quinta-feira, agosto 11, 2011

Revista Latitudes n.º 40



O n.º 40 da revista Latitudes, dedicado ao tema "Réel et imaginaire dans l'espace lusophone" já saiu, contendo dois artigos sobre Pessoa. Curiosamente os dois são sobre o "Filme do Desassossego" - uma entrevista com João Botelho por Maria da Luz Correia e uma pequena análise ao filme, de minha autoria (um pouco em continuidade do que eu disse na altura aqui).

Este número da Latitudes pode já ser adquirido na Livraria Colibri nas instalações da UNL.

quarta-feira, agosto 10, 2011

"A Tormenta" - Uma Apreciação Crítica



A Olisipo/Guimarães continua a publicar obras que estavam no plano inicial da editora de Fernando Pessoa (que funcionou durante muito pouco tempo, ficando aquém das publicações planeadas). Desta vez viramos a nossa atenção para "A Tormenta", uma das mais famosas obras de William Shakespear.

O fascínio de Pessoa com Shakespear foi imenso. Mais do que supra-Camões, em certa fase da sua vida, Pessoa terá sobretudo pensado poder tornar-se um supra-Shakespear. Os seus objectivos eram assim tão altos e, vendo-se essencialmente enquanto um autor dramático, o mais alto que podia alcançar seria precisamente a posição que Shakespear já possuía.

Porque terá optado Pessoa, entre as 36 peças de Shakespear, por "A Tormenta" ("The Tempest" no original)? Mariana Gray de Castro, na introdução, avança com algumas possibilidades, entre as quais a que nos parece ser a mais provável será eventualmente a intensidade simbólica e mágica desta peça em particular.

Mas Pessoa pretendia ir mais além, traduzindo a peça para Português. Aliás, os seus planos eram muito mais ambiciosos, levados ao extremo de diversas traduções do Bardo. Traduções que ele exigia fossem exactas (do verso para o verso, da prosa para a prosa, sempre com métrica e esquema rítmicos iguais). Ora, esses planos ficaram, como é bom de ver, incompletos, pela sua magnitude e ambição. A tradução que se publica neste volume não é de Pessoa, mas de uma outra autora, Fátima Vieira.

Curiosamente ficámos sem saber se no espólio existem algumas páginas da tradução visto que apenas nos são dadas a conhecer algumas passagens anotadas por Pessoa na sua edição das obras de Shakespear... Visto que Pessoa exigia tanto de uma tradução de Shakespear (nomeadamente que o tradutor fosse culto e tivesse "penetrado do espírito" daquela obra dramática ao ponto de a traduzir como se fosse quase uma nova produção literária) não nos parece que Pessoa tivesse aprovado a tradução de Fátima Vieira, que é, diga-se simples e muito pouco ambiciosa.

Claro que, reproduzindo o plano da Olisipo nos dias de hoje, poderá parecer certo publicar uma tradução qualquer (ou pelo menos a melhor que esteja disponível), mas estará isso no espírito do então editor? Claro que não. Pessoa apenas ficaria satisfeito com a sua própria tradução - que talvez nunca concluísse, mesmo que vivesse até aos 90 anos... Por isso, e em respeito aos seus princípios, talvez tivesse sido preferível não se ter editado este livro agora. Pelo menos é essa a nossa opinião, que não obsta, no entanto, à leitura da obra pela obra, cujo valor não se perde.

Este volume pode ser adquirido online, neste link.

Um agradecimento à editora Guimarães pelo envio de um exemplar para análise.

segunda-feira, agosto 08, 2011

"Antologia de Poemas Portugueses Modernos " - Uma Apreciação Crítica



Em algumas análises que temos vindo a fazer, realçámos a importância de ler as obras que Fernando Pessoa mais admirava, para conseguirmos compreender melhor as suas influências. Há livros mais fáceis de apontar, porque ele próprio escreveu sobre isso, mas sabemos menos sobre os seus gostos em termos de poesia contemporânea (embora saibamos alguma coisa das sua correspondência com poetas do seu tempo).

