sexta-feira, junho 03, 2011

"Fernando Pessoa e Nietzsche: O pensamento da pluralidade" - Uma Apreciação Crítica



Não nos cansamos de dizer que o panorama dos estudos filosóficos sobre Pessoa continua a ser bastante pobre. Mas, felizmente, nos últimos meses a situação parece estar a mudar para melhor. Já aqui tivemos oportunidade de analisar aquela que eu acho ser uma das melhores edições Pessoanas recentes (senão mesmo a melhor) - "El Pensar Poético de Fernando Pessoa" - que reuniu fantásticos estudos filosóficos em torno da obra Pessoana. Agora temos o prazer de analisar mais uma edição que contém vários estudos filosóficos em redor do tema da pluralidade em Pessoa e em Nietzsche.

Segundo Nuno Ribeiro, Pessoa e Nietzsche são dois dos principais autores que procuraram a fragmentação dos princípios unitários em favor de um pensamento da pluralidade. O que é um pensamento da pluralidade? O autor tenta responder a esta questão iniciando a sua investigação pela estética - pela questão inicial das personagens nos dois autores supra-citados.

Esses personagens incorporam, em si mesmos, uma multiplicidade de forças, ou de características definidoras de si mesmos. Mas enquanto Nietzsche parte da filosofia para acabar na escrita, Pessoa opera o caminho inverso para atingir essa mesma definição. Assim se pode explicar que esta diferença melhor se incorpora nos diversos estilos na obra Pessoana do que na do filósofo de Weimar. Pessoa leva mais longe o seu projecto, dando-lhe um carácter iminentemente dramático.

Este é o conteúdo sumário do volume numa primeira parte, onde Nuno Ribeiro lê os dois autores lado a lado, tentando captar semelhanças entre ambos os métodos filosóficos. Já numa segunda parte, o autor propõe-nos duas incursões, uma sobre «Pessoa leitor de Nietzsche" e outra sobre «O homem enquanto animal vestido». A segunda incursão revela-se muito interessante, sobretudo se levarmos em conta em que medida as máscaras Pessoanas não serviriam também elas enquanto "revestimentos" do homem-Pessoa.

O volume termina com uma adenda - um artigo só sobre Nietzsche, que no entanto nos pareceu um pouco deslocado no total do livro. Embora seja um estudo muito interessante sobre a noção do «sentido da terra» na obra de Nietzsche, não compreendemos a sua inclusão nem no tema da pluralidade nem no tema da comparação com Pessoa, acabando por ser um artigo demasiado avulso para este contexto.


Este volume pode ser adquirido online neste link.

Agradecimentos a Nuno Ribeiro pela disponibilização de um exemplar para análise.

quinta-feira, junho 02, 2011

"Crónicas da Vida que Passa" - Uma Apreciação Crítica



Muitos dos admiradores da obra de Pessoa ignoram que em vida ele foi um interveniente político em polémicas do seu dia-a-dia. Seja usando o seu próprio nome ou escrevendo sobretudo enquanto Álvaro de Campos, Fernando Pessoa fez publicar crónicas e opiniões em jornais, enviou cartas e mensagens, publicou manifestos, artigos e panfletos.

O volume que agora analisamos, com edição a cargo de Pedro Sepúlveda e intitulado "Crónicas da Vida que Passa" reúne os textos publicados por Pessoa numa coluna com o mesmo nome numa "folha", chamada precisamente O Jornal, no ano de 1915, logo depois de ter saído o primeiro número de Orpheu.

Num pormenor que muito nos agradou, são incluídas imagens digitalizadas as páginas do jornal onde as crónicas apareceram, dando-lhes um carácter mais concreto e real. O editor também inclui alguns textos inéditos, preparatórios das crónicas, que nos indicam o trabalho inicial do poeta.

De referir que a colaboração de Pessoa com O Jornal terminou repentinamente (como a maior das actividades estritamente extra-literárias dele sempre terminavam) com uma polémica em torno da sua última crónica. Esta menciona a classe dos chauffers que se indignou directamente ao director da publicação, levando a que este "despedisse" Pessoa do cargo que ocupava. Pessoa tinha ainda dactilografado duas crónicas que nunca publicou e que ficaram inéditas até depois da sua morte (também incluídas nesta edição).

Este volume pode ser adquirido online neste link.

Agradecimentos a Pedro Sepúlveda pela disponibilização de um exemplar para análise.

quarta-feira, junho 01, 2011

"Misoginia e Anti-Feminismo em Fernando Pessoa" - Uma Apreciação Crítica



Esta semana estamos a dedicar a nossa atenção à crítica de diversos volumes recentemente editados pela Ática, sempre com temática Pessoana. Hoje viramos a nossa atenção para um interessantíssimo estudo de José Barreto, um dos mais esclarecidos investigadores Pessoanos da actualidade, intitulado "Misoginia e Anti-Feminismo em Fernando Pessoa".

