segunda-feira, maio 04, 2009

quinta-feira, abril 30, 2009

"O Mostrengo" pelos Música Profana



Fernando Pessoa em versão Metal, com gaitas de foles à mistura? O projecto chama-se Música Profana, vem de Ponte de Lima e reúne o imaginário dos Descobrimentos com as lendas populares. O melhor é mesmo ouvir "O Mostrengo", clicando aqui.

O EP promocional da banda, com 4 faixas, está disponível para download aqui.

quarta-feira, abril 29, 2009

Pessoa: do teatro à dança



Hoje é dia mundial da dança, e Fernando Pessoa está envolvido nas comemorações. Às 19h, o
Balleteatro, no Porto, apresenta "E é este o ritmo da loucura", a partir de textos de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Sarah Kane, com encenação e interpretação de Miguel Cunha e Paulo Freitas. Mais pormenores aqui.


No Convento da Madre de Deus da Verderena (Barreiro), haverá um Sarau Renascentista, com Expressão Dramática e Dança Antiga. É hoje também, mas pelas 16h. Detalhes
aqui.


Já no Brasil, destaque para o que parece ser uma interessante encenação esotérica, com base em textos de Pessoa e descrito assim:
"Em “Conhece-te a ti mesmo”, a Cia. Ânima utiliza os quatro elementos – Fogo, Ar, Água e Terra – para ilustrar o encontro entre o demônio Mephistópheles, o personagem Fausto, de Fernando Pessoa e o heterônimo do escritor português, Álvaro de Campos. A peça desenrola-se dentro de um pentagrama, que une os quatro elementos a um quinto: a Alma." É no 6.° Festival América do Sul, de 29 de abril a 3 de maio no Porto Geral de Corumbá.

terça-feira, abril 28, 2009

Fernando Pessoa lá fora

No Canadá, mais propriamente na cidade de Montreal, Fernando Pessoa é um dos poetas que empresta a sua poesia para a decoração de 12 novos bancos em granito na zona portuguesa da cidade.

Em Espanha, dia 29 de Abril, haverá uma homenagem a Pessoa nos "Miércoles de la Poesía", no Centro Cultural de la Villa (Teatro Fernán Gomez); com apoio do Instituto Camões.

Em Maio, será lançada uma grande antologia de poesia portuguesa chamada "Alma Mia Gentil", reunida por Carlos Clementson, professor de português na Universidade de Córdova, que incluirá também versos de Pessoa.

segunda-feira, abril 27, 2009

O Retrato de Pessoa, por Saramago

"Que retrato de si mesmo pintaria Fernando Pessoa se, em vez de poeta, tivesse sido pintor, e de retratos? Colocado de frente para o espelho, ou de meio perfil, obliquando o olhar a três quartos, como quem, de si mesmo escondido, se espreita, que rosto escolheria e por quanto tempo? O seu, diferente segundo as idades, assemelhando a cada uma das fotografias que dele conhecemos, ou também o das imagens não fixadas, sucessivas entre o nascimento e a morte, todas as tardes, noites e manhãs, começando no Largo de S. Carlos e acabando no Hospital de S. Luís? O de um Álvaro de Campos, engenheiro naval formado em Glasgow? O de Alberto Caeiro, sem profissão nem educação, morto de tuberculose na flor da idade? O de Ricardo Reis, médico expatriado de quem se perdeu o rasto, apesar de algumas notícias recentes obviamente apócrifas? O de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na baixa lisboeta? Ou um outro qualquer, o Guedes, o Mora, aqueles tantas vezes invocados, inúmeros, certos, prováveis e possíveis? Representar-se-ia de chapéu na cabeça? De perna traçada? De cigarro apertado entre os dedos? De óculos? De gabardina vestida ou sobre os ombros? Usaria um disfarce, por exemplo, apagando o bigode e descobrindo a pele subjacente, de súbito nua, de súbito fria? Cercar-se-ia de símbolos, de cifras da cabala, de signos horoscópicos, de gaivotas no Tejo, de cais de pedra, de corvos traduzidos do inglês, de cavalos azuis e jockeys amarelos, de premonitórios túmulos? Ou, ao contrário destas eloquências, ficaria sentado diante do cavalete, da tela branca, incapaz de levantar um braço para atacá-la ou dela se defender, à espera de um outro pintor que ali fosse tentar o impossível retrato? De quem? De qual?