O volume que apresentamos hoje, no entanto, é um veículo ideal para esta descoberta. Trata-se de um projecto conjunto de Pessoa e António Botto, um poeta que foi muito próximo de Pessoa (ele publicou as "Canções" de Botto e entre ambos havia alguma cumplicidade), em que ambos pretendiam elaborar uma antologia de poesia contemporânea. Projecto que, como inúmeros outros, ficou incompleto; embora neste caso António Botto o tenha levado até ao fim, seleccionando ele alguns poetas para uma edição em 1944. Uma parte do projecto tinha sido, entretanto, publicado em 1929, em fascículos.

Qual a utilidade deste livro? Desde logo perceber que poemas modernos Pessoa (e Botto) mais admiravam. Por outro lado, perceber o que era para eles "ser moderno". Com uma ressalva: foi Botto a incluir nesta antologia poemas de autores como José Régio (curiosamente não um grande admirador de Pessoa), Vitorino Nemésio, Carlos Queiróz e os heterónimos de um Pessoa já desaparecido à data da primeira edição.

A modernidade aqui é definida de um modo mais estrito, levando apenas em conta um critério temporal - supostamente desde 1927, com a "Escola de Coimbra", mas mais amplamente considerando as obras poéticas elaboradas já no pós-guerra (que Botto chama de "guerra Alemã"). Mas é curiosa a inclusão de alguns "tradicionalistas", como indica o prefaciador Eduardo Pitta, como se os autores pretendessem de certo modo fazer o fio condutor da antiga para a nova tradição poética, que inclui muitos dos correlegionários de Pessoa (Almada, Guisado, Sá-Carneiro, Gomes Leal...). Talvez esse seja afinal o objectivo mais claro de um projecto deste género: o de legitimar de certa forma o surgimento de uma corrente poética moderna, mostrando que mesmo na ocasião da ruptura com o passado, não deixa de haver uma certa continuidade, mesmo uma natural continuidade.

Deixamos apenas mais uma nota para o facto de apenas uma mulher ser incluída na antologia. Mas um nome de peso: Florbela Espanca. É um soneto dela que fecha a edição e não podemos deixar de nos questionar a que ponto Pessoa a terá lido. Ela morre em 1930, mas publica desde 1919 pelo que seria certamente conhecida pelos poetas da época. Em termos de profundidade e génio trágico sempre pensámos que seria o espírito paralelo ao de Pessoa e a sua inclusão numa antologia deste género só prova isso mesmo.

Este volume pode ser adquirido online, neste link.

Um agradecimento à editora Ática pelo envio de um exemplar para análise.

quinta-feira, agosto 04, 2011

"A invenção do dia claro" - Uma Apreciação Crítica



"A invenção do dia claro" é o título de uma das famosas conferências dadas por Almada Negreiros em 1921. José de Almada Negreiros era talvez o mais activo dos artistas do movimento que rompe nos anos 20/30 em Lisboa e que mais tarde se denominará "modernista". Activo no sentido em que mostrava as suas ideias em exposições públicas e em conferências abertas ao público - um pouco no sentido inverso dos muitos escritores como Pessoa, que revelavam as suas ideias indirectamente, pelos jornais e revistas da época.

Acho importante destacar que Almada era visto um bocado como um extravagante, na maneira de vestir e de se expressar - um típico artista, numa muito conservadora sociedade do tempo, que o olhava sobretudo pela sua excentricidade. Todo o movimento futurista fica de certo modo marcado exteriormente por figuras "escandalosas" como Almada e Santa-Rita Pintor, que, no entanto, não são muito lembradas pelas contribuições teóricas para o mesmo.

Almada tinha, já em 1917, com o seu Ultimatum Futurista anunciado o futurismo às massas, por assim dizer, de uma maneira insidiosamente revolucionária e provocatória. Mas "A invenção do dia claro" é uma conferência diferente, mais teórica, mais interiorizada, cheia de ideias interessantes de um homem que não era só um provocador. Essa é - certamente - a primeira das suas qualidades. A outra é ser um texto eminentemente filosófico - como indica e bem Jerónimo Pizarro no prefácio. A terceira é ser um "texto pintado". Não explicaremos o que isto quererá dizer, basta que o leiam para compreenderem...

