terça-feira, dezembro 07, 2010

Exposição de Pintura em Lisboa homenageia Pessoa



Homenagem a Fernando Pessoa” é o nome de uma exposição de pinturas, da autoria do pintor israelita Jacob Porat, que estará patente na Sala de Exposições do Instituto Camões em Lisboa (Avenida da Liberdade, 270), de 9 de Dezembro até 23 de Dezembro de 2010.

Esta mesma exposição já esteve em Israel em Novembro, por ocasião de uma conferência e edição da obra de Reis em Hebraico.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

"O Corpo em Pessoa" - Uma Apreciação Crítica



"O Corpo em Pessoa", agora editado pela Assírio & Alvim, é uma edição que contém uma dúzia de ensaios dedicados precisamente à temática da "corporalidade, género e sexualidade" na obra de Fernando Pessoa; ensaios originalmente publicados em Inglês em 2007.

Os editores dividiram o volume em quatro partes: I. Investigações Corpóreas; II. Leituras queer de Pessoa; III. (Des)localizar as mulheres e IV. Pessoa em performance.

Desde logo há que salientar que o livro não foi motivado por um desejo puro de explorar lados mais polémicos ou sensacionalistas relacionados com a exegese Pessoana. Aliás, os próprios editores explicam, na excelente "Introdução", que o objectivo de "O Corpo em Pessoa" é de alargar o espectro de interpretação de uma obra que é considerada, pela maior parte dos especialistas, como sendo eminentemente racional e abstracta. E é bem verdade que a racionalidade tende a obscurecer outras vertentes do que Pessoa diz e escreve, que muitas das vezes reflecte visões materiais, corporais (e corporizantes) da realidade.

No entanto - e pela própria natureza da "obra" de Pessoa - torna-se quase impossível distinguir por vezes entre o "teatro mental", a encenação e a realidade das coisas. Talvez por isso mesmo o livro se inicie com uma parte com o nome "Investigações Corpóreas". O primeiro ensaio, de Dana Stevens, "Fingir é conhecer-se" versa precisamente sobre o fingimento e de como a infantilidade em Pessoa pode dar lugar a experimentações na melhor forma de moldar a realidade - atingindo um fingere latim, no sentido de esculpir a realidade amorfa, de construir as próprias realidade corporais a partir de irrealidades mentais. O problema da estética (a meu ver acessório relativamente ao do fingimento) é tratado no ensaio seguinte, de Alessandra Pires e completa-se no ensaio de Blake Strawbridge (que quase parece nome de heterónimo Pessoano) dedicado à abdicação e à arte no "Livro do Desassossego".

Na segunda parte do livro temos quatro leituras queer de Pessoa: Fernando Arenas fala do desejo homoerótico em Pessoa, George Monteiro escreve sobre os dois poemas Ingleses (e eróticos) "Antinous" e "Epithalamium" e Mark Sabine dedica-se apenas ao poema "Antinous". É muito curiosa a operação de recolocação que este poemas "malditos" estão a sofrer nos últimos anos, sendo aparente que estão a ganhar cada vez mais reconhecimento - sobretudo no papel comparativo que desempenham na obra de Pessoa. Relembre-se por exemplo a interessantíssima tese que António Feijó apresentou recentemente no II Congresso Internacional Fernando Pessoa onde propôs uma leitura lado-a-lado das "Notas para a recordação do meu mestre Caeiro" com o poema "Antinous". Resta saber em que medida a produção poética homoerótica de Pessoa era realmente genuína, ou não apenas levada, como era hábito nele, como função replicadora dos seus próprios poetas preferidos. Nesta perspectiva, a qualificação de queer parece-nos excessiva e demasiado Americanizada; não por ser chocante, mas antes por poder ser inexacta.

Na terceira parte encontramos ensaios de Maria Irene Santos, Kathryn Bishop-Sanchez e Anna Klobucka, respectivamente sobre musas, sobre a imagem da mulher em Campos e sobre as cartas de amor. Devo dizer que o ensaio de Klobucka foi o que eu achei pessoalmente mais interessante, especialmente porque fala numa coisa que eu já tinha pensado - porque não se edita e/ou analisa a correspondência Pessoa-Ophélia numa perspectiva dual, lado-a-lado. É interessantíssimo ler as cartas de Pessoa e depois ver as de Ophélia, para realmente compreender "os dois lados" do romance.

Finalmente, na quarta parte, surge "Pessoa em Performance"; com ensaios de Fernando Cabral Martins, Richard Zenith e Francesca Billiani. O ensaio de Zenith é especialmente interessante, reforçando uma descoberta recente do investigador de um "heterónimo gay" (mas anónimo) no espólio. Mas Zenith vai um pouco mais longe e fala (com grande interesse) da sexualidade nos escritos automáticos Pessoanos.

Em resumo esta edição traz visões muito interessantes sobre a obra de Pessoa, se bem que não se possam certamente considerar revolucionárias. Mas é positivo ver sobretudo a crescente desmistificação da sexualidade em Pessoa, embora haja o perigo da colagem a certos estereótipos (como literatura queer) que nos parecem de todo inadequados e nascidos de uma necessidade académica de "explicar tudo" e de colocar o "Pessoa todo" debaixo do microscópio. Esperemos apenas que a abertura crescente desta nova vertente de estudos não diminua ainda mais a importância do homem por detrás da obra - porque mesmo em vida este homem diminuiu-se a si próprio demasiado perante a sua própria obra; e era tempo dos críticos não aprofundaram o erro mortal.

