Entrevista que se torna interessante a partir dos 50m, com alguns pormenores sobre o enterro e depois exumação do corpo de Pessoa. Cliquem na imagem para ver a entrevista completa no site da OdivelasTV.
"Olhares Europeus sobre Fernando Pessoa" reúne, num só volume, sob organização do Prof. Paulo Borges, as conferências efectuadas no colóquio com o mesmo nome que decorreu em Junho de 2009 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mas não só, porque foram acrescentadas mais tarde outras, de outros jovens investigadores Pessoanos, sendo que todas são do âmbito filosófico.
Não deixamos de realçar, desde logo, a importância de edições como estas para os estudos Pessoanos contemporâneos. Cada vez mais Pessoa está a ser abordado filosoficamente e isso vai permitir descobrir na sua obra novas dimensões até aqui desconhecidas.
No volume constam 12 artigos.
No primeiro Julia Alonso fala sobre o "pensamento do nada" em Pessoa, descorrendo sobretudo em volta de Parménides; uma interessante análise ontológica que pega em alguns textos filosóficos de Pessoa e os analisa meticulosamente. De seguida Adelino Braz fala do "abismo ontológico" em Pessoa, no âmbito do desassossego, do "estado de não ser que, no entanto, existe" - levando a uma ontologia poética.
Pedro Sepúlveda fala do "Drama em gente como drama em livros". Este é talvez o menos filosófico dos artigos, em continuidade com o artigo seguinte, em que Daniel Duarte aborda o nacionalismo de Pessoa. No entanto o artigo que se segue reintroduz em força a análise filosófica com a análise de Dirk Hennrich "Ultimatos à Metafísíca. Fernando Pessoa a partir de Emanuel Kant". A crítica da metafísica em Pessoa é um tema forte de alguns estudos recentes (um dos quais analisamos aqui) e é uma vertente muito interessante (e polémica).
A teosofia foi uma das outras paixões de Pessoa (embora, como todas a suas paixões, de vida curta). António Faria analisa esta questão em "Pessoa e a Teosofia". Trata-se de um estudo muito interessante e original porque, ao que me recordo, não existe grande obra publicada nesta vertente Pessoana.
Seguem-se três excelentes estudos que relacionam Pessoa e Nietzsche, respectivamente de António Cardiello, Pablo López e Nuno Ribeiro. Paulo Borges fala depois de "António Machado e Pessoa"; Dagmara Kraus fala depois da influência (curiosa) de Pessoa em Emil Cioran e o volume termina com um artigo que nos fala da leitura do Livro do Desassossego dentro de uma perspectiva da psicologia de James Hillman (um artigo da autoria de Fabrizio Boscaglia).
Embora "Olhares sobre Fernando Pessoa" pudesse ser um volume mais coerente em termos da profundidade dos artigos incluídos, é, assim mesmo, um importante contributo para o crescente ramo de estudos filosóficos Pessoanos. Podemos recomendá-lo sem hesitar, para qualquer um que se interesse pelos mesmos. Um agradecimento ao Prof. Paulo Borges pelo envio de um exemplar para análise.
Tive ontem o prazer de participar na 3.ª sessão do Ciclo de Conferências «Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano» com uma conferência intitulada "Fernando Pessoa, o supra-Wittgenstein". Como prometido deixo-a agora aqui para que todos possam ter acesso à mesma para leitura integral online.
Intitula-se "Fernando Pessoa, um poeta predestinado" e ao que sabemos é apenas o segundo dicionário editado mundialmente sobre Pessoa, depois de se ter editado em 2009 o "Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português".
A edição deste dicionário, que tem mais de mil entradas, esteve a cargo do Grupo Zaffari, enquadrando-se na 7.ª edição da coleção “Dicionários”, num projecto concebido e realizado pelo escritor Luiz Coronel. A edição é acompanhada de um CD com récitas de entradas na voz de Zé Victor Castiel, Fernanda Carvalho Leite, Magda Beatriz e Paulo Tiaraju.