Resta dizer que Fernando Pessoa terá ficado tão impressionado com esta conferência que, quando abriu a sua editora Olisipo, inaugurou-a precisamente com esta edição. Chegou mesmo a traduzir parcialmente a conferência para Inglês (a tradução é incluída no volume).

Penso que é essencial - para compreender Pessoa - ler os textos que o impactaram. Este foi um deles e a figura de Almada uma das figuras que também o marcaram e influenciaram. Um melhor conhecimento da obra de Almada é também um melhor conhecimento da obra de Pessoa. Esta razão seria suficiente para recomendarmos vivamente a leitura deste volume, mas a ela acresce ainda a (grande) qualidade e ingenuidade da escrita de Almada Negreiros.

Ps: sobre Almada, recomendamos vivamente o documentário da RTP "Almada e Tudo" (disponível para ser visto online gratuitamente).

Este volume pode ser adquirido online, neste link.

Um agradecimento à editora Guimarães pelo envio de um exemplar para análise.

segunda-feira, agosto 01, 2011

"Argumentos para Filmes" - Uma Apreciação Crítica



"Argumentos para Filmes" é uma edição da Ática (Obras de Fernando Pessoa | Nova Série) que reúne vários inéditos que Pessoa escreveu para o cinema. Trata-se de um volume que causou algum impacto na comunicação social, que não é muito habitual em redor de edições deste tipo, mas que certamente merece a nossa atenção.

Desde logo porque se pensava (ou pelo menos muitos pensavam) que Pessoa não tinha grande consideração pela 7.ª arte. Tinha existido uma edição Francesa de alguns argumentos, por Patrick Quillier, mas que acabou por não ter ampla divulgação mesmo dentro do restrito universo Pessoano. Mas seria inevitável que Pessoa, sempre atento às novidades do seu tempo (a todos os níveis do conhecimento e da arte) não fugisse ao impacto do cinema. Curiosamente um seu amigo, Eliezer Kamenesky (poeta Russo que vendia livros e era vegetariano) tornou-se actor em dois dos filmes Portugueses mais conhecidos de todos os tempos - "O Pai Tirano" e "O Pátio das Cantigas".

Não sabemos até que ponto a convivência próxima com Eliezer afectou a visão de Pessoa relativamente ao cinema, mas é certo que ele viu o cinema com grande seriedade, chegando a incluí-lo nos seus (infindáveis) planos comerciais - desenhou mesmo um logotipo para uma empresa cinematográfica chamada "Ecce Film". Para quem se limitava apenas pela imaginação, não existiam realmente limites.

No volume que agora apresentamos, toda esta história do (desconhecido) fascínio de Pessoa pelo cinema é descrita com pormenores detectivescos deliciosos pelos editores Patricio Ferrari e Claudia Fischer.

Quanto aos argumentos propriamente ditos , eles são fragmentários e não muito consistentes, como seria de esperar. Não deixam de lembrar um pouco as novelas policiárias do inspector Quaresma, embora sejam mais ligeiros e despretenciosos. Pormenor curioso é a existência de alguns diálogos prolongados, o que poderá indicar que Pessoa já vira filmes sonoros (os editores tendem mais à hipótese contrária, face à datação dos documentos). São ainda incluídas notas de Pessoa sobre cinema e cartas trocadas sobre o tema. A edição é bilingue (ou melhor, trilingue, porque é em Português, Inglês e Francês) e inclui alguns originais a cores, o que enriquece bastante o conjunto.

São incluidas ainda: apêndice com o aparato genético (julgo que é a primeira vez que o vejo incluido numa edição de pequena dimensão), uma lista de filmes exibidos na época e um excelente posfácio de Fernando Guerreiro (um especialista em história do cinema que esteve na apresentação oficial do livro e que enquadra o que foi o cinema nos anos 20/30).

Indiscutivelmente esta edição é uma das mais completas que tivemos oportunidade de analisar nesta nova colecção. Corre mesmo o risco de ser uma das mais volumosas, mas a densidade dos estudos e materiais incluídos justifica plenamente a aquisição, mesmo que as páginas de Pessoa acabem apenas por se resumir a cerca de 30/40 do total de páginas do volume (que tem mais de 180).

