segunda-feira, agosto 29, 2011

"Fernando Pessoa - Vida, Personalidade e Génio"




"Fernando Pessoa - Vida, Personalidade e Génio" é um dos livros essenciais de António Quadros resumindo perfeitamente, em modo de biografia, as posições daqueles pensador sobre Pessoa. Foi esta a primeira biografia de Pessoa que eu li, depois de ter completado a obra completa (também organizada por Quadros na Europa-América) e agora está novamente disponível depois de alguns anos em que se encontrou esgotada.

Recomendo vivamente que a adquiram, sobretudo se não têm nenhuma biografia de Pessoa. Trata-se de uma excelente introdução ao poeta e inclui, na minha opinião, um dos melhores artigos algumas vez escritos sobre Pessoa: "Fernando Pessoa, Heteronomia e Alquimia". A visão alquímica da obra (e da evolução da obra) Pessoana é simplesmente arrebatadora e original, sendo ainda muito pouco explorada actualmente.

quinta-feira, agosto 25, 2011

"Livro do Desassossego" (Edição Assírio & Alvim) - Uma Apreciação Crítica




Saiu no início deste ano a 9.ª edição do "Livro do Desassossego" pela editora Assírio & Alvim. Trata-se, indiscutivelmente, nem que seja pelo número de exemplares vendidos, a mais bem sucedida edição deste paradigmático texto Pessoano, ao ponto de se ter tornado a edição de referência em Portugal (e mesmo no estrangeiro, visto que há uma tradução Inglesa directa).

"Contra" esta edição encontramos actualmente pelo menos outras duas de relevo - a de Teresa Sobral Cunha e a Edição Crítica da Imprensa Nacional. Não valerá a pena discutir agora a longo o que distingue as edições umas das outras, pois todas têm as suas virtudes e os seus defeitos. No que interessa à análise presente cabe, no entanto, distinguir as qualidades que terão tornado a edição da Assírio a mais popular.

Desde logo, uma razão de oportunidade. Antes de 1997 existiam poucas edições do "Livro do Desassossego" verdadeiramente completas. A primeira edição, de 1982, acaba por se espelhar nas edições seguintes (1986 pela Presença, replicada também nos livros de bolso da Europa-América, a edição mais acessível de todas). Em 1997, Teresa Sobral Cunha edita o que seria um volume I de uma edição mais completa (seguindo a evolução desde 1982), mas a pesquisa cessa por ordem judicial dos herdeiros, que tinham entretanto entregado a edição à Assírio, regressando em 2008 mas com menos fulgor.

Crédito terá, no entanto, de ser dado à Assírio na divulgação de Pessoa junto do grande público, com edições cuidadas, atractivas e (na sua maioria) bem conseguidas ao nível técnico. Não será alheio a esse sucesso Richard Zenith - um americano, também ele poeta, freelancer, que se introduziu "maliciosamente" no meio Pessoano, continuando a ser um corpo estranho e continuando a gerar polémica e inveja em igual medida. O facto é que Zenith é o segundo factor essencial para a popularidade desta edição. O americano é conhecedor, muito prático, muito concreto, to the point e essa abordagem destoa completamente do resto das abordagens à obra de Pessoa que encontramos no mercado (demasiado simples ou demasiado académicas e complexas).

E se há uma edição onde compensa ser prático é precisamente esta. Sabemos como o "Livro" é fragmentário, difícil de editar, com mil critérios possíveis de adoptar para organização de textos... Zenith aproximou sempre a tarefa com algum pragmatismo, mesmo que sacrificasse supostamente o teor científico da obra final (sobretudo filológico). Aliás, como bem se entende, a edição de Zenith não é (nem pretende ser) uma edição crítica. A saída da edição crítica, no final de 2010 (a cargo de Jerónimo Pizarro) é mesmo abordada por Zenith na sua nota à 9.ª edição e toca precisamente no facto da sua organização poder ser cronológica e, por esse facto, talvez menos subjectiva.

Não haverá, porventura, grande grau de admiração entre a equipa da Imprensa Nacional (responsável pela Edição Crítica da obra Pessoana) e a equipa da Assírio & Alvim. Muita dessa inimizade tem bases científicas, mas existe um grau de competição, algo primitivo, que, sinceramente, sempre me escapou. O trabalho de ambas as equipas (bem como de Teresa Sobral Cunha na Relógio d'Água) é meritório e complementar, desaguando em melhores opções para o leitor de Pessoa. Quem se dirige a uma livraria em busca de uma edição do "Livro do Desassossego" tem hoje em dia uma escolha com grande variedade e qualidade, ficando, talvez, só mais exposto à edição da Assírio por razões de marketing editorial (a editora mostra uma grande força no destaque dado às suas obras nas prateleiras, em detrimento de uma muito menor exposição da Edição Crítica e mesmo da edição da Relógio d'Água, ambas com muito menos volumes impressos).

Pessoalmente, e tendo lido as três edições, não conseguiria recomendar apenas uma. Para o leitor ocasional a da Assírio será talvez a mais indicada, por ter uma essência mais simples e directa. No entanto essa simplicidade empalidece-a perante a Edição Crítica, mais robusta e apaixonadamente próxima dos papéis originais. Quanto a mim, e embora a edição de 2008 fique aquém da edição de 1997, continua a ser Teresa Sobral Cunha a apresentar a edição mais equilibrada, entre a aproximação ao original e o compromisso científico.

