sexta-feira, dezembro 18, 2009

Mealibra n.º 23 comemora Fernando Pessoa



O número 23 da revista de cultura "Mealibra" - uma edição do Centro Cultural do Alto Minho - é quase totalmente dedicada a Fernando Pessoa, com a publicação de vários ensaios e de um importante inédito intitulado "O Peregrino", uma narrativa esotérica sui generis.

Entre os autores dos ensaios, destacamos importantes Pessoanos como Teresa Rita Lopes (que apresenta também o inédito), Ana Maria Freitas, Luísa Freire, Manuela Parreira da Silva e Richard Zenith, entre outros. Certamente uma revista a não perder, para todos os que se interessam pelos estudos Pessoanos.

Agradecemos ao Centro Cultural do Alto Minho o envio de um exemplar da revista. Voltaremos certamente a ela, depois de analisados os artigos e o inédito.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Inédito "A nossa crise provém" no Jornal i



O Jornal i publica hoje mais um inédito de Fernando Pessoa (é já o nono de onze previstos). Desta vez o texto foca-se nos textos preparatórios para uma entrevista de Pessoa publicada em 1923 na Revista Portuguesa. Na mesma, Pessoa fala sobre o povo Português e o seu papel na Europa.

Como sempre o inédito está disponível no Jornal i, bem como no nosso link alternativo.

"Livro de Viagem" - Uma Apreciação Crítica

A temática da viagem é uma temática transversal à obra de Fernando Pessoa. Foi com esta perspectiva em mente que a editora Guerra & Paz decidiu coligir poemas de diversos heterónimos de Pessoa com o intuito de construir um verdadeiro e próprio "Livro de Viagem" poético.

"Viajantes de uma mesma obscura seita" (nas palavras do editor Manuel da Fonseca), os diferentes escritores deveriam deixar neste livro as suas mais marcantes poesias de viagem.

Mas na realidade - e apesar das boas intenções - o que nos parece que foi realizado foi mesmo apenas uma colecção partida de textos poéticos, sem grande coerência temática entre si. Porquê? Porque simplesmente nem todos os heterónimos são viajantes.


O sinal mais claro disso mesmo é o livro abrir com Álvaro de Campos - o heterónimo das viagens (sobretudo das viagens marítimas). Coligir textos de Campos que tenham a ver com este tema é fácil e o editor reúne os evidentes, como a "Ode Marítima" e "Ao volante do Chevrolet". Já mais difícil é aceitar textos de um Caeiro ou de um Ricardo Reis viajantes... Mesmo que aceitemos a frase desafiante na contracapa: "A melhor maneira de viajar é sentir". Bernardo Soares fecha o livro, com textos adequados, mas fica claramente a sensação de que muitos dos textos intermédios (do meio do livro) são colocados de maneira forçada, para respeito a uma coerência temática que não chega a ser conseguida.


Mas nem tudo é mau nesta edição, que conta com imagens bem escolhidas - sobretudo as fotografias de época, coloridas parcialmente, com um toque marcadamente "modernista" e mesmo, em algumas ocasiões, roçando o absurdo (como uma locomotiva caída).

A qualidade do papel e a cuidado gráfico são certamente outros pontos positivos a indicar.


Em conclusão pensamos que esta edição segue literalmente o lema da editora Guerra & Paz de "inventar os seus próprios livros", pois se a ideia inicial é meritória, o resultado final é mesmo um livro inventado, sem coerência interna e que fica longe do seu objectivo.

Este volume pode já ser adquirido online, aqui.

Agradecimentos à Guerra & Paz Editores pelo envio de um exemplar para análise no blog.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Revista Biblos Vol.VII (2009), 2.ª série



É lançado amanhã um novo número da Revista Biblos, edição da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Neste número poderá encontrar-se um artigo sobre Pessoa, da autoria do conhecido Pessoano Aníbal Frias (residente em França).

(para mais informações, basta clicar na imagem em cima).

terça-feira, dezembro 15, 2009

"Fernando Pessoa e os Mitos" por Antonio Cicero



O filósofo Antonio Cicero, um reconhecido apaixonado por Pessoa, escreveu o seguinte artigo na Folha de São Paulo, no dia 13 de Dezembro (e também o reproduziu no seu blog) e achamos de todo o interesse que ele esteja disponível ao maior número de Pessoanos:

"O MITO é o nada que é tudo", diz o famoso primeiro verso do poema "Ulisses", do livro "Mensagem", de Fernando Pessoa. Em anotação de 1930 que devia ser o esboço do prefácio para a edição projetada das suas obras, ele diz: "Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade".


Essa concepção dos mitos como obras parece-me estar de acordo com a concepção homérica. Na cultura oral primária grega, que desconhecia a escrita, "mythos" se opunha a "epos". "Epos" (de onde vem "epopeia", a produção de "epos") é o discurso que se reitera, como as canções, os provérbios, algumas rezas, os epítetos tradicionais dos heróis ou deuses, e cada palavra individual.