De uma pessoa que se chamou Fernando Pessoa começa a ter justificação o que de Camões já se sabe. Dez mil figurações, desenhadas, pintadas, modeladas, esculpidas, acabaram por tornar invisível Luís Vaz, o que dele ainda permanece é o que sobra: uma pálpebra caída, uma barba, uma coroa de louros. É fácil de ver que Fernando Pessoa também vai a caminho da invisibilidade, e, tendo em conta a ocorrente multiplicação das suas imagens, provocada por apetites sobreexcitados de representação e facilitadas por um domínio generalizado das técnicas, o homem dos heterónimos, já voluntariamente confundido nas criaturas que produziu, entrará no negro absoluto em muito menos tempo que o outro de uma cara só, mas de vozes também não poucas. Acaso será esse, quem sabe, o perfeito destino dos poetas, perderem a substância de um contorno, de um olhar gasto, de um vinco na pele, e dissolverem-se no espaço, no tempo, sumidos entre as linhas do que conseguiram escrever, se do rosto sem feições nem limites ainda alguma coisa vem intrometer-se, está garantido o dia em que mesmo esse pouco será definitivamente lançado fora. O poeta não será mais que memória fundida nas memórias, para que um adolescente possa dizer-nos que tem em si todos os sonhos do mundo, como se ter sonhos e declará-lo fosse primeira invenção sua. Há razões para pensar que a língua é, toda ela, obra de poesia.

Entretanto, o pintor vai pintando o retrato de Fernando Pessoa. Está no princípio, não se sabe ainda que rosto escolheu, o que se pode ver é uma levíssima pincelada de verde, se calhar vai sair daqui um cão dessa cor para pôr em conjunção com um jockey amarelo e um cavalo azul, salvo se o verde for apenas o resultado físico e químico de estar o jockey em cima do cavalo, como é sua profissão e gosto. Mas a grande dúvida do pintor não tem que ver com as cores que há-de empregar, essa dificuldade resolveram-na os impressionistas de uma vez para sempre, só os homens antigos, os de antes, não sabiam que em cada cor as cores estão todas: a grande dúvida do pintor é se há-de ter uma atitude reverente ou irreverente, se pintará esta virgem como S. Lucas pintou a outra, de joelhos, ou se tratará este homem como um triste coitado que realmente foi ridículo a todas as criadas de hotel e escreveu cartas de amor ridículas, e se, assim autorizado pelo próprio, poderá rir-se dele pintando-o. A pincelada verde, por enquanto, é somente a perna do jockey amarelo posta do lado de cá do cavalo azul. Enquanto o maestro não sacudir a batuta, a música não romperá lânguida e triste, nem o homem da loja começará a sorrir entre as memórias da infância do pintor. Há uma espécie de ambiguidade inocente nesta perna verde, capaz de se transformar em verde cão. O pintor deixa-se conduzir pela associação de ideias, para ele, perna e cão tornaram-se em meros heterónimos de verde: coisas bem mais inacreditáveis do que esta têm sido possíveis, não há que admirar. Ninguém sabe o que se passa na cabeça do pintor enquanto pinta. O retrato está feito, vai juntar-se às dez mil representações que o precederam. É uma genuflexão devota, é uma risada de troça, tanto faz, cada uma destas cores, cada um destes traços, sobrepondo-se uns aos outros, aproximam o momento da invisibilidade, aquele negro absoluto que não reflectirá nenhuma luz, sequer a luz fulgurante do sol, que faria então à breve cintilação de um olhar, em frente a apagar-se tão cedo. Entre a reverência e a irreverência, num ponto indeterminável, estará, talvez, o homem que Fernando Pessoa foi. Talvez, porque também isso não é certo. Albert Camus não pensou duas vezes quando escreveu: “Se alguém quiser que o reconheçam, basta que diga quem é”. No geral dos casos, o mais longe a que chega quem a tal aventura ouse propor-se é dizer que nome lhe puseram no registo civil.

