quarta-feira, setembro 23, 2009

Ângelo de Lima - o verdadeiro louco de Orpheu?



Tive hoje a oportunidade de ler um interessante artigo sobre a poesia e a loucura, do Prof. Jayme Ferreira Bueno, artigo este que fala também de Pessoa (mais propriamente de Álvaro de Campos) e de um seu companheiro da revista Orpheu, Ângelo de Lima.

Não haverá necessidade de resumir o artigo, que se lê melhor no original, mas achei muito interessante olhar para trás para essa época e ver realmente que os modernistas foram considerados loucos na sua altura, sobretudo devido à sua originalidade. Depois do aparecimento da revista Orpheu, os epítetos chegaram dos jornais: "literatura de manicómio", "os bardos do orpheu são doidos com juízo" ou "rilhafolescamente" (a reacção pode ser lida a págs. 66 e segs do excelente estudo "A Experiência futurista e a Geração de Orpheu"). Pessoa - conhecido pelo seu humor refinado - chama ao segundo número da revista Ângelo de Lima, verdadeiro poeta louco, internado no manicómio de Rilhafoles, como que a dar razão à imprensa, mas com o certo intuito de prolongar as ondas de choque.

Mas mais do que um instrumento de "marketing", a presença de Lima será bem conseguida, como exemplificam os poemas no artigo do Prof. Bueno, que mais uma vez recomendo e que tem o mérito de chamar a atenção para este poeta esquecido.

Ps: a obra completa de Ângelo de Lima está publicada na Assírio e Alvim.

sábado, setembro 19, 2009

Quem era Hanni Jaeger?

Quando se comemoram 79 anos da chegada do mago Aleister Crowley a Portugal, para uma visita misteriosa (mas já revelada pelo menos em parte como sendo uma visita esotérico-comercial) a Fernando Pessoa, pensámos que seria interessante analisarmos os pormenores existentes sobre uma personagem que viajou com o mago e que teve um grande impacto em Pessoa: Hanni Jaeger.

Hanni Larissa Jaeger, uma rapariga de 19 anos, Alemã, era em Setembro de 1930 a "mulher escarlate" de Aleister Crowley - o nome figurativo, nascido da própria cosmologia de Crowley, de uma deusa da fertilidade e do ímpeto sexual feminino. A companhia de mulheres mais jovens era um hábito do mago inglês, que dava continuação lógica (e prática) às suas teorias esotéricas, que muitas das vezes incluiam rituais sexuais. Crowley mudava frequentemente de companhias femininas, provavelmente devido à exaustiva exuberância da sua vida, e tinha preferência por personalidades que pudessem de certo modo acompanhar a sua própria energia caótica.

Miss Hanni - conhecida também por Anu e pelo epíteto "the monster" (de uma entrada no diário de Crowley) - faz juz à sua personalidade aquando da estadia em Portugal. Fala-se sobretudo de uma crise histérica que os leva a serem expulsos de um hotel e a várias tiradas exuberantes em restaurantes em Lisboa. Seja como for, fica mais ou menos claro que Hanni não será alguém que passe despercebido, sobretudo na conservadora Lisboa dos anos 30.

Pessoa - liberal mais no espírito do que na carne - ficou impressionado com Hanni. Mas essa impressão mostra um pouco a imaturidade emocional de Pessoa (que em Outubro de 1929 tinha reatado o namoro com Ophélia Queiroz, que só seria quebrado definitivamente no início de 1931). Será porventura uma atracção física, mais do que uma atracção intelectual.

Um poema ajuda-nos a perceber isso mesmo. E ajuda a construir a descrição física de Hanni:

Dá a surpresa de ser
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

Datado de 10 de Setembro de 1930 (o mago chegou dia 2), o poema é crú como a impressão que Hanni terá feito em Pessoa: alta, germânica, loura e de pele branca. Sensual e simbolizando o que Pessoa não teria ainda alcançado: a consumação do sexo.

Acrescentamos agora uma imagem do "The Old Master Catalogue", que pensamos ser a única imagem disponível de Hanni Jaeger, e que ainda não foi publicada fora daquele livro de pinturas de Crowley:

(clicar na imagem para ver em alta resolução)

Embora seja apenas uma das muitas pinturas naifs de Crowley (que não era um pintor dotado), percebemos algumas das características que Pessoa refere, nomeadamente os traços germânicos da cara. É curioso acrescentar a imagem ao poema, porque ficamos com a mais próxima caracterização fisíca possível de uma das mulheres da vida de Pessoa, embora a sua passagem por Lisboa tenha sido fugaz. E a menos que alguém encontre num arquivo Alemão, uma qualquer foto que tenha sobrevivido aos caos da II Guerra Mundial, será porventura a melhor imagem que alguma vez teremos desta misteriosa mulher.

Agradecimento a Marco Pasi pelo envio da imagem digitalizada. Imagem © Thelema Media

sexta-feira, setembro 18, 2009

Fernando Pessoa na Biblioteca Municipal de Sesimbra



Nuno Henriques continua o seu trabalho de divulgação da poesia Pessoana com um recital poético na Biblioteca Municipal de Sesimbra intitulado "Fernando Pessoa, 120 Anos de Palavras Vivas".