Este volume pode ser adquirido online, neste link.

Um agradecimento à editora Ática pelo envio de um exemplar para análise.

quinta-feira, julho 28, 2011

Polémica no Exame de Português do 12.º Ano

O recente exame de Português do 12.º Ano de Escolaridade ficou marcado por uma polémica, sobretudo depois dos resultados mostrarem uma queda abrupta das notas, com uma média negativa de 9,6 (supostamente uma das piores dos últimos anos).

Ora, este exame (versão 1 e 2) traz várias questões relativas a Fernando Pessoa. No grupo I/A há uma análise de um poema de Álvaro de Campos ("Na casa defronte de mim e dos meus sonhos", pode ler-se o poema completo aqui) e uma pergunta de desenvolvimento sobre Ricardo Reis. A polémica surgiu relativamente à análise do poema de Campos, embora, como veremos, haja algumas coisas também a dizer relativamente à parte de Reis... Resta dizer que o grupo I de perguntas equivalia a 100 pontos (de um total de 200), portanto 50% da pontuação total da prova.

Devo dizer desde já que tenho uma posição muito particular perante a análise dos poemas de Pessoa. Aliás, recebo centenas de pedidos no meu site e privilegio sempre análises amplas dos mesmos, em que o aluno/estudante possa interpretar o poema subjectivamente, da forma que o afecta a ele próprio e não seguindo regras interpretativas estritas. Além do mais, acredito que os exegetas vão, quase sempre, para além daquilo que o poeta escreveu, criando quase que outras realidades. Na minha opinião, quase qualquer critério de resposta estaria errado, por ser restritivo.

A Prof.a Teresa Rita Lopes, insígne especialista de Pessoa e em particular de Álvaro de Campos (tem dedicado a este heterónimo inúmeros estudos e edições), prontificou-se a analisar esta questão e, segundo ela, os alunos têm razões de queixa. Chegou mesmo a solidarizar-se com eles, criando uma petição para que as classificações deste exame sejam revistas.

Longe de mim questionar a análise da Prof.a, que no geral me parece correcta. Mas mesmo assim queria deixar algumas palavras, levando em consideração os critérios de resposta ao exame.
  1. A escolha do poema foi infeliz? Penso que há várias resposta possíveis a esta questão. Por um lado é um poema tardio de Campos (2.ª era/3.º momento, seguindo a classificação da Prof.a Rita Lopes) o que implica o conhecimento da evolução do heterónimo. Poderá ser injusto exigir de um aluno do 12.º um conhecimento profundo dessa mesma evolução. Mas - poderemos argumentar - deveriam os examinadores reger-se por critérios de facilitismo, escolhendo por exemplo um poema da fase inicial, "mais linear"? Julgo que não é a dificuldade do próprio poema que, necessariamente, põe em causa a análise por parte de quem o lê.
  2. Na pergunta 1) é pedida a identificação de 2 sensações na 4 primeiras estrofes. Concordo com a Prof.a quando ela diz que o poema não trata essencialmente de sensações, mas sim de sentimentos. Mas - e isto é muito curioso - o próprio Álvaro de Campos não é ensinado no programa de Português muito para além do Álvaro de Campos futurista e sensacionista. É esta superficialidade que atinge o próprio redactor do exame, porque ele provavelmente nem conhece profundamente que o heterónimo teve uma evolução! Para o programa Campos tem 2 fases: Vanguarda e Sensacionismo / Abulia e Tédio... E qual destas fases se incluiria este poema para quem construiu o exame? Fica a questão no ar (mas suspeito que na primeira). Deviamos - na minha opinião - perguntar qual é a formação avançada que é dada aos próprios professores de 12.º relativamente a Pessoa (e quando digo Pessoa, poderia dizer qualquer outro autor Português, como Saramago por exemplo, que também saiu no exame). O programa releva uma grande superficialidade na abordagem a Pessoa, que depois inevitavelmente se observa na formulação das perguntas de exame. Poderemos então exigir uma profundidade que não é exigida, inicialmente, em termos programáticos? É evidente que a casa que o poeta vê não é real - é imaginada - e por isso é quase ridículo pedir que se avaliem sensações, quando o poeta nada vê no imediato em que escreve, mas o examinador ficou-se por esse imediatismo porque ele próprio não foi capaz de ir mais além (por incapacidade formativa de compreender a escrita de Campos nesta fase).
  3. Na pergunta 2) é pedida a caracterização do tempo da infância na 3.ª estrofe. Novamente concordo com a Prof.a quando diz que a pergunta é de uma confrangedora superficialidade. Mas, para ligarmos a imagem da infância à do próprio poeta, seria necessário conhecer a história de Pessoa (e o papel de Campos no revelar dessa história). Mas - há que dizê-lo - o aluno que respondesse poderia sempre ultrapassar essa superficialidade com a sua criatividade pessoal e conhecimento mais profundo da obra em causa.
  4. A pergunta 3) era relativa à relação do sujeito com os "outros" nas primeiras 6 estrofes. O critério de resolução é novamente muito superficial e baseia a diferença do "eu" e dos "outros" apenas na "felicidade". Aqui haveria muito a dizer e a Prof.a cobre todos os pontos na sua excelente análise. Neste ponto poderíamos até concordar que o poema se torna demasiado "pesado" para um aluno do 12.º, que não terá a maturidade psicológica para poder entender esta noção de solipsismo do eu face aos "outros"; ainda mais quando o próprio examinador não mostra sinais dessa mesma maturidade nas suas questões...
  5. Na pergunta 4) o examinador pede uma análise da última estrofe relativamente às 2 imediatamente anteriores a essa. Este é, na minha opinião, o único caso em que o cenário de resposta está mesmo errado e não é, apenas, incompleto. Vale a pena transcrever o cenário para percebermos melhor o que se passou:

