sexta-feira, janeiro 29, 2010

"Maníacos de Qualidade" - Uma Apreciação Crítica



Existem, na obra de Fernando Pessoa, centenas (ou mesmo milhares) de páginas sobre a sua condição psicológica, reunidos mesmo já em volumes organizados por Jerónimo Pizarro. Este foi um tema que sempre o interessou e o fascinou, e que ele sempre ligou ao "problema" da genialidade, à fronteira entre a loucura e génio.

Ora, Joana Amaral Dias, neste seu "Maníacos de Qualidade", nas 54 páginas que dedica a Pessoa, parece enveredar por esta mesma lógica. Aliás, a secção dedicada a Pessoa tem por título "Fernando Pessoa - o Super-Camões". Trata-se de uma questão polémica - a de Pessoa se ter considerado a si mesmo enquanto tal, ou pensasse ser apenas o anunciador de uma nova era - mas é uma questão que não caberia à autora responder, porque não é, evidentemente, uma especialista Pessoana.

Não é especialista, mas cabe aqui uma ressalva para lhe elogiar o esforço investigativo. De facto as 54 páginas mais parecem uma mini-biografia do poeta, pontilhada, aqui e ali, por apontamentos de análise mais "psicológicos". Isto poderá ser, simultaneamente, o que de melhor e de pior se pode dizer deste livro. Explicamos. Pareceu-nos claramente que Pessoa seria um dos personagens mais apelativos para uma análise deste tipo (por alguma razão "caiu" na capa do livro...), mas é também uma personagem incrivelmente difícil de abordar. Porquê? Porque ele foi o seu melhor psicólogo/psiquiatra. Tinha um sentido apurado para a sua própria tragédia pessoal e serviu-se disso para confundir sobremaneira os esforços de quem o quer (psico)analisar.

Joana Amaral Dias escapa a produzir um livro mais técnico (que, de acordo com as suas credenciais claramente poderia elaborar), preferindo uma abordagem mais literal e biográfica. Torna-se evidente que Pessoa não é colocado numa consulta com a psicóloga, mas antes que ela nos abre a perspectiva da sua vida, dando-lhe alguns apontamentos vindos das suas próprias opiniões. Um trabalho que, assim, fica muito aquém do prometido.

Mas, afinal, o que pensa a autora de Pessoa? O rol de epítetos não é exagerado (o que se louva), mas não deixa de ser extenso: megalómano (p. 236), auto-protector (p. 239), à procura de uma figura parternal forte (p. 254), narcisista (p. 254), misógeno (p. 260), egocêntrico (p. 262), bisexual (p. 264) e infantil (p. 280). Não muito distante, portanto, da biografia de Gaspar Simões, que Amaral Dias critica por ser demasiado Freudiana e pouco exacta. E sobretudo não trazendo grandes novidades ao que já se saberia, só pela leitura dos poemas e das prosas Pessoanas...

Há alguns apontamentos de interesse, embora esporádicos. Não chega a haver uma linha condutora para este pensamento, mas Amaral Dias fala de uma possível motivação de Pessoa ao longo da vida - a de manter o fluxo perfeito entre infância e vida adulta, "criando" e mantendo uma persona perfeita, impoluta, e por isso mesmo com raízes no passado. Por isso o poeta teria amputado da obra tudo o que fossem invasões da realidade menos-que-perfeita, como Durban, ou a morte da mãe. A loucura assumida - diz Joana Amaral Dias - era uma protecção contra a dôr, nada mais do que isso, por parte de alguém que insistiu sempre na sua infantilidade. E aqui introduz duas opiniões interessantes: o pormenor do Guardador de Rebanhos ser escrito de pé poderia ser uma memória do pai, forte e vivo, a escrever; o medo da trovoada, uma fobia infantil, mantida na vida adulta para perpetuar esse mesmo sentimento de criança.

