segunda-feira, agosto 23, 2010

Exposição sobre Pessoa no Museu da Língua Portuguesa



O Museu da Língua Portuguesa, localizado na cidade de São Paulo, no Brasil, vai inaugurar hoje, dia 23 de Agosto, às 20h, a exposição "Fernando Pessoa - Plural como o Universo". Fernando Pessoa é o primeiro escritor português a merecer a atenção deste museu, que normalmente homenageia apenas escritores de nacionalidade brasileira.

A inauguração é organizada por dois conhecidos pessoanos: Carlos Filipe Moisés e Richard Zenith.

Dia 24 a exposição abre para o público em geral, com o preço de entrada fixado em 6 Reais e estará aberta até 30 de Janeiro de 2011.

Notícia via i Online

sexta-feira, agosto 20, 2010

"Trovas do Bandarra" - edição Guimarães Editores



A Guimarães Editores criou recentemente uma colecção que reflecte os planos editoriais (de obras que não eram suas) que Pessoa deixou escritos, mas que infelizmente não conseguiu cumprir em vida, pois as suas aventuras editoriais foram, no mínimo, passageiras. Chamou a essa colecção "Olisipo" (nome da editora criada por Pessoa em 1921).

Já foram publicados alguns volumes nesta colecção e o próximo, que vai sair dentro em breve, é a edição das "Trovas do Bandarra". Trata-se de um livro importante, como influência, na obra de Pessoa, sobretudo na "Mensagem", mas no geral em toda a sua visão Sebastianista (expressa em prosa e poesia). Pode dizer-se que o Bandarra foi uma espécie de "Nostradamus Português", vivendo aliás quase na mesma época do grande astrólogo Francês.

A edição, a cargo de Jorge Uribe, é muito cuidada e lê-se com grande prazer. O formato de bolso não permite grandes pretensões de estudo profundo, mas traz, mesmo assim, um interessante posfácio, bem como muitas ilustrações das notas que Pessoa fez às trovas na sua própria edição do livro.

Só lamentamos uma coisa. Certamente que Pessoa, se o editasse ele próprio, faria um longo prefácio, mas na impossibilidade de o lermos, seria bom termos em anexo as páginas que ele escreveu sobre o tema, embora eu compreenda que por economia de espaço isso não se tenha tornado possível, tendo sido incluída apenas uma selecção das mesmas.

Um agradecimento ao Dr. Jorge Uribe pelo envio de um exemplar para divulgação no blog. Esta edição está já à venda, podendo ser adquirida aqui.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Festival de Estátuas Vivas de Tomar conta com Pessoa



Fernando Pessoa será uma das 21 estátuas vivas presentes no I Festival de Estátuas Vivas de Tomar, que vai decorrer nos dias 18 e 19 de Setembro naquela cidade. Haverá ainda música barroca e ópera, no que se espera sejam uma celebração dos 1300 anos de história de Portugal.

Pode ver-se aqui no mapa da cidade, onde estarão dispostos os homens-estátua respectivos.

sexta-feira, agosto 13, 2010

Dois artigos imperdíveis sobre Pessoa

Bem, não são os dois mesmo sobre Pessoa, mas por lá gravitam.

A edição de hoje do Público traz a separata Epsílon e dentro dela um extenso (e muito bem escrito) artigo sobre a edição crítica do Livro do Desassossego, incluindo a história da edição do mesmo, a polémica, e tudo o resto. O artigo traz testemunhos dos diversos autores.

O Jornal de Letras à venda esta semana inclui, por outro lado, um interessantíssimo e raro artigo de fundo (e entrevista) com a pessoana Maria Aliete Galhoz. É de leitura obrigatória para quem gosta de Pessoa e quer conhecer as pessoas que estudaram Pessoa.

Update: por cortesia do Prof. Pizarro, o artigo que saiu no Público pode ser lido aqui.

Revista Pessoa



Foi lançada uma nova revista no Brasil chamada "Revista Pessoa", dedicada à divulgação da literatura em língua Portuguesa no espaço lusófono, será "um espaço de democratização do acesso à produção literária de língua portuguesa". As edições da revista serão distribuídas gratuitamente, com ênfase em bibliotecas, centros e espaços culturais, mas também nas ruas.

No primeiro número há vários artigos dedicados a Pessoa, dos quais destacamos um sobre o sensacionismo e outro sobre Pessoa e o mercado editorial, bem como uma excelente BD.

O conteúdo total da revista pode ser
consultado online neste link (demora a carregar em ligações mais lentas).

quinta-feira, agosto 12, 2010

Entrevista com Jerónimo Pizarro



Temos o prazer de apresentar uma entrevista com o investigador pessoano
Jerónimo Pizarro. O Prof. Pizarro faz parte da Equipa Pessoa, responsável pela edição crítica da obra do poeta e foi o principal responsável pela recente edição crítica do Livro do Desassossego.

O Jerónimo tem sido um dos principais investigadores da obra de Fernando Pessoa nos últimos anos. Pode-nos dar um pequeno resumo acerca do seu primeiro encontro com Pessoa e se isso esteve directamente relacionado com a sua vinda para Portugal, como muitos outros que ao longo dos anos têm vindo para o nosso país por influência directa do poeta?