Neste volume o estudioso reúne vários textos de Pessoa, cinco deles inéditos até agora, em que o Poeta da "Mensagem" escreve sobre o papel das mulheres na sociedade e não só. Desde logo, Barreto, avisa-nos para o facto deste livro não pretender diminuir a imagem construída em volta de Pessoa, mas, por outro lado, enriquecer a compreensão de um período da sua vida em que ele mantinha posições que se foram diluindo ao longo da vida.

É bastante interessante ver como há - aparentemente - um Pessoa pré e pós-guerra, no que toca às suas opiniões sobre o género feminino. Barreto ilustra como o jovem Pessoa, provavelmente levado pela ligação do feminismo a uma dimensão mais política e também pelas suas leitoras à época, adopta um discurso dito machista ou misógino. A grande vantagem de Barreto é, sem dúvida, o seu grande esclarecimento (e erudição) sobre a realidade histórica da época, sem dúvida uma mais-valia para o leitor.

Claramente esta distinção das duas fases em Pessoa têm muito a ver com a sua própria experiência com as mulheres. Sabemo-lo respeitador das mulheres, exteriormente, mas, na sua vida privada a sua visão é extremada pela necessidade de pensar teoricamente. Tanto é assim que, quando ele encontra Ophélia, a sua visão se desvanece.

José Barreto consegue um estudo muito completo, que nos revela as idades de um Pessoa inexperiente com as mulheres e levado, pelo menos inicialmente, a desconstruções teóricas sobre as mesmas, em virtude dessa mesma inexperiência. Revela-nos o que o poeta leu a esse respeito e a maneira como o feminino aparece - muitas das vezes polemicamente - nos seus textos ou planos de publicações. Este é um livro que recomendamos vivamente, mais que não seja por tocar um tema mais delicado em Pessoa, sem pudores e com uma estrita vontade de esclarecimento futuro.

Este volume pode ser adquirido online neste link.

terça-feira, maio 31, 2011

"O Marinheiro" - Uma Apreciação Crítica



"O Marinheiro" foi o título dado a uma peça de teatro estático, publicada pela primeira vez no número 1 da revista Orpheu em 1915. Na base de toda a "Obra" Pessoana está talvez esse ímpeto dramático, que se expressa melhor em forma de peça teatral, por isso nunca é demais recordar a importância deste texto - a única peça de teatro completa que Pessoa nos deixou (deixou outras, mas incompletas).

Embora publicado (e encenado) várias vezes, esta edição da Ática traz-nos algumas novidades. Desde logo a autora do estudo em redor do texto - Cláudia Souza - diz-nos que o texto de "O Marinheiro" publicado em Orpheu não era a versão final do mesmo, segundo testemunho do próprio Pessoa. São publicados ainda alguns textos inéditos, que nos ajudam a perceber o contexto do teatro estático no todo da obra Pessoana. Nomeadamente um plano com sete peças, entre as quais as mais completas que nos chegaram foram "A morte do príncipe" e "Diálogo no jardim do palácio".

Permitam-me um momento para dizer que este tema - do teatro estático - me é particularmente querido. Os meus primeiros contactos com Pessoa foram feitos através dos seus textos mais dramáticos (Campos e as peças de teatro estático, sempre nas edições de bolso da Europa-América editadas por António Quadros) e isso sempre deixou uma grande marca dentro de mim, enquanto apreciador do seu trabalho. Ao ponto de eu, enquanto escritor, me ter aventurado também nesse campo, tendo tido a oportunidade de ser editado, numa recolha de textos há bastante tempo, com uma peça de teatro estático de minha autoria.

Tenho por isso uma posição forte sobre o significado desta peça. Seria inevitável não a ter. Discordo por isso, em grande medida, com a autora do estudo que acompanha o texto, quando ela diz que o mesmo tem na sua base a relação da linguagem com a morte. Penso que isso poderá ser uma leitura demasiado elaborada e que, na realidade, o que ocorre nestas peças de teatro estático é que cessa toda a acção. Simplesmente isso. Há que compreender o que isto quer dizer num âmbito mais alargado em Pessoa - como o poeta entendia a forma como tinha falhado na vida activa e que apenas lhe restava o sonho como alternativa para dar cabimento completo aos seus projectos.