Este livro já pode ser adquirido online, neste link.

Agradecimentos à Assírio & Alvim pela disponibilização de um exemplar para análise.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Sobre uma polémica no II Congresso Internacional Fernando Pessoa

No passado dia 24 de Novembro, no segundo dia do Congresso, a Prof.a Maria do Céu Estibeira efectuou uma comunicação, que não tive infelizmente oportunidade de assistir devido a atrasos no Congresso, e que abordava o tema da marginalia Pessoana.

No dia 25 chegou-me a informação de uma polémica acerca da mesma comunicação. Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari fizeram circular, em fotocópias, no auditório uma declaração (ver link em baixo) em que acusavam a autora de "desonestidade intelectual", supostamente por ter decalcado conteúdos de um artigo de Ferrari publicado em 2009.

Como é meu costume, não pretendo tomar posições, apenas apresentar os factos que penso que sejam graves o suficiente para que se exponham as visões das duas partes envolvidas. Segundo a vontade expressa da Prof. Estibeira - com que tendo a concordar - não haverá lugar a respostas ou contra-respostas, ficando com os leitores interessados a própria conclusão relativamente a este assunto. Limito-me por isso a reproduzir dois documentos, a declaração de Pizarro/Ferrari (que vinha acompanhada de fotocópia integral do artigo, que, por razões óbvias não incluo mas que pode ser facilmente consultado pelos interessados) e a declaração de Estibeira.

Declaração Pizarro/Ferrari
Declaração Estibeira

Livro onde está o artigo de Ferrari

"Provérbios Portugueses" - Uma Apreciação Crítica



Uma das facetas menos conhecidas de Fernando Pessoa é certamente a sua faceta de tradutor. Sabemos, principalmente por documentos presentes no espólio, que se ocupou de diversas comissões neste âmbito, talvez a mais conhecida de todas tenha sido a tradução de obras Teosóficas, que se seguiu ao seu fascínio com a filosofia de Madame Blavatsky.

Agora a Ática - editora mítica quando se trata de obras Pessoanas - apresenta-nos um dos projectos nunca editados no âmbito das traduções Pessoanas. Trata-se de uma colecção de 300 provérbios Portugueses numa edição bilingue Português/Inglês efectuada por Pessoa nos anos de 1913/14.

Foi o próprio Pessoa que, numa carta enviada a um editor Inglês, teve a iniciativa de propor a edição, numa colecção de National Proverbs em que não constava Portugal (mas constava Espanha). Um claro exemplo - dizem os editores Jerónimo Pizarro e Patricio Ferrari e bem na sua "Introdução" - da necessidade de "fazer pela vida", por parte de Pessoa. Aliás, esta edição da Ática ilustra muito bem (e esse é um dos seus detalhes mais originais) tudo o que esteve por detrás do esforço de Pessoa na eventual publicação dos "Provérbios" - que acabou por falhar devido à eclosão da I Guerra Mundial.

Os editores procuraram, com grande rigor, ilustrar o interesse de Pessoa por este tipo de literatura (que afinal é tão Portuguesa quanto Inglesa, como ilustram os fantásticos "ditos" de Sam Weller nos Pickwick Papers - o livro preferido de Pessoa na juventude), onde Pessoa recolheu os provérbios, como procedeu à sua selecção e mesmo como os alterou ou "melhorou" até chegar às versões finais. Também podemos ter uma perspectiva de como Pessoa decidiu operar as traduções e algumas das razões por detrás das suas opções.

Numa nota pessoal - que nada tem a ver com a edição em si mesma - achei que as traduções de Pessoa eram, no mínimo, "secas". Vejam-se dois exemplos rápidos:

Quem se faz mel, as moscas o comem.
If you make yourself honey, then flies will eat you.

Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele.
If you don't want to be a wolf, don't wear its skin.

Há uma clara vontade de acabar o trabalho, de forma económica e eficiente, sem despender grande energia numa tradução literária demasiado aprumada ou criativa. Penso que passa na própria obra poética em Inglês esta mesma "energia desfocada", um uso da língua que parece sempre estrangeiro e forçado. Isto embora haja sempre algo de Pessoa que se encontre, aqui e ali.

Mas voltando à edição, temos de elogiar a visão total que nos é dada, e que é de facto nova neste tipo de livros, quase de bolso. Trata-se de uma quasi-edição crítica em miniatura do texto, com imensos pormenores e toda a história envolvente. E o mesmo método está a ser seguido por exemplo na colecção Olisipo da Guimarães (que lançou recentemente mais alguns dos projectos editoriais de Pessoa, que teremos ocasião de analisar em breve). São livros muito mais ricos do que estamos habituados a ter, fora das edições académicas e que possibilitam ao mais comum dos leitores ficar a saber com pormenor a génese, o percurso e mesmo a razão da existência dos textos.

Este livro já pode ser adquirido online, neste link.

Agradecimentos ao Professor Jerónimo Pizarro pela disponibilização de um exemplar para análise.

terça-feira, novembro 30, 2010

"O Ano da Morte de Fernando Pessoa", no Porto



O dia de hoje marca os 75 anos da morte de Fernando Pessoa. No Porto, Nuno Meireles vai recitar poesia em homenagem ao poeta porque "como escreveu Álvaro de Campos "morrer é só não ser visto"".

Selecção dos textos e leitura:
Nuno Meireles
Data e local: 30/11/2010 às 21,30h. no Palacete dos Viscondes de Balsemão (Pç. Carlos Alberto), com projecção de imagens.

Entrada: 2 €.
Informações: 22 202 30 71