sábado, janeiro 31, 2009

Uma crítica do "Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português"


É certamente difícil proceder a uma crítica de um trabalho tão extenso (+ de 950 páginas) e que é por definição uma mistura de talentos e esforços, muitas das vezes díspares.

Partimos assim para a nossa crítica tendo em atenção que esta obra é essencialmente uma obra de consulta. Assim sendo, para melhor a avaliarmos, decidimos principalmente aferir da sua utilidade enquanto obra de consulta, perante alguns exemplos práticos.

Como estou agora a preparar uma edição sobre Álvaro de Campos, usei esse heterónimo como ponto de partida. Primeiro pesquisando a entrada genérica para Campos encontramos um artigo de fôlego de uma especialista em Campos - Teresa Rita Lopes. No entanto Rita Lopes escusa-se a comentar outras opiniões.

Julgamos que neste primeiro ponto o Dicionário falha. Os artigos monodimensionais serão certamente o que baste para quem esteja apenas curioso sobre o tema, ou tenha estudado o mesmo supercialmente. Mas é pena que não se encontrem opiniões paralelas nos mesmos, à maneira do que encontramos por exemplo nos estudos realizados noutros campos que não o literário - lembramo-nos sobretudo dos comentários na área do Direito. Seria certamente útil achar a opinião de elementos da equipa Pessoa por exemplo, no que diz respeito a Campos e de outros que o tenham estudado. Assim ficamos apenas a uma única voz, o que é pena.

Se isto se nota em Campos - que de certo modo é o heterónimo mais polémico, mas não é aquele que acaba por levantar mais polémica, mais se sente por exemplo em relação a Bernardo Soares, por exemplo. Richard Zenith escreve a maior parte dos artigos dedicados ao tema do Livro do Desassossego e a José Blanco parece ser dado um papel conciliador, ao escrever um artigo sobre a história da edição do mesmo...

Não queremos dizer que Zenith não será qualificado, pelo contrário, mas seria essencial achar numa obra de consulta opiniões distintas, que simplesmente não aparecem, parecendo privilegiar-se o ego próprio à necessidade imperiosa de reunir a "doutrina" sobre determinado assunto de modo a evoluir realmente o state of the art sobre o mesmo.

Outra coisa que nos incomodou foi a autoria de certos artigos acabar por ser incompreensível. Alguns exemplos:

"Loucura" - escrito por Patrícia da Silva Cardoso (não é Jerónimo Pizarro a estudar o tema?)
"Esoterismo" - escrito por Pedro Teixeira da Mota (não é Yvette Centeno a especialista?)
"A Carta sobre a génese dos heterónimos" - escrito por Miguel Tamen continua a confusão do artigo "Caves e Andares nobres" escrito em 1999.

Outros artigos primam pela ausência:

"Dia Triunfal"
"Camões, Luís de"
"Sá-Carneiro, Mário de Sá - Influência em Pessoa"
"Maneiras de bem sonhar"
"Filosofia"

A alguns faltam pormenores ou mostram erros que se diriam básicos:

"Autopsicografia" não explica a possível origem do título do poema.
"Associações Secretas" não fala das possíveis intenções de Pessoa ao publicar o opúsculo.
"Cinema" ignora as "Court Metrages" publicadas por Patrick Quillier (e Eliezer Kamenezky).
"Gomes, Austo Ferreira" não fala das ligações ao SPN e a possível manipulação de Pessoa dentro do regime cultural do Estado Novo.
"Íbis" não explica o significado simbólico da ave (ser representativa de Tot no Egipto, deus do conhecimento e da escrita).
"Mensagem" não explica os significado do título do livro.
"Queen Victoria Memorial Prize" foi escrito para o acesso à Universidade do Cabo? Na realidade tal universidade não existia na cidade.
"Silva. Agostinho da" conheceu Pessoa? Seria interessante perceber finalmente (pensamos que sim).
"Viagem" diz explicitamente que Pessoa nunca saiu de Lisboa a não ser para ir para Durban. Leyla Perrone-Moisés esqueceu-se obviamente da viagem aos Açores (mencionada aliás no artigo "Casas") e a viagem ao Alentejo para compra dos equipamentos para a sua editora. Isto para além das múltiplas visitas a Cascais (ilustradas por fotos com os seus familiares e no testemunho da sua sobrinha Manuela Nogueira).