"Mythos" é, ao contrário, o que jamais se reitera, como uma conversa qualquer, isto é, aquilo que se diz sobre alguma coisa. Assim, o mito de Édipo, por exemplo, é simplesmente o que se diz sobre Édipo. Pois bem, o que é que se diz sobre Édipo? Para nós é principalmente o que os poetas disseram sobre Édipo; em primeiro lugar, é o que os maiores poemas sobre Édipo disseram sobre ele: e esses são as peças de Sófocles; em segundo lugar, é o que os outros, como Freud, disseram principalmente a partir do que Sófocles dissera. Assim também, o mito de Ulisses é principalmente o que dele nos contam os poemas homéricos; o de Hamlet, principalmente o que dele nos conta Shakespeare etc.

Segundo o historiador Heródoto, foram os poemas de Hesíodo e de Homero que criaram "uma teogonia para os helenos e deram as denominações e as honras e distribuíram as artes e indicaram os aspectos dos deuses".

Assim, Pessoa tem razão quando, em anotação, de 1918, tendo observado que "a religião cristã é essencialmente dogmática, no sentido de que tem princípios assentes, aos quais o crente tem, dentro de estreitos limites, que subordinar-se”, observa que “no paganismo não é assim. A sua ação imaginativa criadora não se sente presa. Pode inventar um belo mito, que, se na verdade for belo ou insinuador, entrará na religião. Tão humana comunhão com a vida dos deuses não é possível no cristismo. O cristão católico tem a liberdade de inventar aparecimentos de Maria a este ou àquele, mas há severos limites às suas faculdades mitopeicas".

Dado que o criador de mitos, como mostra Heródoto, é o poeta, então é o poeta que, ao criar mitos, exerce, segundo Pessoa, "o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade": e é esse poeta que ele pretende ser.

Observo que essa concepção do poeta como criador de mitos está longe de ser trivial em nossa época. Muito mais comum é a contrária, que herdamos do romantismo, mas cuja origem mais remota talvez esteja em Platão. Refiro-me à concepção segundo a qual o mito é um arquétipo imemorial, incriado, que os poetas, por uma espécie de anamnese, recuperam para a comunidade a que pertencem. Para Pessoa, segundo penso, o mito é exatamente o oposto disso: o produto da poesia.

Não é gratuitamente que Pessoa retoma o mito de Ulisses e sua lendária fundação de Lisboa. Seu Portugal representa o mais alto destino não tanto da Grécia, da Europa ou do Ocidente em particular, mas, no fundo, de todos esses e mais, isto é, o destino do mundo moderno. "A arte portuguesa", diz ele em "Ultimatum e Páginas de Sociologia Política", "será aquela em que a Europa (entendendo por Europa principalmente a Grécia Antiga e o universo inteiro) se mire e se reconheça sem lembrar do espelho".

É assim que a verdade profunda do seguinte texto de Pessoa fica mais evidente quando se compreende que a palavra "português" funciona nele como um curinga, podendo ser substituída por "brasileiro", "italiano", "russo" etc.:

"Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistamos já o Mar: resta que conquistemos o Céu [...]. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade".

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Seminário "Comparar Pessoa"



Vai decorrer, nos próximos dias 15 e 19 de Dezembro, na Faculdade de Letras de Lisboa, o Seminário "Comparar Pessoa", com organização do Centro de Estudos Comparatistas.

Este será o programa das duas sessões:
  • Dia 15 de Dezembro, na Sala 1.26, das 16h às 18h, o Prof. Jerónimo Pizarro falará da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa (que estará online, ao que se espera, no próximo ano) e o modo como ela se compara com as de outros grandes autores, com especial referência para a marginalia. Cartaz disponível aqui.
  • Dia 19 de Dezembro, no Anfiteatro 3, das 16h às 18h, o Prof. Manuel Gusmão falará da tradição da poesia oral e tradicional em Fernando Pessoa. Cartaz disponível aqui.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

"Edgar Poe e a Geração de Orpheu" na UFP



A Universidade Fernando Pessoa (UFP) organiza, através do seu Núcleo de Estudos do Modernismo em Língua Portuguesa, nos dias 10 e 11 de Dezembro, um encontro com o título "Homenagem a Edgar Allan Poe". Dentro do encontro haverá lugar para o estudo da influência de Poe nos autores do modernismo Português, no dabate "Edgar Poe e a Geração de Orpheu" que terá os seguintes oradores:

— Celina Silva: “Modernidade(s) – Almada leitor de Poe e Baudelaire”
— Fernando Guimarães: “Poéticas da Composição: Poe e Pessoa”
— Jerónimo Pizarro
— Fernando Hilário: “O Fantástico de Edgar Poe na Poética de Mário de Sá Carneiro”
— Raquel Monteiro: “Reflexão sobre as (im)possíveis fronteiras da moralidade”
— Manuel Portela: “O corvo de Poessoa: uma Filosofia da tradução”
— Rui Torres: “Pessoa e Poe: entre a tradução e a generatividade”