    A dor e o vazio expressos na última estrofe, particularmente no verso «Um nada que dói...» (v. 26), decorrem das reflexões desenvolvidas nas duas estrofes anteriores.
    O sujeito poético questiona-se quanto aos «outros» (v. 15) e aos seus sentimentos, concluindo que:
    – cada outro é um eu (v. 16); só é possível sentir enquanto «eu» ou «nós» (vv. 21-24);
    – não se pode saber o que eles, os «outros», sentem (vv. 17-20); existe uma incomunicabilidade essencial
    entre os seres humanos, de que resulta a consciência individual separada de cada eu

    Ora, no verso 16 ("Quais outros? Não há outros.) o que é dito não é que "cada um é um eu" mas que não existem "outros". Campos concede que as pessoas vivem inconscientes e que o conceito de "outros" apenas existe porque ele olha para eles e os diferencia de si próprio.
    E não existe uma incomunicabilidade entre os seres humanos! O que o poeta diz é simplesmente que quem sofre é o "eu" que vê os "outros". Os outros não sofrem porque não têm esse nível de sofrimento do "eu" que observa. Esta é a tal condição de "ilha" que a Prof.a Rita Lopes muito bem lembra. Claramente o examinador não teve a clarividência para fazer esta consideração e apresenta uma resposta totalmente errada perante a redacção do poema em questão.
  6. No grupo I/B o exame pede uma análise à passagem do tempo em Reis e "implicações daí decorrentes". No cenário de resposta proposto vemos os mesmos elementos de superficialidade apresentados para Álvaro de Campos. Nomeadamente a caracterização de Reis enquanto epicurista e estóico que, perante a "passagem inexorável do tempo", nos prescreve que aproveitemos o momento presente. Ou seja, nem falta o cliché do "carpe diem"... Ora, em que medida é que um aluno, preso dentro do próprio programa, poderá ir além deste enunciado pobre, quando o que lhe é dado a conhecer de Pessoa e dos heterónimos é o mínimo necessário? Há muito mais a dizer de Reis e do tempo em Reis, bastando para tal tomar a primeira ode ("Mestre são plácidas..."). Teria sido muito melhor colocar essa ode e fazer a pergunta de desenvolvimento sobre ela. Mas para quê, afinal, se nem os alunos nem os examinadores parecem ter as bases necessárias para esse desenvolvimento?
Em conclusão devo dizer que concordo que o exame (em termos de Pessoa) é muito fraco e mal elaborado (a pergunta 4 do Grupo I/A devia quanto a mim ser mesmo anulada). Mas não o considerei difícil, muito pelo contrário. Nem podem os critérios de avaliação (básicos e incompletos sim, mas não necessariamente errados) serem os culpados pela má performance dos alunos perante um poema que pode ser complexo, mas sobre o qual foram colocadas perguntas de índole acessível.

