Nuno Gama pretendeu dar um toque poético ao seu desfile na Moda Lisboa 2009. No início um espectador levantou-se e recitou Pessoa e todos os modelos de Gama eram versões modernizadas do poeta.
Um original tributo, não fora o poema escolhido:
"O desfile de Nuno Gama protagonizou o momento mais poético do último dia do ModaLisboa. Com a entrada do primeiro modelo na passerelle levantou-se um «espectador» na primeira fila e começou a declamar «Posso ter defeitos...», um poema de Fernando Pessoa.
(...)
Em entrevista ao «Moda e Social» Nuno Gama acabou por explicar que o poema lhe foi enviado, via mail, por um amigo num momento menos bom. E foi a partir da sua leitura que ganhou algum estímulo para criar a colecção apresentada hoje."

António Botto foi, de entre os poetas da sua geração, aquele que recebeu mais rasgados elogios por parte de Fernando Pessoa, tornando-se mesmo uma espécie de protegido dele. (Depois da morte de Pessoa, Botto escreve um dos poemas mais sentidos sobre o mestre: o poema de cinza).
Sobre Botto Pessoa escreve artigos, defende-o da censura e publica mesmo os seus livros nos momentos em que o próprio Pessoa teve uma editora. Não sabemos ao certo de onde viria esta admiração, mas sabemos que Botto, abertamente homosexual, provavelmente representaria na vida real o espírito aberto e sem tabus que Pessoa provavelmente apenas sonharia poder ser.
Que Botto se tinha tornado mais um heterónimo de Pessoa não é ideia minha. Foi Jorge de Sena que o disse. E é em Jorge de Sena que encontramos também algumas singelas ponderações sobre um possível envolvimento sentimental entre Pessoa e Botto. Cito as palavras de Sena em "Fernando Pessoa e Cª Heterónima", nota 12, págs. 359-60:
"Ao que se conta, Botto apenas teria, com meias palavras, e alguma vez, referido duas coisas acerca do Pessoa sexual: que ele olhava, notem, de certa maneira para os rapazinhos; e que o seu membro viril, muito pequenino, explicava a abstinência envergonhada dele (como é que ele sabia?)."
Sena diz, e isso é verdade, que Botto teria de ter visto Pessoa nú para saber estes pormenores embaraçosos. E quem sabe, talvez o tenha mesmo visto nú... e Pessoa tenha transposto a sua admiração para um nível de platónica protecção relativa a um Botto ameaçado pelo pudor da sociedade.
Sabemos através do próprio Pessoa que a sua abstinência teria também a ver com o facto de precisar de ser circuncidado. Sofreria muito provalvelmente de uma condição médica chamada fimose, em que a glande não consegue ser libertada, causando dores nas relações sexuais. Não sabemos se Pessoa alguma vez corrigiu esta situação, mas sabemos do seu diário que a sua viagem planeada a Inglaterra não teria sentido para ele, sem que tal ocorresse.
Botto junta-se, quanto a nós, a uma galeria de possíveis amores Pessoanos, que inclui ainda Ophélia, a misteriosa vizinha da Rua Coelho da Rocha, Hanni Jaeger, uma outra mulher casada (com um dos seus amigos) e quem sabe mesmo Sá-Carneiro (se bem que este puramente platónico).

A Revista Ler de Março traz consigo uma novidade que deve agradar a todos os pessoanos: seis inéditos de Pessoa, descobertos no espólio residual (junto da família do poeta) e apresentados por Richard Zenith, que os revelou. Pelo meio passa ainda a palavra a Manuela Nogueira sobre a polémica à volta do leilões do espólio.Mas a Ler vai um pouco mais além e aproveita a deixa dos inéditos para falar da história das edições do Livro do Desassossego, a propósito da edição recente da Relógio d'Agua, que já tivemos a ocasião de apreciar aqui.Por estas (e mais algumas razões), vale bem a pena gastar os €5 e comprar a Ler de Março.

Luís Filipe Cristovão usa a poesia para percorrer a história da literatura Portuguesa. Portanto, poemas para poetas, incluindo um para o próprio Pessoa. Apresentação no próximo dia 12 de Março, na Casa Fernando Pessoa, às 18h30.