Conheci Pessoa em circunstâncias que poderão ter sido pouco certas: através do Livro do Desassossego (na versão espanhola de Ángel Crespo), perto de uma refinaria de petróleo na Colômbia (Barrancabermeja), enquanto descobria que o amor também é uma poderosa fonte de inquietação. Até certo ponto, a minha «salvação» foi Caeiro: a leitura ininterrupta de «O Guardador de Rebanhos», num relvado frio da Universidade Nacional de Bogotá, reconciliou-me com Pessoa e suscitou em mim uma curiosidade definitiva pela sua obra. Não é que eu não tivesse percebido que o Livro era algo espantoso, mas li-o numa cidade próxima da imaginação literária de um Guillermo Cabrera Infante, no meio de um bairro de engenheiros de minas e de um romance, e sempre fui muito mais sensível ao Pessoa tardio, da Tabacaria, do que ao Pessoa pós-simbolista, da Floresta do Alheamento; infelizmente, em muitas versões do Livro do Desassossego esses dois Pessoas coexistem, intercalados, o que não deixa de ser, a meu ver, um artifício algo violento.

A minha vinda para Portugal não esteve directamente relacionada com essas leituras iniciais, mas sim, em parte, a minha permanência posterior, num país que hoje sinto como um inesperado segundo lar.

Deve-se a si e alguns colegas seus (sobretudo Ferrari, Estibeira e Cardiello) o estudo da marginália Pessoana. Acha que esse estudo estava realmente negligenciado, tendo-se revelado (o pouco que ainda se analisou) como uma importante janela futura para estudos Pessoanos?

Não sei. Por um lado, uma das pioneiras da edição da obra pessoana, Maria Aliete Galhoz, foi a primeira a estudar a Biblioteca Particular de Fernando Pessoa; por outro lado, só recentemente foi publicado um poema inédito de Caeiro, que se encontrava na última folha de um livro dessa Biblioteca... Não acho que o estudo da Biblioteca Particular estivesse propriamente negligenciado, mas parece-me que só começou a ser privilegiado há muito pouco tempo.

A pensar no futuro, seria bom tornar a biblioteca de Pessoa num objecto de estudo mais frequente (em Outubro todos os livros devem ficar on-line, com o apoio da Vodafone) e concretizar a organização de um Congresso sobre Bibliotecas de Escritores (entre os quais se poderiam incluir diversos artistas e pensadores: Nietzsche, Freud, Pessoa, Woolf, Darwin, Borges, Coleridge, etc.), com o apoio da Casa Fernando Pessoa.

A edição da chamada "Obra Completa" de Pessoa certamente é uma tarefa longe de estar completa. Mas dos volumes do que foi editado até agora pela Equipa Pessoa o que destacaria? E que percentagem diria que falta para completar essa "Obra Completa"?

Preferiria não ser eu a destacar esse volume, não só porque pertenço à equipa que prepara a Edição Crítica de Fernando Pessoa, mas porque os juízos são falíveis. Com o tempo, por exemplo, descobri que livros que literariamente achava menos importantes, tal como as Quadras (1997), editadas por Luís Prista, sintetizavam um cuidadosíssimo trabalho filológico, que merecia ser resgatado. Penso que toda a Edição Crítica ainda está à espera de ser descoberta por um público mais amplo e estudada sem certo tipo de preconceitos.

De resto, devo confessar que não acredito numa Obra Completa, no caso de Pessoa: só num Arquivo Completo, que um dia poderia servir para preparar a publicação de diversos conjuntos de Obras Completas, mais ou menos críticas. As Obras Completas de um autor - e convém optar pelo plural - são uma espécie de antologia maior e quase um género literário.

Quais são os principais "tesouros" ainda inéditos na(s) arca(s) de Pessoa? Já teve oportunidade de ver por exemplo o romance autobiográfico de Eliezer Kamenezky (e a tradução de Pessoa para o Inglês) ou os originais das cartas de amor recebidas de Ophélia? Certamente que há muita prosa ainda inédita, e os trabalhos astrológicos?

Não sei se há "tesouros"... mas sim algumas páginas "preciosas", para utilizar uma metáfora afim. Já vi o romance de Kamenezky, mas não as cartas de amor, porque os originais foram vendidos e parece que estão no Brasil. De facto, ainda há muitíssima prosa inédita, que abrange textos - interessantíssimos - sobre política, estética, esoterismo e astrologia.

Que parte dessa obra inédita ainda está com a família do poeta? Há documentos muito importantes ainda com a família, ou eles eram principalmente o "dossier Pessoa-Crowley" recentemente adquirido pelo Estado? Já agora, algumas palavras sobre o polémico leilão Pessoa de 2008, à distância qual é a sua visão do ocorrido?


Às primeiras perguntas acho que deve responder o Estado, que colocou como uma das suas prioridades a aquisição dos documentos que ainda estão com os sobrinhos-herdeiros (e com outros particulares). No leilão de 2008 dispersaram-se objectos e documentos que a BNP - com o apoio da REN - não comprou (e que hoje não se sabe onde estão), mas acelerou um processo positivo: a classificação do espólio pessoano como um tesouro nacional.

Que obras prepara actualmente para edição sobre Pessoa e, em conclusão, qual é a sua visão sobre a obra de Pessoa, como encara o fenómeno heteronímico e que importância lhe dá para além do mero exercício literário?

Neste momento, continuo a preparação dos Cadernos, em vários tomos. Para mim, a obra de Pessoa é uma summa de Portugal e da modernidade estética. Não costumo dar um grande relevo ao fenómeno heteronímico, porque a maior parte dos escritos de Pessoa não estão assinados, porque evito associar a lucidez de Pessoa a um certo desequilíbrio e porque o próprio Pessoa, com a passagem do tempo, foi «caindo» na semi-heteronímia, isto é, em figuras «minhamente alheias», em que a distinção entre o «autor real» e as «figuras de sonho» se torna mais incerta e problemática. Além disso, a palavra «heteronimia» é póstuma.