Este recital enquadra-se na comemoração do IV aniversário da Biblioteca e vai decorrer no dia 25 de Setembro, às 21h30, na sala polivalente. Todo o programa de comemorações, bem como a programação geral de Setembro, pode ser consultado aqui (ficheiro PDF).

segunda-feira, setembro 14, 2009

Decreto de Classificação do Espólio de Fernando Pessoa



Saiu hoje em Diário da República, o Decreto n.º 21/2009, que classifica como "bem de interesse nacional" o espólio de Fernando Pessoa. É este o texto do articulado do decreto:

Artigo 1.º

Classificação

1 — É classificado como bem de interesse nacional o espólio de Fernando Pessoa, compreendido como a universalidade de facto composta por todos os documentos produzidos ou reunidos por Fernando Pessoa, seja na forma de manuscritos autógrafos, isolados ou integrados em documentos de terceiros, assinados ou não, de dactiloscritos ou tiposcritos, com ou sem intervenção autógrafa, assinados ou não, bem como todos os documentos biográficos de Fernando Pessoa ou que registem as suas técnicas e hábitos, assinados ou não, seja qual for o acabamento do texto ou textos neles contidos, e os documentos impressos que se reconheça terem pertencido à sua biblioteca e ostentem marcas autógrafas de utilização.

2 — O espólio de Fernando Pessoa é designado como «tesouro nacional».


O original pode ser consultado aqui (ficheiro PDF). Todo o processo de classificação do espólio Pessoano pode ser acompanhado pelas notícias que fomos colocando no nosso blog (etiqueta "Classificação do Espólio").

sexta-feira, setembro 11, 2009

Colóquio «Crowley e Pessoa - Realidade e Ficção»



No dia 2 de Setembro comemoraram-se os 79 anos da visita de Aleister Crowley a Fernando Pessoa em Lisboa (o suicídio fingido do mago foi a 25).

Aproveitando a efeméride a Planeta lança a tradução Portuguesa do livro "Passageiros da Neblina" de Montserrat Rico Góngora (no original "Passajeros de la Niebla"). O lançamento é no dia 23, às 18h30, na Casa Fernando Pessoa e a data é aproveitada também para um colóquio em que estarão presentes a autora, José Manuel Anes e Paulo Cardoso.

Notícia via Diário Digital

quarta-feira, setembro 09, 2009

Os Heterónimos: um fenómeno de mediunidade?



Achei um texto curioso, embora com alguns erros factuais, escrito a partir do Brasil - país que continua a demonstrar a sua força e energia nos estudos Pessoanos - que aventa a possibilidade de os heterónimos de Fernando Pessoa serem espíritos "desencarnados". Relevo o texto apenas pela hipótese que levanta e porque considero positiva a discussão de hipóteses no que diz respeito à obra de Pessoa.

Ora, sabemos que Pessoa se interessava pelo espiritismo (seria mais fácil no entanto indicar algo por que não se interessasse, vista a sua infinita curiosidade), tendo mesmo tido experiências de escrita automática, deixadas no espólio. Como se diz no tal texto, a sua mãe e a sua tia Anica eram as pessoas que mais o aproximaram desta prática. Uma prática, no entanto, muito em voga no início do Séc. XX.

Será Allan Kardec que na França dará grande notoriedade a esta escola de pensamento paralelo, França essa que na altura tinha uma imensa esfera de influência sobre todos os países Europeus (talvez com a clara excepção das ilhas britânicas).

O espiritismo tornou-se uma "moda", sobretudo nos lares da média/alta burguesia da época, espalhando-se quase como forma de entretenimento em família. Não é pois de estranhar que Pessoa o conhecesse de perto - e o levasse porventura mais a sério, visto os seus próprios interesses filosóficos.

Ora quando se diz: "É muito provável que os heterônimos Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro Campos, com quem Fernando Pessoa assinava seus poemas, sejam nomes dados por poetas quando encarnados, o que demonstra que a autoria desses versos seja de Espíritos desencarnados e não dele mesmo."; incorre-se numa afirmação polémica.

Por duas razões simples eu tendo a discordar: 1) os poemas mediúnicos tendem a não ser brilhantes (por alguma razão o espírito "desencarnado" não mantém a sua genialidade); 2) a escrita dos heterónimos não é ela própria uma "escrita desencarnada", falha de elementos biográficos de Pessoa, pelo contrário.

No entanto a hipótese pareceu-nos interessante, sobretudo porque aborda um tema querido a Pessoa - o ocultismo - que poucas vezes é tocado pelos seus estudiosos.

terça-feira, setembro 08, 2009

Restos mortais de Jorge de Sena transladados para Portugal



Jorge de Sena foi uma das maiores figuras nos estudos Pessoanos, mas igualmente um escritor por direito próprio, com uma vasta obra publicada (sobretudo poesia, mas também um romance). Os seus estudos Pessoanos, vertidos sobretudo nos volumes "Fernando Pessoa & C.ª Heterónima" são ainda hoje essenciais e constituem raros vislumbres de inusitada originalidade sobre a vida e obra de Pessoa.

Sena foi um expatriado, vivendo no Brasil e nos Estados Unidos, morrendo naquele país em 1978. Os seus restos mortais regressarão até ao fim do ano a Portugal, para descansarem no Cemitério dos Prazeres (aquele por onde Pessoa também passou, no túmulo da sua avó louca Dionísia).

Notícia via Expresso