessoa se interessa por alguns temas centrais em Nietzsche, sobretudo o tema da decadência (ou degenerescência) e do paganismo (ou "regresso dos deuses") e ambos os temas expressos na sua consequência prática social. Estes temas fortes teriam por directo resultado também a génese dos heterónimos do "regresso ao início" ou ao "princípio: Caeiro (regresso à natureza/inocência) e Reis (regresso simultâneo à antiguidade e à força epicurista).

Tratado de seguida, o tema do paganismo, recorrente do enorme tema da "morte de Deus", domina também a análise em torno da perspectiva religiosa Pessoana. António Azevedo escreve, e com razão, que a própria temática da "morte de Deus" não se esgota só no paganismo, mas reflecte-se também (e com relevo) no ocultismo/misticismo Pessoano. A "morte de Deus" é, sobretudo, a morte do "Deus cristão" ou do conceito estrito do "Deus cristão" para revelar todas as dimensões possíveis da sua espiritualidade e da transcendência (ou metafísica). Curiosamente o autor parece ter ignorado as críticas de Pessoa ao paganismo de Nietzsche, que classifica como "estrangeiro" e falso.

Na parte final do volume é abordado o problema genérico da morte da filosofia (que nos interessa particularmente) e da crise gnosiológica e ontológica vivida na transição do Séc. XIX para o XX. António Azevedo vê o fenómeno heteronímico enquanto nascente de uma estetização da metafísica e da própria ontologia. O sonho aparece, no poeta, enquanto reacção à impossibilidade da compreensão do mundo (e da verdade). É certamente uma posição defensável, mas tendemos a discordar dela, porque vemos o sonho não como recusa do acesso à verdade material mas enquanto uma verdade material interior. No entanto o autor defende a sua posição com habilidade e há que o reconhecer.

O livro propriamente dito termina com a análise da parte da obra de Pessoa mais facilmente identificável com a influência de Nietzsche - Álvaro de Campos.

Ao terminá-lo o autor parece concordar connosco na medida em que identifica a influência Nietzschiana não enquanto uma influência directa e unívoca, mas inserida em menor grau (mas com alta preponderância) entre as influências vindas do fim do Séc. XIX, que nos trouxeram um homem deslocado do centro do universo para o centro de uma decadência de todos os valores do iluminismo e sobretudo da própria razão enquanto instrumento para atingir a verdade.

Não podemos deixar de elogiar a um alto grau este "Pessoa e Nietzsche" enquanto análise lúcida, erudita e completa da influência da obra do filósofo Alemão no poeta Português. Este é um volume de referência, obrigatório na biblioteca de qualquer interessado no estudo da obra de Fernando Pessoa.

Um agradecimento à Instituto Piaget Editora pelo envio de um exemplar para análise.