Mas outros apludem-se, pela profundidade, construção e/ou novidade:

"Astrologia", por Paulo Cardoso
"Álvaro de Campos", por Teresa Rita Lopes
"Escritórios", por João Rui de Sousa
Todos os micro-artigos dedicados às "pequenas personagens" de Pessoa
"Mediunidade", por Richard Zenith
"Monóculo" por Fernando Cabral Martins
"Fernando Pessoa - Obra", por Teresa Rita Lopes.
Os artigos de José Blanco, sempre extremamente informativos.
"Quadras", por Luísa Freire
"Whitman, Walt", por Irene Ramalho

Outro ponto muito positivo é a maneira como a arte modernista pontua o dicionário, aparecendo de maneira inteligente e formando a ligação entre as várias artes do período, com belíssimas reproduções a cores.

No geral o livro agradou-me bastante. E ainda nem sequer o comecei a utilizar realmente como ele pede para ser utilizado (e como o coordenador indica no prefácio, essa será realmente a sua grande utilidade). Mas apesar o esforço certamente hercúleo realizado nesta edição, não podemos deixar de esperar que ela melhore no futuro, sendo cada vez mais precisa e reunindo realmente a "doutrina Pessoana", sem excepções e deixando de lado ódios pessoais ou questões de ego.

Um aparte para uma polémica que se desenvolveu sobre o artigo "Sexualidade", entre a autora Fátima Inácio Gomes e o poeta Ademar Santos no seu blog abnoxio. Ao lermos o artigo tendemos a concordar que há alguma tendência ainda de entender a sexualidade em Pessoa em termos do "horror ao sexo" celebrizado pelo famoso artigo de Yvette Centeno na Colóquio Letras, pelo menos no vício da enunciação dessa expressão agora quase demonizada. Mas a autora vai além do óbvio e sabe analisar que a visão modernista do sexo é também ela "moderna". E indica que Pessoa, mais que horror, soube subliminar-se além dos sexos (a reacção da autora, nos comentários que deixou com bom humor no dito blog, ressalta isso mesmo).

O livro pode ser adquirido online, neste link.
Agradecimentos à Caminho pelo envio de um exemplar para análise no blog.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Mais Pessoa no Second Life



A actividade em torno de Pessoa no Second Life parece estar em alta. Reportamos agora mais uma exposição, desta vez no barco virtual Vasco da Gama.
Acesso por este SLurl:
http://slurl.com/secondlife/Portugal%20center%201/113/226/21
Via For Us All

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Fernando Pessoa na cara da moeda comemorativa da Língua Portuguesa



Em Abril, a Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM) vai lançar uma nova moeda comemorativa da língua portuguesa, a integrar a sua colecção "Património Cultural da Europa". Será uma moeda com valor facial de 2,5 euros, com a cara da moeda pertencendo a Fernando Pessoa e o verso a Luís de Camões. Esta moeda foi aprovada pela Resolução do Conselho de Ministros nº 191/2008, publicado no Diário da República I série nº 231 de 27.11.2008.

A autoria é do escultor José Simão que justificou assim a sua escolha de figuras: “na concepção desta moeda, foram escolhidos como símbolos da língua portuguesa os poetas Luís de Camões e Fernando Pessoa, que contribuíram com a sua obra, de forma ímpar, para a difusão da língua e da cultura portuguesas, enriquecendo o património cultural da Europa e do Mundo”.

A edição será limitada a 418.750 euros, sendo a INCM autorizada a cunhar até 15 mil moedas em prata e 2.500 moedas em ouro. Detalhes oficiais neste PDF.

Mais pormenores, no excelente artigo online dedicado à nova moeda pelo jornal regional "A Reconquista" (que inclui inclusivé uma reportagem em vídeo).

Notícia via O Ribatejo