Ps: uma referência (sentimental) cabe ainda à edição da Europa-América, de António Quadros (pela qual eu li Pessoa pela primeira vez), ao que sei ainda a única de bolso, embora muito desactualizada continua a ser uma boa opção para quem gosta de ler Pessoa fora de casa (e são muitos que o fazem). Seria interessante que alguma editora abordasse o projecto de uma nova edição de bolso com as alterações necessárias advindas das outras edições já mencionadas.

Este volume pode ser adquirido online, neste link.

quarta-feira, agosto 24, 2011

Casa Fernando Pessoa passa para a EGEAC



Segundo noticiado pela imprensa desta manhã, a gestão da Casa Fernando Pessoa vai passar para a tutela da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), deixando de estar dentro da Câmara Municipal de Lisboa. Segundo explicações da vereadora da cultura, Catarina Vaz Pinto, esta transferência deve-se a razões de eficiência e trará melhorias na gestão deste equipamento cultural.

No entanto surgiram algumas dúvidas, nascidas sobretudo da consciência da própria instabilidade financeira da EGEAC (tem um buraco financeiro de 9 milhões de euros...), que é subsidiada pela CML para muitas das suas actividades. Esta empresa vai agora ser ainda mais sobrecarregada e é duvidoso se os planos de reabilitação previstos para a Casa Fernando Pessoa se vão cumprir (estavam previstos 1.8 milhões de euros para este efeito).


Seminário "Assuntos Nacionais" aborda Pessoa



A Rede de Filosofia e Literatura e o ELAB, Laboratório de Estudos Literários Avançados, da FCSH apresentam o 2º Seminário Aberto do Projecto Estranhar Pessoa, a realizar no próximo dia 27 de Setembro em Lisboa na FCSH. A entrada é livre e aberta a todos.

Este seminário (cujo programa em PDF podem consultar aqui) é dedicado aos escritos Pessoanos relativos aos "assuntos nacionais" e a última mesa do dia serve para o lançamento da nova edição da Ática "Sebastianismo e Quinto Império", que terá a edição de Jorge Uribe e Pedro Sepúlveda e que esperamos rever brevemente.

terça-feira, agosto 23, 2011

"A Mar" inspirado na "Mensagem" de Pessoa

Foi apresentado no passado dia 19 de Agosto um espectáculo de dança na Fundação Oriente, profundamente inspirado pela "Mensagem" de Fernando Pessoa. Com o nome "A Mar" e criada para o evento comemorativo das relações Macau/China, realizou-se na sala Oceanos no Casino de Lisboa, num convite do Museu do Mundo e da UCLA, representando o cruzamento Ocidente/Oriente através da dança. Vejam um excerto no vídeo em baixo:


quarta-feira, agosto 17, 2011

"Associações Secretas" - Uma Apreciação Crítica



Fernando Pessoa foi no seu tempo, para espanto de muitos que o conhecem marginalmente hoje em dia, por direito próprio, um activista político. Dada a sua influência nos círculos culturais da época, conseguia ser publicado nos maiores jornais e, no último ano da sua vida, deu-se a publicação do que muitos consideram ser o seu texto político mais importante, intitulado "Associações Secretas". A presente edição dá a conhecer a história deste importante artigo.

O artigo é singular por diversos motivos (como bem indica José Barreto, prefaciador e organizador desta edição): trata-se de uma intervenção política aberta de Pessoa, em ruptura com o Salazarismo, falando a favor da maçonaria e escapando ao lápis da censura. Há que lembrar que Pessoa tinha editado em 1934 a "Mensagem" - um texto bem recebido pela estrutura política do país, sobretudo por António Ferro que queria trazer Pessoa para o lado dos intelectuais do regime.

Os efeitos da publicação do artigo (que ocupou diversas páginas, incluindo a primeira, no Diário de Lisboa de 4/2/1935) é visível nos documentos publicados agora por Barreto, que ilustram a reacção de Pessoa aos críticos. Os textos sucessivos de Pessoa foram censurados e por isso nunca apareceram nos jornais como respostas. O poeta pretendia mesmo editar um livro em que publicaria novamente o artigo, mas com anotações e explicações posteriores - claro que isso nunca aconteceu, nem seria permitido pela censura.

Toda a história deste artigo é explicada pelos textos publicados com grande rigor pelo organizador da edição. Ficamos com uma ampla visão da maneira como Pessoa, no último ano de vida via Salazar e a sua política e, mais importante, como se distanciava cada vez mais dela ao ponto de eventualmente - se tivesse sobrevivido mais tempo - se tornar um opositor ferrenho da mesma. Realce para um excelente posfácio, que descreve pormenorizadamente toda a história do artigo, bem como as possíveis razões para o mesmo ter passado pela censura. O mesmo posfácio faz - como nos acostumou já Barreto - um bom resumo do enquadramento político deste texto no seu tempo (político).

Trata-se, em resumo, de uma edição de grande valia, que traz achegas muito valiosas para compreendemos o papel político de Pessoa em 1935 e a maneira como o próprio sistema político da época se via confundido pela sua figura.

Este volume pode ser adquirido online, neste link.

Um agradecimento à editora Ática pelo envio de um exemplar para análise.