O Instituto Piaget publicou recentemente uma tradução do livro de Judith Balso "Pessoa, le passeur métaphysique". O título escolhido para a tradução Portuguesa foi "Pessoa entre uma terra nula e o céu que não existe". Judith Balso tem desempenhado um papel original na análise filosófica da obra Pessoana - julgo mesmo que será dos poucos autores que o fazem com alguma intencionalidade, sendo que a maior partes dos exegetas Pessoanos neste campo tendem a análises mais fragmentadas e episódicas do que seria apenas uma "faceta" da obra.
Para Balso, Pessoa desempenha um papel interessante na filosofia, e não apenas na poesia. Desde logo é de salientar que alguém olhe para Pessoa de um ângulo filosófico - é algo pouco comum, mas que se vai tornar inevitável nas próximas décadas - e além do mais que consiga aportar uma análise congruente. É o caso de Judith Balso, uma autora extremamente bem informada sobre Pessoa (embora ainda assim com algumas lacunas de alguém que não lê o state of the art publicado em Português) e a sua obra e que consegue construir raciocínios de grande valor em redor do que ele escreveu.
A pedra de toque da concepção de Balso é que Pessoa acredita no papel da poesia enquanto maneira de expurgar a metafísica da filosofia. Neste aspecto, Pessoa assemelhar-se-ia a Ludwig Wittgenstein, mas a via Pessoana seria a da poesia enquanto que a via do filósofo Austríaco seria a da filosofia da linguagem.
É certamente defensável uma posição deste tipo, embora eu a considere demasiado restrita. Aliás, o livro de Balso, se tem um defeito, é precisamente o de olhar para a poesia de Pessoa pelas suas partes e nunca como um todo - e aí é quase inevitável cair na tendência natural de assumir que a principal posição filosófica Pessoana ter de ser a posição anti-metafísica do "Mestre" Caeiro. Há uma passagem que esclarece definitivamente esta visão, quando Balso fala de António Mora, o pseudónimo filósofo e diz: "A não-convertabilidade da poesia heteronímica numa filosofia verifica-se nessa não-apresentação de um «heterónimo filósofo» - ele fica num estado de sombra, sem obra própria -, mas igualmente na impossibilidade de transpor os poemas do Guardador de Rebanhos num discurso filosoficamente interno à Discussão em Família" (pág. 41). Ou seja, a filosofia de Pessoa teria de ser uma "coisa" expressa, deliberada, e, a não ser assim, ela não existe como sistema, resume-se a uma posição.
A posição anti-metafísica de Caeiro domina todo o livro e toda a opinião de Judith Balso, ao ponto de apagar outras considerações interessantes, nomeadamente a visão do processo heteronímico enquanto um grande projecto ontológico, de descoberta do Ser. Balso toca neste princípio - que eu acho essencial - mas não o explora devidamente, preocupada em que está em atribuir uma vertente utilitarista à poesia Pessoana. Esta passagem é exemplo disto mesmo: "A poesia heteronímica (...) não sucede à filosofia, ela toma conscientemente a cargo a ontologia, colocando assim o poema à prova na sua capacidade de pensar o Ser" (pág. 209).
Entre as duas citações que colocamos, a autora analisa os outros heterónimos, dando a entender o papel desempenhado por cada um deles, mas sempre dentro da mesma visão de Pessoa enquanto "Barqueiro metafísico" do Século XX e por isso bem enquadrado com as tendências filosóficas nascentes do seu tempo, precursoras da filosofia da linguagem e do positivismo lógico do pós-guerra.
É curiosíssimo que os estudos Pessoanos estejam a evoluir para a compreensão mais vasta do papel desempenhado por ele na filosofia do seu tempo, embora ainda pareçam bloqueados pelo aparente "tabu" de ele ter sido essencialmente um poeta. O livro de Balso, agora numa bem-vinda tradução de grande qualidade para Português, traz à baila a necessidade dos estudiosos Pessoanos não terem medo de abordar este tema, porque só os ajudará a eles (e a nós) a ver em Pessoa mais do que apenas um grande poeta, um enorme pensador do seu (e nosso) tempo.
A conferência "Fernando Pessoa, el guardador de papeles" ocorreu no passado mês de Outubro, tal como noticiámos na altura. Agora estão disponíveis todos os vídeos referentes às diferentes comunicações, pelo que basta clicarem nos links respectivos para assistirem às mesmas: