quinta-feira, fevereiro 02, 2012

"Sebastianismo e Quinto Império" - Uma Apreciação Crítica




A Ática continua a publicação de obras de excelente qualidade, dentro da colecção "Obras de Fernando Pessoa Nova Série", desta vez com o volume "Sebastianismo e Quinto Império", uma edição a cargo de Jorge Uribe e Pedro Sepúlveda.

A equipa de jovens investigadores reunida pelo Prof. Jerónimo Pizarro continua a sua missão (certamente em igual medida sofrida e recompensadora) de re-explorar o espólio de Fernando Pessoa com vista à reorganização da obra já publicada bem como pretendendo desvendar novos documentos inéditos. Aliás, esta edição traz um volume muito interessante de material até aqui não publicado, mais precisamente 43 textos inéditos, entre os quais se destaca um conjunto de 21 páginas que constitui um ensaio sobre o "Quinto Império".

Não é novidade que Pessoa tinha um grande interesse no Sebastianismo e no "Quinto Império" enquanto temas fortes do seu projecto de reanimar a alma Portuguesa. No entanto os presentes editores afirmam que o interesse de Pessoa, mais do que pontual, sublinhava uma espécie de influência contínua na sua obra, pelo menos desde o seu regresso a Portugal. Não é estranho a este sentimento o facto de Pessoa se sentir sempre um "estrangeirado", tentando muitas vezes compensar o facto de vir de fora com um exacerbado nacionalismo (que no entanto por vezes, e paradoxalmente, não se encontra deslocado numa época muito conturbada da política nacional).

O fascínio de Pessoa com estes temas ocultos da nacionalidade é dividido neste volume em duas grandes partes: Sebastianismo e "Quinto Império". Os editores tentaram organizar os textos dentro de cada grande tema por subtemas, de alguma forma dando uma coerência cronológica (possível) aos mesmos, o que nos permite uma quase leitura linear dos mesmos, como se estes fossem integrados dentro de um projecto editorial real. É assim possível compreender a evolução da própria interpretação do fenómeno Sebastianista, por exemplo, enquadrado quer na visão "corporativista" dos grupos a que Pessoa chegou a pertencer (de algumas revistas), quer na sua própria posição pessoal e solitária.

Percebe-se também melhor a intenção interventiva de alguns dos textos - e como os outros os fundamentos como alicerces. O projecto oculto de Pessoa, que está na base do seu projecto maior de reinvenção da alma Portuguesa e do próprio projecto nacional, acaba por desaguar na sua única obra publicada em vida em língua Portuguesa e este volume ajuda-nos a perceber o porquê disso ter acontecido e dessa ter sido uma preocupação no final da sua vida.

Para quem não conhece os textos ocultos de Pessoa esta é uma excelente introdução ao tema. Isto embora a colocação na mesma edição de semi-projectos tão diversos possa causar alguma confusão. Por exemplo o facto de poder ler sobre as trovas de Bandarra ou sobre as quadras de Nostradamus, poderá levar o leitor menos atento a considerar na mesma categorias os restantes escritos sobre D. Sebastião - ou seja, numa categoria de uma crença profética teórica e afastada de qualquer noção de realidade imanente. Penso que não devemos pensar assim, porque existem alguns temas, nomeadamente os dois que referimos, que acabam por ser auxiliares aos restantes e devem ser lidos dessa forma.

Como noutros volumes da mesma colecção, destaca
mos ainda as dimensões reduzidas que no entanto "escondem" uma edição muito completa, destacando-se os apêndices e as notas genéticas - que a distinguem das comuns edições neste formato.

Trata-se, em resumo, de mais um grande esforço editorial que é muito bem vindo, refrescando e actualizando o nosso conhecimento dos textos de Pessoa sobre D. Sebastião e o "Quinto Império". A colecção da Ática está assim a tornar-se essencial para o conhecimento da obra do poeta no Século XXI.

Ps: é possível ouvir uma curta entrevista a um dos editores, sobre esta obra, aqui.

Esta obra já está disponível para compra aqui.