Update: entretanto o GAVE já se pronunciou, aqui.

quarta-feira, julho 27, 2011

"Fernando Pessoa - O poeta e os seus fantasmas" - Uma Apreciação Crítica



A Ática continua o seu excelente trabalho de edição de textos de e sobre Fernando Pessoa com um título muito interessante e que já aqui referimos de passagem. O livro em questão é "Fernando Pessoa - O poeta e os seus fantasmas", que inclui uma conferência inédita de Carlos Queiroz (poeta, sobrinho de Ophélia Queiroz e amigo de Pessoa) proferida em 1940 - portanto, cinco anos depois da morte de Pessoa.

Desde logo devo realçar que o título pode ser enganador. É verdade que a maioria do livro contém a conferência (incluindo os originais), mas também podemos encontrar aqui mais três documentos muito interessantes (e raros). São eles uma conferência dada por Queiroz na Emissora Nacional em 1935, a "Carta à memória de Fernando Pessoa" (de 1936) e "Fernando Pessoa / No aniversário da sua morte" (artigo de 1937).

Maria Bochicchio, organizadora deste volume que também prepara tese de doutoramento em que inclui Carlos Queiroz, fez um excelente e avisado trabalho, coligindo estes vários documentos (incluindo ainda algumas cartas), muito úteis como testemunhos directos daquele que foi um dos maiores amigo de Pessoa, apesar da sua juventude relativamente ao autor de Mensagem.

O destaque vai, é certo, para a conferência inédita. Escrevendo apenas cinco anos depois da morte de Pessoa, Carlos Queiroz mostra neste texto ter já uma clara noção da magnitude da obra do poeta, destacando-lhe vários aspectos inovadores relativamente aos seus contemporâneos. Coloca desde logo Pessoa na linha de outros grandes poetas Portugueses, como Camões e Bocage. Chama de "fantasmas" aos heterónimos, dando-lhes consistência quase-humana e dizendo que ele "fingia que fingia" - uma expressão que fica e que nos deixa a pensar.

Grande parte da conferência mostra também sinais menos literários, pequenos apontamentos pessoais que nos dão um vislumbre para o homem: a sua maneira de estar numa discussão (sereno, sem querer dominar uma conversa, protegido, resguardado na sua privacidade), os seus risos nervosos e quase infantis, discreto mas humano, com um espírito liberal, intelectualmente efervescente, tímido e acima de qualquer louvor ou censura, cheio de ironia subtil, sem levar nada a sério mas levando tudo a sério simultaneamente.

Claramente este é texto escrito por um amigo que lamentava ainda muito a perda sofrida. Pelo meio de considerações literárias surge sempre um apontamento pessoal, que torna a conferência extremamente humana e preciosa para quem a lê com interesse em conhecer melhor quem era Pessoa.

O esforço de Carlos Queiroz - como de outros amigos próximos de Pessoa - era o de permitir que ele fosse conhecido do grande público. E embora até agora o papel de Montalvor e Gaspar Simões tenha sido mais publicitado, este volume que agora apresentamos traz à luz também o esforço de Carlos Queiroz, que, através de várias comunicações públicas, desempenhou o seu papel para que a obra inédita de Pessoa pudesse ser, lentamente, trazida à luz do dia. Ele que já em 1936, publicando na Presença a sua "Homenagem a Fernando Pessoa", fazia questão de mencionar que o produto da venda desse folheto se destinava "a contribuir para a publicação da Obra de Fernando Pessoa".

Este volume pode já ser adquirido online, neste link.