
Nuno Meireles, ao lado de José Carlos Tinoco, apresenta mais uma "leitura encenada" a partir de conteúdos Pessoanos. Desta vez a atenção volta-se para a troca de cartas entre Fernando Pessoa e o seu "irmão de arte" (e grande poeta e prosista por direito próprio) Mário de Sá-Carneiro. Pretende-se, através da revelação dos "textos epistolares exultantes de conteúdos poético-literários e de revelação sobre as conivências" dar a conhecer "as dores, as angústias, as hesitações, mas também o imaginário inquieto e febril que animou os dois poetas de ORPHEU".É no Bar-Café Labirintho, no Porto, hoje, às 22h30.
Patrick Quillier é um insigne Pessoano, que tem feito muito em prol da divulgação de Fernando Pessoa em França, sobretudo, mas não só, através de cuidadas traduções publicadas na famosa Collection Bibliotèque de la Pléiade, da editora Galimard.No fim de 2009 este autor publicou um "pequeno" livro (embora com mais de 240 páginas, podemos chamá-lo assim devido ao seu formato de livro de bolso) em que analisa a obra de Alberto Caeiro, com o título "Patrick Quillier comment Le Gardeur de troupeaux" . Trata-se de um ensaio que olha de maneira atenta não só para o "Guardador de Rebanhos", mas também para os outros dois conjuntos de poemas, "O Pastor Amoroso" e os "Poemas Inconjuntos", citando por diversas vezes a intertextualidade existente entre estes textos.É de certo modo difícil proceder à crítica deste ensaio, sobretudo porque eu pessoalmente tenho uma opinião muito forte sobre a maneira como a obra de Caeiro pode e deve ser encarada. E percebi desde cedo pela leitura do livro de Quillier que ele pensa fundamentalmente de maneira diferente da minha. Mas as diferenças de interpretação apenas podem ser saudáveis, pelo que o melhor é encará-las de frente. Falo sobretudo na perspectiva de análise dos poemas de Caeiro. Penso que Quillier analisa Caeiro "desde fora", o que, quanto a mim compromete o ensaio de um ponto de vista teleológico, logo à partida. Quando eu fiz a minha análise a Caeiro, decidi, por necessidade, que os poemas de Caeiro é que liderariam a minha interpretação deles. Ou seja, fiz uma análise "de dentro para fora". Isto porque me pareceu que a vida de Caeiro se formava à medida que ele escrevia - ele é, talvez, o único verdadeiro heterónimo em que se materializa o famoso cliché Pessoano tantas vezes repetido: "a biografia de um poeta é a sua obra".Mas devemos compreender a visão de Quillier enquanto visão académica e de especialista em literatura, que o limita um pouco, na minha opinião. Isso nota-se pelas imensas "interjeições" que povoam o ensaio e que se referem a dificuldades e/ou opiniões técnicas sobre a tradução. Essencialmente o livro divide-se em 3 partes. Uma pequena introdução a Pessoa, à génese dos heterónimos e à importância do dia triunfal; uma segunda parte denominada "table rase poétique"; e uma terceira parte (que inclui uma conclusão) denominada "table rase philosophique". Ou seja, Quillier separa de certa forma a poesia da filosofia, chegando ao extremo de analisar Caeiro de uma perspectiva semiótica! Penso que este será a opção mais polémica de Quillier - esta separação entre poesia e filosofia. É plenamente defensável que a obra de Caeiro é a perfeita união de esforços entre as duas. No entanto há que reforçar que Quillier apreende alguns objectivos principais de Caeiro - o seu realce por exemplo à "desaprendizagem" é sinal disso mesmo. Mas sem nunca tirar realmente dividendos dessa análise. A sua conclusão vai no sentido de afirmar que Caeiro se afirma pela sua obra (aqui concordando expressamente com Octavio Paz), que é o mais positivista dos heterónimos e o sol fixo e pacífico ao redor do qual giram os seus discípulos inquietos. Mas são, afinal, conclusões óbvias, que não nos podem animar num rumo diferente daquele que muitos autores já anunciaram. Podemos nós mesmos apenas concluir que a análise de Quillier, embora precisa literariamente, poderia ser muito mais corajosa filosoficamente, embora isso pudesse fugir do próprio âmbito objectivo do autor. Afinal parece sempre - o que lamentamos - que Pessoa não pode senão ser visto como um poeta que expressa ideias pela poesia e não o contrário.
Este livro pode ser adquirido na Fnac online (site Francês).

Uma nova exposição patente na galeria Ikon, no Reino Unido, invoca (embora de maneira paralela) o universo Pessoano, pelo menos à maneira de inspiração. Intitula-se "On the Movement of the Fried Egg and Other Astronomical Bodies" e tem a autoria de dois artistas plásticos Portugueses: João Maria Gusmão e Pedro Paiva. Eles descrevem o seu trabalho - que contém fotos, filmes em 16mm e instalações - como sendo uma "ficção poético-filosófica". Falando especificamente dos filmes (que constituem a exposição citada), eles "evocam estudos científicos, e são localizados em paisagens impossíveis de identificar ou estúdios pouco iluminados. Mas sempre silenciosos, aludindo a textos esotéricos e intelectuais". Ambos os artistas citam Fernando Pessoa como inspiração-chave. Essa inspiração parece ter vindo da visão Pessoana dos opostos, da forma como ele conseguia defender, através de diferentes vozes, perspectivas opostas e mesmo contraditórias da realidade. Os filmes "etéreos" pretendem passar uma ideia de sonhos lúcidos, sugerindo um número infindável de perspectivas filosóficas a um mundo que não aceita a reconciliação. Notícia via The Guardian