Um agradecimento à Editora Ática pelo envio de um exemplar para análise.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

"Pessoa e Nietzsche" - Uma Apreciação Crítica



"Pessoa e Nietzsche", publicado em 2005 por António Azevedo, é o primeiro estudo profundo que relaciona dois dos mais importantes autores dos Séculos XIX e XX. Sabemos que Pessoa é tributário das ideias do filósofo Alemão e partilhou inclusive com ele diversos pormenores da vida pessoal, dos quais se destacam a orfandade de pai em tenra idade e o medo da loucura.

O primeiro ponto abordado é um ponto curioso: não existem; à hora da morte, livros do filósofo Alemão na biblioteca pessoal de Pessoa. Existem apenas indicações indirectas de que ele o leu, porque usou expressões típicas de Nietzche e também porque em outros livros fez anotações e sublinhados das suas ideias.

O grande desafio de um estudo sobre a influência de Nietzsche em Pessoa esbarra assim, logo de início, com a dificuldade de saber em que medida Pessoa leu Nietzche. É possível que o tenha lido extensivamente e tenha vendido os livros, mas penso que há algo a ler no facto de nenhum ter sido guardado até à data da sua morte. Foi o interesse de Pessoa em Nietzche de facto decisivo no seu "futurismo" (ele na verdade recusou sempre o rótulo de futurista) ou foi Pessoa naturalmente atraído pelos mesmos temas desenvolvidos pelo Alemão, que eram já em si mesmos temas fin de siècle como a morte de Deus, a solidão, o individualismo, a força/vitalidade individual, o renascimento dos valores da antiguidade Grega e a decadência da religião? Serão todos os autores que escrevem no Séc. XX sobre estes temas necessariamente tributários de Nietzsche?

Parece ser neste sentido que António Azevedo dedica uma parte importante do livro a explicar a sua visão da recepção de Nietzsche nas literaturas Europeias e em particular na Portuguesa.

António Azevedo consegue identificar bem que Pessoa se interessa por alguns temas centrais em Nietzsche, sobretudo o tema da decadência (ou degenerescência) e do paganismo (ou "regresso dos deuses") e ambos os temas expressos na sua consequência prática social. Estes temas fortes teriam por directo resultado também a génese dos heterónimos do "regresso ao início" ou ao "princípio: Caeiro (regresso à natureza/inocência) e Reis (regresso simultâneo à antiguidade e à força epicurista).

Tratado de seguida, o tema do paganismo, recorrente do enorme tema da "morte de Deus", domina também a análise em torno da perspectiva religiosa Pessoana. António Azevedo escreve, e com razão, que a própria temática da "morte de Deus" não se esgota só no paganismo, mas reflecte-se também (e com relevo) no ocultismo/misticismo Pessoano. A "morte de Deus" é, sobretudo, a morte do "Deus cristão" ou do conceito estrito do "Deus cristão" para revelar todas as dimensões possíveis da sua espiritualidade e da transcendência (ou metafísica). Curiosamente o autor parece ter ignorado as críticas de Pessoa ao paganismo de Nietzsche, que classifica como "estrangeiro" e falso.

Na parte final do volume é abordado o problema genérico da morte da filosofia (que nos interessa particularmente) e da crise gnosiológica e ontológica vivida na transição do Séc. XIX para o XX. António Azevedo vê o fenómeno heteronímico enquanto nascente de uma estetização da metafísica e da própria ontologia. O sonho aparece, no poeta, enquanto reacção à impossibilidade da compreensão do mundo (e da verdade). É certamente uma posição defensável, mas tendemos a discordar dela, porque vemos o sonho não como recusa do acesso à verdade material mas enquanto uma verdade material interior. No entanto o autor defende a sua posição com habilidade e há que o reconhecer.

O livro propriamente dito termina com a análise da parte da obra de Pessoa mais facilmente identificável com a influência de Nietzsche - Álvaro de Campos.

Ao terminá-lo o autor parece concordar connosco na medida em que identifica a influência Nietzschiana não enquanto uma influência directa e unívoca, mas inserida em menor grau (mas com alta preponderância) entre as influências vindas do fim do Séc. XIX, que nos trouxeram um homem deslocado do centro do universo para o centro de uma decadência de todos os valores do iluminismo e sobretudo da própria razão enquanto instrumento para atingir a verdade.

Não podemos deixar de elogiar a um alto grau este "Pessoa e Nietzsche" enquanto análise lúcida, erudita e completa da influência da obra do filósofo Alemão no poeta Português. Este é um volume de referência, obrigatório na biblioteca de qualquer interessado no estudo da obra de Fernando Pessoa.

Um agradecimento à Instituto Piaget Editora pelo envio de um exemplar para análise.

terça-feira, janeiro 31, 2012

"Fernando Pessoa e as Estratégias da Razão Política" - Uma Apreciação Crítica



"Fernando Pessoa e as Estratégias da Razão Política", de José Fernando Tavares, originalmente publicado em 1998 pela Instituto Piaget Editora, foi à altura um dos primeiros grandes estudos sistematizados sobre a visão política de Fernando Pessoa.

Este tema da política em Pessoa tem sido abordado na actualidade por diversos investigadores e toma cada vez mais relevo, sobretudo quando tendemos a olhar Pessoa enquanto um não-interventivo e alguém com uma alcance e divulgação limitadas enquanto era ainda vivo. Como se pode ler neste volume isso não era bem verdade, pois ele publicou várias centenas de textos em vida e muitos deles com intensas posições políticas.

No entanto este volume abre com uma introdução em que o autor nos remete inicialmente para o misticismo na posição política de Fernando Pessoa. Este será um princípio que influencia toda a escrita do livro, pois Pessoa é visto enquanto um poeta-político e essas dimensões nunca são verdadeiramente separadas uma da outra. Se é verdade a certo ponto, não é menos certo que certas posições políticas de Pessoa não parecem ter tido nada a ver com a sua vertente de escritor, mas antes de homem de ideias próprias, fortes e formadas.

O autor, no seu direito, escolheu ligar a poesia, a filosofia e a política, apresentando-nos assim uma visão mais ampla do que seria a posição política de Pessoa.

Após a introdução somos levados à análise dos principais escritos políticos de Pessoa que foram publicados por ele: "Crónicas da vida que passa", "O preconceito da ordem", "Como organizar Portugal", "A opinião pública" e "O interregno"; bem como alguns textos inéditos à data da sua morte. Através deles o autor tenta-nos explicar concisamente a forma como próprio pensamento político de Pessoa evoluia (e muitas da vezes mudava). São incluidas também algumas páginas de grande interesse sobre a questão da Grande Guerra e da União Ibérica, dois temas que muito interessaram ao poeta; e a questão da posição dele quanto ao Estado Novo.

José Tavares termina o livro falando sobre três teorias políticas que Pessoa via na génesis de uma restauração da república: "Teoria do sufrágio político" (reflectindo sobre a consulta popular), "Teoria da República Aristocrática" (reflectindo sobre a relevância de um líder carismático) e o "Nacionalismo Liberal" (reflectindo na Nação enquanto escola onde se aprende a liberdade de espírito e a fraternidade).

Em resumo qual seria a posição política de Pessoa? O autor não nos responde e remete-nos para a evolução (às vezes feita mais de recuos e avanços do que propriamente evoluções) das posições políticas de Pessoa ao longo do tempo, não esquecendo porém o que ele considerava ser no final de vida: "monárquico mas republicano por utilitarismo, conservador mas ao estilo liberal e anti-reaccionário". Ou seja, parece-nos que a posição política de Pessoa não fugiria muito à sua própria posição pessoal: um homem vivendo num período muito conturbado, privado mas com fortes posições públicas, reservado e tradicional mas incondicional defensor do futuro e da modernidade.

Quanto à questão de ele ser um interventivo ou um indisciplinador, o autor parece defender mais a última opção, mas nós lembraríamos o que disse José Barreto - o investigador que no presente mais tem publicado sobre este assunto - quando ele refere que, no seu tempo, Pessoa seria o equivalente aos intelectuais dos nossos dias que, comentando a actualidade política e sem cargos políticos próprios, a tentariam influenciar através da sua análise.