Aliás isto é bem claro num outro texto citado (e famoso), o poema de Álvaro de Campos que fala da maneira como o Engenheiro, depois de ler "O Marinheiro", ironiza sobre a maneira como as veladoras, falando entre si, se questionavam porque ainda estavam a falar. O poema de Campos, de juventude (1915) é de um Campos ainda adepto da acção - perante um Pessoa adepto do que chamaríamos "inacção". Campos não pretende, como diz Cláudia de Souza, dar continuidade à pergunta circular (porque falamos ainda?), mas antes quer desmascarar a necessidade da própria suspensão da acção: "porque falamos ainda, quando podíamos agir?".

Claro que todas as análises têm o seu quê de subjectivo e a que eu lanço não deixará de ser, também ela, discutível. No entanto não quis deixar de dar o meu lado da questão. No entanto o mais importante é que esta vertente da obra de Pessoa seja divulgada e o que o máximo possível de leitores tirem as suas próprias conclusões e o presente volume, com a sua cuidada edição, proporciona, felizmente, isso mesmo.

Agradecimentos à autora pelo envio de um exemplar para análise.

Este volume pode ser adquirido online neste link.

segunda-feira, maio 30, 2011

"Vestidossss" no Chiado



Nos dias 2, 3, 4 e 5 de Junho, das 11h às 19h, a estátua de Fernando Pessoa no Chiado vai ser vestida com as roupas dos três heterónimos principais do poeta, uma performance no âmbito da dissertação de Mestrado em Design de Moda de Carina Azevedo.

Notícia via Portugal Modernista

"A Demonstração do Indemonstrável" - Uma Apreciação Crítica



A Ática continua a editar obras de Fernando Pessoa em livros de fácil alcance ao público em geral. Desta vez apresentamos o volume "A Demonstração do Indemonstrável". Trata-se de uma edição bilingue, a cargo de Jorge Uribe, que nos revela um texto inédito de Pessoa ("Proving the Unprovable" no original), escrito em Inglês, e que discorre sobre questões ligadas à linguagem e sobretudo à possibilidade de argumentação e contra-argumentação.

Devo dizer que, numa primeira leitura, não pude deixar de pensar na maneira como este texto se poderia enquadrar na importância que o paradoxo assume na obra de Pessoa. Explico. O chamado "drama em gente", nome comummente dado ao desenvolvimento paralelo dentro de Pessoa de todas as obras paralelas dos seus heterónimos (e pseudónimos), engloba em si mesmo uma "discussão em família". Esta discussão aparecia na forma em que Pessoa colocava as suas personagens literalmente a comunicar umas com as outras - há que compreender que quase nenhuma delas estava numa realidade estanque, e que se relacionavam, originando polémicas, troca de impressões e chegavam mesmo a influenciar-se umas às outras (sendo o maior exemplo disso mesmo a influência de Caeiro em Campos e em Reis). Ora, o paradoxo que podemos encontrar nesta "Obra" de Pessoa é precisamente a forma como ele conseguia defender posições opostas num mesmo argumento, bastando-lhe alternar de personalidade.

Fernando Pessoa pretendeu - pensamos - ter um sistema filosófico muito elaborado, sustentado pela teoria da despersonalização, que lhe permitia acesso a "várias vidas" e, dentro dessas "várias vidas", a várias posições conflituosas relativamente a diversos assuntos. Era como se ele, desdobrado, conseguisse uma visão positiva e negativa de tudo o que se aventurava a pesquisar. Trata-se de uma teoria incrivelmente inovadora e original, que ainda não foi completamente analisada.

Penso que o fascínio de Pessoa com a linguagem, com as charadas (que menciona muito neste texto) e sobretudo com a capacidade de argumentar e contra-argumentar da mesma forma, exerceu sobre ele uma grande influência. Lembro aqui uma outra passagem, a que refere "tudo é verdade e caminho" e que poderá sintetizar na perfeição o seu alinhamento no mundo completamente falso, mas no qual tudo pode ser completamente verdadeiro. Ao aceitar todas as possibilidades, discutindo-as, aceitando-as dentro de si, Pessoa pretendia um acesso completo ao que pode ser afirmado e ao respectivo (e diametralmente) oposto.

Jorge Uribe, no posfácio, levanta a hipótese deste texto poder ser de Thomas Crosse - até agora uma figura menor, relegada a deveres de tradutor. A hipótese de haver, pelo menos em projecto, um pré-heterónimo dedicado a questões de linguagem é extremamente interessante e mostra, talvez em embrião, as preocupações latentes sobre a maneira como o discurso filosófico podia ou não estar limitado pela linguagem - uma questão que teria toda a importância no fim do Séc. XX, com a transição do existencialismo para a objectivismo trazido pela filosofia da linguagem.

Este volume pode ser adquirido online neste link.

Agradecimentos a Pedro Sepúlveda (responsável pela tradução) pela disponibilização de um exemplar para análise.