Fernando Pessoa, provavelmente, nem tanto. Já não lhe bastava ser ao mesmo tempo Caeiro e Reis, cumulativamente Campos e Soares. Agora que já não é poeta, mas pintor, e vai fazer o seu auto-retrato, que rosto pintará, com que nome assinará o quadro, no canto esquerdo dele, ou direito, porque toda a pintura é espelho, de quê, de quem, para quê? O braço levanta-se, enfim, a mão segura uma pequena haste de madeira, de longe diríamos que é um pincel, mas há motivos para suspeitar: nele não se transporta uma cor verde, ou azul, ou amarela, nenhuma cor se vê, nenhuma tinta. Este é o negro absoluto com que Fernando Pessoa, por suas próprias mãos, se tornará invisível.

Mas os pintores vão continuar pintando.
"

Publicado no Caderno de Saramago.

"Under Our Skin: North American Poetic Responses to Fernando Pessoa"

O Prof. Charles Cutler, Ph.D., Emeritus do Smith College (Northampton, Massachusetts) no Departamento de Espanhol e Português, planeia lançar uma antologia de poesia Norte Americana dedicada a "respostas poéticas" a Pessoa. O título provisório do livro é "Under Our Skin: North American Poetic Responses to Fernando Pessoa".

Retirámos esta notícia de uma "call for entries" publicada online aqui. O texto completo que foi colocado pelo Prof. Cutler é o seguinte:

"PESSOA ANTHOLOGY. Seeking submissions for an anthology of North American poetic responses to Fernando Pessoa. Tentative title of book: Under Our Skin: North American Poetic Responses to Fernando Pessoa. All correspondence to Charles Cutler (Emeritus, Smith College), 22 Savoy Rd., W. Hawley, MA 01339. E-mail: ccutler@email.smith.edu."

sábado, abril 25, 2009

Novos Filmes Pessoa

Com a colaboração de Richard Zenith, que recentemente publicou uma nova fotobiografia de Fernando Pessoa, e Joaquim Vieira (responsável pela mesma edição, na Círculo de Leitores), obtivemos imagens adicionais em alta resolução de Fernando Pessoa "em movimento" - as célebres séries de fotografias, tiradas em sequência e que apanharam Pessoa em diversas ocasiões a caminhar por Lisboa.

As novas animações podem ser visualizadas clicando nos links seguintes:

Pessoa a caminhar com Augusto Ferreira Gomes (agora com 5 frames, em vez dos 3 anteriores)

Pessoa a caminhar no Rossio

Nota: recomendamos a visualiazação no Quicktime Player da Apple, ou compatível. Estes ficheiros podem não ser correctamente visualizados no Media Player da Microsoft.


Dois pormenores interessantes, que observámos:

Nas fotos com Ferreira Gomes, Pessoa olha directamente para a câmara e pelo movimento ampliado pelos frames adicionais que agora acrescentámos nota-se ainda mais claramente a maneira peculiar de Pessoa andar, que foi descrita por alguns dos contemporâneos, e por quem o melhor conhecia, Ophélia que disse que ele "ao andar , parecia não pisar o chão"(*). O corpo, algo rígido e preso, contrasta com o de Ferreira Gomes, que parece mais expansivo nos movimentos. Pessoa, segundo os seus contemporâneos, tinha gestos nervosos e breves.

No Rossio, Pessoa caminha com um semblante mais triste - provavelmente o seu semblante normal quando solitário. Leva um jornal na mão e parece caminhar apressadamente, sem noção inicial que está a ser fotografado.

(*) «Fernando e Eu» in Cartas de Amor de Fernando Pessoa, Edições Ática, 1978.


Ps: novas versões destes filmes encontram-se visualizando este link.