Cedo se percebe que o livro não é realmente uma porta para grandes novidades acerca de Pessoa, sendo pobre em comparação por exemplo com "Fernando em Pessoa" de Celeste Malpique, que já analisámos aqui. Uma boa introdução ao poeta, sim, mas que engana o leitor a pensar que Pessoa seria aqui escalpelizado com maior pormenor. Uma tarefa a que a autora, claramente, talvez por facilidade, se escusou.

O livro pode ser adquirido online, neste link.
Agradecimentos à Esfera dos Livros pelo cortês envio de um exemplar para análise.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Edições Pessoanas, na Assírio, em Fevereiro

Em Fevereiro chegam às livrarias duas "novas" edições Pessoanas, pela editora Assírio & Alvim. Na realidade, não são novidades, mas sim reedições de duas obras esgotadas:



"Fernando Pessoa - Empregado de Escritório"
Escrito por João Rui de Sousa, este livro "mítico" foi dos primeiros a abordar o poeta de uma perspectiva profissional, investigando onde ele trabalhou e o que fazia e não esquecendo os reflexos disso mesmo na sua obra. Este livro encontrava-se esgotado há muitos anos. Preço: 16€



"Encontro Magik"
O livro de Miguel Roza (sobrinho de Pessoa) encontrava-se esgotado há muitos meses e é bom ver uma reedição, agora na Assírio. Isto porque muito dos seus conteúdos não estão disponíveis publicamente - a parte do espólio referente a este encontro entre Pessoa e Crowley foi só muito recentemente adquirida pelo Estado Português. Preço: 25€

terça-feira, janeiro 26, 2010

Documentário "Hip Hop Pessoa"

Como noticiámos no blog, em 2008, na ocasião dos 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, a CML organizou um concerto de Hip Hop dedicado ao poeta. Agora encontrámos online um pequeno excerto de um documentário sobre o mesmo.

"Hip Hop Pessoa" (excerpts from the documentary) from Sara Esteves on Vimeo.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Filme sobre Pessoa e Cavafy na Fundação Calouste Gulbenkian



O filme "The Night Fernando Pessoa Met Constantine Cavafy" ("Ti nyhta pou o Fernando Pessoa synantise ton Konstadino Kavafi" no original), que, como já noticiámos no blog, foi premiado no 49.º Festival de Cinema de Thessaloniki na Grécia, vai ser exibido, no próximo dia 28 de Janeiro, às 17h, no Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ver aqui o convite, para mais pormenores.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

GOP da Cultura incluem compra do Espólio de Pessoa



Foi anunciado hoje que as Grandes Opções do Plano de 2010 até 2013 do governo de José Sócrates vão dar especial ênfase à cultura - uma área que o próprio Primeiro-Ministro tinha confessado ter sofrido nos quatro anos anteriores.

Segundo o que noticia a Lusa,
"a aquisição de espólios de autores portugueses, com prioridade para o legado de Fernando Pessoa integram também os projectos do Ministério da Cultura para os próximos quatro anos". Esperam-se então, em breve, notícias quanto aos projectos do Ministério, que acompanharemos com toda a atenção, visto que existem ainda muitos documentos de Pessoa em mãos particulares, sem se conhecer realmente a sua importância.

Notícia via SIC Online

terça-feira, janeiro 19, 2010

Pessoa inspira exposição em São Francisco



O artista conceptual Pablo Guardiola inaugurou uma exposição, na Galeria de La Raza, em São Francisco, que contém instalações com fotografias, objectos e trabalhos escultóricos inspirados na seguinte passagem de Pessoa:

“There is no synthesis where there isn’t a criteria for synthesis; for the same reason that you cannot put things in a box if there is no box”

Notícia via San Francisco Chronicle

quarta-feira, janeiro 13, 2010

moonpain: novo site inspirado em Pessoa



Um novo website sobre Pessoa é sempre uma boa notícia. Mais ainda neste caso, em que por detrás do website se encontra um talentoso compositor, Klaus Ib Jørgensen, que gravou em 2009 com o grupo REMIX ensemble. Aliás, o website é mesmo um "espelho" dessa mesma gravação, que vale bem a pena explorar.

O website de Klaus, chama-se: moonpain.