quinta-feira, outubro 01, 2009

Cláudio da Silva é Bernando Soares no "Filme do Desassossego"



Começam já em Novembro as filmagens do novo filme de João Botelho, que se vai chamar "
Filme do Desassossego", baseada na obra com o mesmo nome, da autoria de Fernando Pessoa.
Temos notícias que em breve existirá um website oficial do filme.

Entretanto João Botelho já decidiu quem fica com o papel principal de Bernardo Soares. O escolhido foi
Cláudio da Silva, um actor ligado mais ao teatro do que ao cinema, que Botelho define de maneira singela:
"É como o Gael García Bernal, mas mais bonito. E enche o ecrã."

Quanto ao restante elenco, Botelho diz:
"É a minha família de actores: Rita Blanco, Alexandra Lencastre, Miguel Guilherme, Maria João Luís, Marcello Urgeghe..."


Notícia via Correio da Manhã

"O Marinheiro" pelo Teatro Plástico, no Porto



O Teatro Plástico, no Porto, vai levar à cena, de 3 a 11 de Outubro, a peça "O Marinheiro", de Fernando Pessoa. A Direcção artística é de Francisco Alves e as interpretações ficam a cargo de Andrea Moisés, Margarida Bento, Mónica Garnel, Cátia Esteves, Inês Cerqueira e Susana Otero.

De Terça a Domingo, às 21h30, no Teatro Helena Sá Costa (Rua da Escola Normal, 39). Informações e reservas pelos telefones: 225 189 982/3 - 968 940 982

quarta-feira, setembro 30, 2009

"Os Mistérios de Lisboa" - Uma Apreciação Crítica



Pode ser finalmente encomendado o DVD "Os Mistérios de Lisboa - O que o Turista Deve Ver" (no original "Lisbon - What the Tourist Should See"), baseado inteiramente num roteiro turístico escrito por Fernando Pessoa em 1925.

Tive ontem a oportunidade de ver o DVD, realizado por José Fonseca e Costa e ficam aqui as minhas impressões:

O roteiro foi filmado com todo o cuidado, respeitando ao máximo o roteiro original, que obviamente já não estava actualizado em certas partes da cidade (nomeadamente para lá das "avenidas novas"). Fiquei especialmente bem impressionado pela forma leve e meticulosa como Fonseca e Costa conseguiu filmar Lisboa.

O "filme" inicia-se como se chegássemos de paquete à cidade e desembarcássemos no porto, "à Álvaro de Campos". Aliás é bem feliz que alguns poemas - não demasiados - do engenheiro sejam usados ao longo do DVD, pois é ele que é por essência o heterónimo das viagens.


Segue-se um percurso algo longo pela cidade, passando pelos principais monumentos e lugares, sempre com preciosas indicações de pormenor ditadas pelas palavras do poeta. Fonseca e Costa tenta - e quanto a mim consegue - assistir as palavras em direcção às imagens e não força demasiado o guia de Pessoa a seguir a sua própria realização visual. Aliás, essa foi a impressão com que fiquei no final: que há uma certa leveza nas imagens que transparece e que serve muito bem de companhia ao documento escrito.


Na versão que pude ver - a Portuguesa - a voz off ficou a cargo de Paulo Pires, que cumpre bem o seu papel, com excelente dicção, embora pessoalmente ache o seu tom de voz pouco intenso e mesmo algo monocórdico para uma narração de mais de uma hora. Terá sido mesmo a voz de Pires, e não propriamente as imagens, que fazem com que o DVD perca um pouco o seu
momentum em certas partes. Fiquei curioso em ver como seria a locução em Inglês, que no entanto não vinha no DVD promocional que recebi.
A música foi bem escolhida (de Joly Braga Santos e do fadista Duarte), embora um pouco forte demais em certas partes (sobretudo na Praça do Comércio).

Mas percebe-se que este poderá ser um valioso instrumento de divulgação do turismo nacional lá fora (estará disponível em seis idiomas) - aliando a celebridade de Pessoa às imagens de uma Lisboa filmada de modo natural e muito fluido.

Em conclusão o DVD impressiona sobretudo por esta leveza, que não leva demasiado a sério a cidade nem o roteiro de Pessoa (que também não é um documento arrogante, a pretender impôr uma visão de Lisboa ao turista). A simplicidade é o tom dominante, e ainda bem, porque usando a inteligência certamente se via que era o único tom possível para prestar tributo à cidade e o seu poeta preferido.


O DVD pode ser encomendado neste link.
Agradecimentos à JFC Filmes pelo envio de um exemplar para análise.

terça-feira, setembro 29, 2009

"A Natureza no Olhar" em cena no Brasil



A conhecida actriz Brasileira Elisa Lucinda vai protagonizar a partir do próximo dia 3 de Outubro a peça "A Natureza no Olhar", baseada nos "Poemas Completos" de Alberto Caeiro.
"A obra é uma adaptação dramatúrgica do livro ao interpretarem a conversa entre Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, heterónimos do poeta Fernando Pessoa".

A peça fica em cartaz até ao dia 20 de Dezembro de 2009, no Teatro Jaraguá, em São Paulo, com apresentações aos Sábados e Domingos.


Notícia via Hotelier News

sábado, setembro 26, 2009

"Passageiros da Neblina" - Uma Apreciação Crítica



A Planeta - editora Espanhola de referência - decidiu traduzir para Português e publicar no mercado nacional a obra de Montserrat Rico Góngora "Passajeros de la Niebla".