Correntes d'Escritas é o nome dado a um evento que ocorre na Póvoa de Varzim desde 1999, totalmente dedicado à discussão da literatura, que conta com participantes de variados países. Na terceira mesa de debate deste ano, uma frase de Alberto Caeiro foi escolhida como tema para acender as opiniões dos participantes: "Passo e fico, como o universo".
Trata-se do final do poema XLVIII, do "Guardador de Rebanhos". Claro que a conversa partiu para outros territórios (que não Pessoa ou Caeiro), mas devo dizer que fiquei espantado com a interpretação dada à frase por alguns dos escritores participantes. Todos eles parecem não ter chegado sequer a um possível sentido, o que não deixa de ser espantoso.
Mas claro que isso se deve sobretudo ao facto de nada do "Guardador de Rebanhos" poder ser citado desta forma, desligado de tudo o resto. Na nossa interpretação destes poemas, chegámos à conclusão que o livro é unívoco e uno, ou seja, tem um sentido apenas se lido globalmente. Isto levou-me a pensar a maneira como o próprio Pessoa é visto actualmente, por uma sociedade cada vez mais obcecada por sound bites e citações fora de contexto.
E a conclusão não é nada positiva, sobretudo para o esforço de Pessoa em elaborar teorias filosóficas na sua escrita poética, quando acaba citado, por mera curiosidade, para "ver o que acontece" em torno das suas palavras soltas...
Sempre pensei que Fernando Pessoa era muito mais do que apenas um poeta, mas um pensador que ainda hoje é ignorado pelo que escreveu. E isto num país que não tem uma história rica em termos de filósofos ou de ensaístas de renome. Mas, na nossa melhor tradição, os membros mais inovadores da sociedade são ostracizados para redutos onde não nos possam incomodar o quotidiano. E assim, tudo passa e fica na mesma, como o universo.

"Poesia de Fernando Pessoa para todos" é o título de uma nova antologia de poemas de Pessoa, lançada no Brasil, pela editora Martins Fontes (que publica muitos outros interessantes livros sobre Pessoa, muitos dos quais não estão disponíveis em Portugal).Esta edição pretende reunir os poemas que Pessoa escreveu para crianças e outros que sejam "de fácil alcance" para os jovens. São 41 poemas seleccionados e organizados por José António Gomes e com ilustrações de António Modesto.

"Carta a um Herói Estúpido" é uma edição da mítica editora Ática (a primeira a editar a "obra completa" de Fernando Pessoa, sob a orientação de Luiz de Montalvor), que reúne os fragmentos escritos por Pessoa tendo em vista uma "reacção" à chegada de um herói de guerra, agora já esquecido mesmo pelos livros de história, chamado Francisco de Aragão.Pessoa terá lido a notícia do regresso do herói e a sua respectiva entrevista ao jornal A Capital, de 24 de Agosto de 1915. Nela Aragão fala do seu cativeiro de sete meses em Naulila, Angola, com palavras que acenderam - ao que se entende - o espírito crítico de Pessoa, ao ponto da autoria dos textos roçar a heteronímia, para o lado do seu irmão com a língua mais picante, Álvaro de Campos.Jerónimo Pizarro, responsável pela fixação do texto, pelas notas e pelo pequeno prefácio, pretende com esta edição dar mais relevância a este "texto de intervenção" e de facto percebe-se a sua atitude. Sobretudo porque no que toca aos "textos de intervenção social" dos heterónimos (usamos a expressão de António Quadros), este texto fica na sombra de outros, talvez sobretudo do Ultimatum de Álvaro de Campos, não sendo devidamente analisado.Como era habitual em Pessoa, o texto, embora dirigido a uma pessoa real, usava essa mesma pessoa para simbolizar as suas próprias opiniões, sobretudo políticas e patrióticas. Mas - como bem indica Pizarro - este tipo de textos não se deve dissociar do próprio movimento modernista, que está cheio de manifestos e panfletos pedindo a mudança social.Quanto a mim é muito interessante a leitura deste texto, que num volume próprio mostra uma coerência que lhe pode dar mais significado, sendo que podemos compreender o sentido de humor de Pessoa e a sua crítica por vezes corrosiva da situação política do país à época. O jogo heteronímico que é mencionado (sendo a autoria talvez perto de um Pessoa-Campos) também se entende pela própria força das palavras, que pouco são medidas pelo autor.A edição é muito cuidada e torna-se muito interessante para todos os amantes e estudiosos de Fernando Pessoa. Só teremos um apontamento a fazer, que será o de não ter sido incluído o texto da tal "entrevista" de Aragão ao jornal A Capital, que gera tão grande reacção em Pessoa. Seria muito interessante poder ler o texto do "herói estúpido", para depois compreender melhor as críticas de Pessoa. É incluída uma imagem da entrevista, mas cuja leitura é de todo impossível.
O livro pode ser adquirido online, neste link.
Agradecimentos à Ática pelo cortês envio de um exemplar para análise.

O Ciranda Café, Cultura & Artes apresenta, na zona do Rio Vermelho, na Bahia, Brasil, um monólogo em que são recriadas as obras de Fernando Pessoa, acompanhadas de música. O espéctaculo - que tem conhecido grande sucesso - é dirigido e interpretado por Marcos Machado, com direcção musical de Amadeu Alves.Notícia via Ibahia