Um agradecimento à Instituto Piaget Editora pelo envio de um exemplar para análise.

segunda-feira, janeiro 30, 2012

«Eu ser descoberto em 2198» na Revista Ler



O número de Janeiro de 2012 da Revista Ler, já nas bancas, traz um interessantíssimo artigo sobre Fernando Pessoa, da autoria do Prof. Jerónimo Pizarro, com o título "Eu ser descoberto em 2198". Nele o investigador pessoano traz à luz um inédito de Pessoa relacionado com a análise da sua data de nascimento - um tema querido a todos os que já tenham lido um pouco da obra de Pessoa em redor do Sebastianismo. Imperdível e por isso mesmo disponibilizamos a todos o acesso ao artigo completo, bastando clicarem aqui para o lerem.

sexta-feira, janeiro 27, 2012

N.º 2 da Revista Modernista



O número 2 da Revista Modernista, revista online de estudos modernistas do Instituto de Estudos sobre o Modernismo, já está disponível para leitura aqui. Destacam-se, neste número, os artigos apresentados no encontro Álvaro de Campos e arredores que decorreu em Tavira há alguns meses atrás.

Esta publicação está a tornar-se uma referência e como sempre todos os artigos são gratuitos e podem ser lidos simplemente através de um acesso rápido ao site. Boas notícias para todos os apaixonados por Pessoa :)

quinta-feira, janeiro 26, 2012

"Fernando Pessoa - Outramento e Heteronímia" - Uma Apreciação Crítica



Como prometido começamos hoje a recensão de três obras da Instituto Piaget Editora. O primeiro livro de que vamos falar é "Fernando Pessoa - Outramento e Heteronímia", escrito por António Azevedo.

Este pequeno volume, com pouco mais de 120 páginas, apresenta um resumo conciso e bem conseguido do que é o fenómeno da heteronímia e como ele se relaciona com a necessidade de "outramento" em Fernando Pessoa.

O autor parte a "viagem de outramento", cronologicamente, em três fases: dispersão do eu, criação dos heterónimos e criação dos semi-heterónimos. Julgo que foi a primeira vez que vi o processo descrito de forma tão sintética e devo dizer que torna a compreensão do mesmo mais fácil. Não quer isso dizer que tenhamos necessariamente de concordar com esta progressão. Há sobreposição de alguns semi-heterónimos na fase heteronímica, por exemplo, e não se pode propriamente dizer que a dispersão do eu tivesse terminado necessariamente com a criação da personalidade heteronímicas mais fortes.

A maior força deste volume acaba, por isso mesmo, por ser a sua maior fraqueza. O autor tenta, com grande decisão, organizar um processo que é por natureza caótico, explanando-o de forma racional. Mas, no que toca à tentativa, ela é uma tentativa muito boa. Serviria mesmo, em retrospectiva, de plano elaborado para um objectivo que não se chega a perceber bem qual é - apenas se fala na produção de uma espécie de "arte superior".

Se é certo que Pessoa considera que falhou no seu projecto, não é menos verdade que o livro também falha em demonstrar isso mesmo. É demasiado organizado e planeado quando nos parece que nada no processo de "outramento" foi planeado. Mesmo quando Pessoa decide criar os heterónimos ele é impulsionado por uma pulsão externa: a enorme influência de Sá-Carneiro, que não é muito reforçada neste estudo.

Também existem mais algumas lacunas, sobretudo no estudo dos pré-heterónimos, sendo apenas abordado com alguma profundidade Alexander Search.

"Fernando Pessoa - Outramento e Heteronímia" acaba, em resumo, por ser um estudo muito honesto e bem conseguido do que seria um plano heteronímico, no entanto fica curto desse objectivo simplesmente porque na realidade não houve plano nenhum. Desde logo a "morte do eu", atirada para razões de estética e filosofia, não foi mais do que uma reacção instintiva a factores externos inegáveis, de raiz iminentemente psicológica. Não há, em muito da heteronímia, senão mesmo em toda ela, nada de literatura que não seja, antes, de razão de vida. Estes estudos, por muito valiosos que sejam, correm sempre o risco de desumanizar um poeta que, antes de poeta, era um homem.

Um agradecimento à Instituto Piaget Editora pelo envio de um exemplar para análise.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Pessoa em cena na Venezuela



"Pessoas o fados de Pessoa" é o nome de uma encenação de teatro musical a partir de textos de Fernando Pessoa que está agora em cena na cidade de Caracas, capital da Venezuela, no Teatro Trasnocho.

«O espectáculo é feito em português e espanhol, por cinco artistas venezuelanos, como uma homenagem à alma portuguesa. É uma obra muito especial porque há muita sensibilidade», explicou um dos artistas à Agência Lusa.