Apresentado como sendo um romance que tem como as duas personagens principais Fernando Pessoa e Aleister Crowley, não podemos deixar de começar a nossa crítica precisamente por este ponto: qual o papel dos dois no desenrolar deste romance? Diríamos que muito reduzido, se é que algum.

Pessoa aparece no início do romance - mais para ser vilipendiado por um empregado de mesa demasiado falador e demasiado erudito do que propriamente como interveniente e Crowley passeia-se como um espectro durante o restante do mesmo.
Aliás, o tom difamatório pode mesmo ser entendido como de mau gosto. O empregado de mesa supõe que Pessoa é hermafrodita, e os inspectores que investigam o "caso" rebuscado que envolve Crowley depreendem a certo ponto que escândalo, escândalo era encontrarem Pessoa e Crowley envolvidos românticamente.

O que nos choca é sobretudo a colagem destes clichés (a suposta homosexualidade de Pessoa e o facto de ser um isolado social) serem as caraterísticas principais usadas para a sua caracterização. Além disso, os clichés da heteronímia estão presentes de maneira crua no interrogatório a Pessoa, e são conhecidos não se sabe muito bem como pelo inspector Inglês que fala com Pessoa. Já Crowley, pelo menos "escapa" deste profiling descarado, mas não escapa ao cliché do Satanista inveterado. Um facilitismo que de imediato me retirou do romance.

Resumindo a impressão inicial, fica-nos a óbvia impressão que foi perseguido um tema de impacto fácil para a capa e para o título - Pessoa e Crowley - mas que no interior do livro não encontra nenhuma substância. Aliás o enredo é de segunda categoria, com saltos incompreensíveis em diversos momentos, que nos tiram completamente da história.

Os lugares no romance são usados também para colar ainda mais descaradamente um processo narrativo que não convence e que usa de artifícios demasiado ligeiros, sobretudo para quem esperava algum "sumo" desta história. Aqui a comparação com o livro de David Soares, por exemplo, é por demais evidente, sendo muito mais favorável ao autor Português.


O embuste é revelado rapidamente: a capa Pessoa/Crowley esconde a banalidade de uma história paralela que se assume como história principal - o assassinato de um senhor qualquer por Crowley, que viaja entre épocas sem envelhecer, assumindo-se verdadeiramente como uma figura sinistra sem personalidade autónoma além dos seus actos de velhaco histriónico. Montserrat Góngora quase que não disfarça o quão rapidamente queria deixar Pessoa e Crowley para trás e passar para um método romanesco que mais lhe agrada, sobretudo usando personagens completamente fictícias. Mas então porque chamar ao livro "Passageiros da Neblina" e não "O Assassinato do Sr. Ovadía" (nome do assassinado por Crowley)?


A resposta óbvia é que esta decisão não seria a mais rentável comercialmente...


Temos de recomendar que ninguém compre este livro ao engano. Não há nele nenhuma história em volta do encontro Pessoa/Crowley, nem Pessoa ou Crowley encontram lugar de mínimo relevo nele. Pensamos ser mesmo um caso escandaloso de falsa publicidade...

sexta-feira, setembro 25, 2009

Eros e Psique, por Maria Betânia

"Eros e Psique", recitado por Maria Betânia.

Sobre Cartas Inexistentes (e a Iniciação de Pessoa por Crowley)

No passado dia 23, aquando do lançamento do livro "Passageiros da Neblina", José Manuel Anes referiu uma carta de Raúl Leal que mencionaria directamente a iniciação de Pessoa por Aleister Crowley (as palavras de Anes terão sido mais ou menos isto: "Leal disse que tinha sido iniciado por Crowley na sua casa do Bairro Alto e também disse que a iniciação lhe tinha feito muito mal e a Pessoa também).

Devido à nossa surpresa inicial, inquirimos especialistas de renome que estudam o espólio pessoano sobre tal carta. O que nos disseram - e que confirma as nossas suspeitas iniciais - é que tal carta não existe.

Eis o que sabemos que existe:
  • Uma entrada no diário de Crowley no dia 9 de Setembro de 1930, onde ele diz o seguinte: "To Lisbon: lunch with 4000 escudos. Met Leal: don't like him. There's something definitely very wrong with him. At night Initiation" (mencionada por Steffan Dix em "Fernando Pessoa : O Guardador de Papéis", pág. 71).
  • Uma carta de Raúl Leal a Gaspar Simões datada de 1950 (publicada na Revista Persona, n.º 7, Agosto de 1982) em que este diz que Crowley se encontrou com ele no apartamento de Leal em Lisboa e que falaram de magia e ocultismo.
  • Na mesma carta de 1950, Leal acusa Crowley de ter "arrastado Pessoa para a Morte" e de lhe ter causado a ele mesmo uma "horrível doença que também quase foi mortal".
Podemos concluir que Leal terá sido iniciado por Crowley, mas que não há provas que o mesmo tenha ocorrido com Pessoa.

O excelente estudo de Steffen Dix (em "Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis") ilustra bem todo o processo da visita de Crowley a Lisboa (estudo que se pode e deve complementar com o estudo de Marco Pasi "Aleister Crowley e la tentatazione da la politica" a páginas 137 e segs.) e não há dúvida que não há nenhuma menção directa ou indirecta à Iniciação de Fernando Pessoa em qualquer ordem de Crowley.