Para comemorar os 120 anos do nascimento do poeta, a ACE/Teatro do Bolhão apresenta o espectáculo "Viajar Perde Países", dirigido por António Capelo e com a voz da actriz Romi Soares. Trata-se de um espectáculo com base nos textos leccionados nos anos 10.º, 11.º e 12.º anos, e que tem por objectivo permitir um mais fácil acesso aos estudantes a um universo pessoano muitas das vezes fechado e hermético.
É um espectáculo por isso pensado para pequenos públicos e estará em digressão entre Fevereiro e Dezembro de 2009 em qualquer parte do país em que for requisitado.
Pensado para uma rápida implantação técnica o espectáculo pode ser apresentado em espaços não convencionais, pequenos auditórios bibliotecas e salas polivalentes.
Ficha técnica:
"Viajar, Perder Países"
Encenação e Espaço Cénico: António Capelo
Interpretação: Romi Soares
Violoncelo: Sónia Amorim
Iluminação: José Nuno Lima
Figurinos: Cristina Costa
Produção Executiva: Gabriela Poças
Produção: Pedro Aparício
Notícia via blog do FITEI
A editora Relógio d'Água editou recentemente uma nova edição do Livro do Desassossego, a cargo da insígne pessoana Teresa Sobral Cunha (co-responsável pela edição original do Livro, em 1982 com Jacinto do Prado Coelho e Maria Aliete Galhoz).Trata-se de uma "continuação" de uma edição de 1997 que ficou interrompida em 2005 por uma questão legal de direitos de autor. Os herdeiros de Pessoa venderam os mesmos à Assírio & Alvim, que começou então a publicar as obras do poeta em regime de exclusividade (e tendo Richard Zenith como principal responsável). Em 1997 Teresa Sobral Cunha tinha editado um "Livro do Desassosego I", apenas com os textos atribuídos a Vicente Guedes, e estava planeado um "Livro do Desassossego II", com os textos de Bernardo Soares.Devo dizer que esse livro foi marcante na minha leitura de Pessoa. Da minha biblioteca é dos poucos livros que posso apelidar de verdadeira peça artística de literatura - vale não só pelo conteúdo mas pela beleza que transmite a sua cuidada edição. Ou seja, é daqueles livros que ao pegarmos nos transmite uma certa emoção que não conseguimos definir. Penso que Teresa Sobral Cunha conseguiu atingir o espírito do Livro de uma maneira que mais nenhuma outra edição conseguiu.
Durante alguns anos fiquei - como julgo que ficaram todos os que compraram o volume - à espera da segunda parte do mesmo. Mas o mesmo não apareceu pelas questões que já mencionámos. Apareceu a edição da Assirio, que de certa forma se transformou na "edição comum" da obra, a que circula agora com plena divulgação. O que, quanto a mim, é uma grande pena. Não pretendo diminuir o trabalho de Zenith, embora Teresa Sobral Cunha o ataque frontalmente por uma suposta falta de ética profissional ao aproveitar-se do trabalho anterior da autora sem sequer o citar. O que lamento profundamente é sobretudo a atitude actual da Assírio, que ameaçou a Relógio d'Água com um processo judicial se a mesma continuasse o seu projecto de 1997...Parece claro que a Assírio temia a valia desse mesmo projecto. E isso é comercialmente compreensível. Mas como obra de edição, o Livro da Assírio é bem mais pobre. O Livro de 1997 da Relógio d'Água, mesmo incompleto, surge como edição muito mais apetecível para um leitor avisado. Estas "peripécias", obrigaram Teresa Sobral Cunha a repensar a edição. Como não podia continuar o seu trabalho inicial, reuniu os 2 livros (de Vicente Guedes e Bernardo Soares), num só grande volume. O resultado? Infelizmente mais pobre do que o projecto inicial. Realmente o que marca a diferença entre as várias edições? Juntando a nossa opinião, valemo-nos agora também do texto publicado na Colóquio Letras, por Sidónio Paes para tentar elucidar esta questão:Zenith "joga", por assim dizer, um jogo subservivo - se bem que mais fácil - que é o de deixar ao leitor a organização do Livro. Zenith assume o caos fragmentário, e chega mesmo a desafiar o leitor a fazer o "cut & paste" que ele ache melhor. O Livro de Zenith lê-se como se leria um blog, ou até a Biblía: basta abrir numa página e noutra e noutra, cortar e colar, fazer a própria auto-edição.A facilidade extende-se à escolha de um autor único: Bernardo Soares. Esta era afinal a última intenção de Pessoa. No entanto ignora que Pessoa queria fazer isso só depois de editar todos os textos e fazer uma escolha dos mesmos - coisa que nunca fez. Zenith defende-se de maneira fraca dizendo que se Pessoa não fez é porque aceitou a autoria de todos os textos como sendo de Soares (algo que falta à verdade dos factos - que Pessoa morreu antes de editar a sua obra convenientemente). Teresa Sobral Cunha, por seu lado, faz um trabalho que divide e maximiza o que poderá ser o Livro, fugindo a uma versão simplificada do Livro, que parece ter sido a que o autor americano buscou (talvez mais próxima também à sua personalidade pragmática). Claro que são opções. Certo é que ambas as edições (a de 2008 da Relógio d'Água e a da Assírio) permanecem para públicos diferentes, embora sejam ambas acessíveis. A de Teresa Sobral Cunha pretende ser um cânone o mais completo possível, a de Zenith uma edição comum, de fácil acesso, sem complicações. Mas, por via da ameaça legal, Teresa Sobral Cunha, viu-se forçada de certa maneira a seguir a forma da edição da Assírio, o que - se bem que não prejudica o conteúdo - prejudica sobremaneira a leitura. O volume tornou-se demasiado vasto, demasiado único. Perdeu a singularidade e ganhou pormenores perniciosos: a qualidade do papel não é a mesma, as notas passaram do rodapé para o final do livro, etc... O intervalo 1997-2008 foi, vê-se agora, um "intervalo doloroso", que nada trouxe de positivo, a não ser claro a adição de muitos inéditos que agora vamos processando lentamente. O leitor ficou a perder, perdeu o volume II (quem sabe para sempre), e ficou a perder Pessoa.