Os herdeiros de Fernando Pessoa, Manuela Nogueira e Miguel Rosa, fizeram circular há coisa de uma semana uma "carta aberta", em que - entre outras coisas - acusavam uma equipa de investigadores pessoanos de afirmações difamatórias.
Hoje os investigadores reagem à mesma no jornal Público. Publicamos aqui a carta-resposta na íntegra:
Estrangeiro aqui como em toda a parte
Álvaro de Campos
Lemos com perplexidade uma carta recente, cujos motivos subjacentes desconhecemos, dos sobrinhos-herdeiros de F. Pessoa.
1. O assunto da carta é “esclarecimento”. Se a família de F. Pessoa realmente não quer desviar as atenções dos assuntos essenciais, deveria esclarecer a opinião pública acerca do futuro dos livros e dos papéis que ainda estão na sua posse; e não sugerir que uns “estrangeiros” (apelativo repetidamente referido), que também seriam “arrivistas”, difamaram a família de um dos escritores que mais admiram e ao qual têm dedicado tempo, carinho e trabalho. Assim, o suposto difamado corre o risco de se tornar—com uma facilidade espantosa—num difamador.
2. Também nós celebramos que felizmente haja “muitos estrangeiros dignos de todo o respeito a viver no nosso país”. Leia-se Portugal, país onde nós vivemos e que sentimos como nosso, tanto que por este sentimento ainda cá estamos e gostamos de estar. De resto, os nossos trabalhos falam e continuarão a falar por nós e por si mesmos. Nunca foi nosso objectivo ajudar a “vender jornais”, mas sim possibilitar a divulgação completa da obra pessoana dentro e fora de Portugal.
3. Neste sentido, a carta referida ameaça prejudicar o trabalho que tem vindo a ser realizado no âmbito da edição e o estudo da obra de F. Pessoa, com base em falsidades e incorrecções:
–“Pizarro buscava material para as suas investigações pessoais e para o grupo da Edição Crítica, ao qual estava ligado.” Não: foi a proximidade do leilão de Dezembro de 2007 que motivou essa intervenção, que consistiu na digitalização, feita a título gratuito e através de imagens de alta qualidade, de mais de 2000 documentos cuja imagem importava salvaguardar antes de serem dispersados; de resto, o visado solicitou autorização da família para disponibilizar online esses documentos, no que não foi atendido.
-“Ferrari tinha como alvo a sua tese sobre 'A Biblioteca de Fernando Pessoa’”. Não: o visado nunca fez nem tem intenções de escrever tal tese, mas sim escreveu um artigo na revista Portuguese Studies, 24, 2, que deu visibilidade à existência de mais de 10 por cento da totalidade dos livros de F. Pessoa, ainda na posse da família.
–“Do espólio saiu praticamente a totalidade da obra do poeta”. Isto não é exacto. Ainda estamos longe de conhecer a totalidade dessa obra, pois o espólio de F. Pessoa não é apenas a parcela que hoje é pública na Biblioteca Nacional e na Casa Fernando Pessoa: é a totalidade dos seus livros e papéis. Isto quer dizer que para conhecer “a obra do poeta” é indispensável estudar e editar o material ainda conservado pela família.
–“A digitalização ter sido feita já não era agora essencial para os estrangeiros. Tinham dado apenas um DVD à família, apesar de instados para darem a totalidade, como prometido. Veio também a saber-se que não tinham fornecido à B.N., como combinado, os DVD.” A verdade é que a família de Pessoa recebeu cópia integral do material digitalizado, de que não foi pedido recibo, devido às boas relações existentes. Em finais de 2007, a família não autorizou que uma cópia integral fosse dada à BN. Mais recentemente, autorizou que essa cópia fosse entregue ao Ministro da Cultura, o que aconteceu.
–“A família vendeu o que foi objecto de um contrato e não tudo que, na altura, a irmã do poeta pudesse possuir relativo ao irmão”. A verdade é que uma parte importante (cerca de 10 por cento) do espólio do escritor foi eximida, por razão que se desconhece, ao arrolamento decidido em 1969 pelo governo português, medida de protecção de bens culturais que nunca prescreveu e continua em vigor pela presente lei. A família não terá franqueado às autoridades o acesso à totalidade do espólio de F. Pessoa para efeito de aplicação da medida legal de arrolamento e também não nos cedeu uma parte da biblioteca de Pessoa para digitalização.
4. A carta completa dos sobrinhos-herdeiros e a resposta a declarações anteriores encontram-se no blogue umfernandopessoa.blogspot.com.
Esperamos que os livros e os papéis de F. Pessoa recebam um tratamento digno e que não voltemos a ser objecto de acusações injustas.
Inês Pedrosa, por sua vez, também reage às afirmações de Manuela Nogueira, aqui.
A Leiloeira P4 Photography anunciou também, no mesmo jornal, que pretende levar o Estado a tribunal pela "ingerência" no Leilão Pessoa do passado dia 13 de Novembro de 2008.
Hoje os investigadores reagem à mesma no jornal Público. Publicamos aqui a carta-resposta na íntegra:
Estrangeiro aqui como em toda a parte
Álvaro de Campos
Lemos com perplexidade uma carta recente, cujos motivos subjacentes desconhecemos, dos sobrinhos-herdeiros de F. Pessoa.
1. O assunto da carta é “esclarecimento”. Se a família de F. Pessoa realmente não quer desviar as atenções dos assuntos essenciais, deveria esclarecer a opinião pública acerca do futuro dos livros e dos papéis que ainda estão na sua posse; e não sugerir que uns “estrangeiros” (apelativo repetidamente referido), que também seriam “arrivistas”, difamaram a família de um dos escritores que mais admiram e ao qual têm dedicado tempo, carinho e trabalho. Assim, o suposto difamado corre o risco de se tornar—com uma facilidade espantosa—num difamador.
2. Também nós celebramos que felizmente haja “muitos estrangeiros dignos de todo o respeito a viver no nosso país”. Leia-se Portugal, país onde nós vivemos e que sentimos como nosso, tanto que por este sentimento ainda cá estamos e gostamos de estar. De resto, os nossos trabalhos falam e continuarão a falar por nós e por si mesmos. Nunca foi nosso objectivo ajudar a “vender jornais”, mas sim possibilitar a divulgação completa da obra pessoana dentro e fora de Portugal.
3. Neste sentido, a carta referida ameaça prejudicar o trabalho que tem vindo a ser realizado no âmbito da edição e o estudo da obra de F. Pessoa, com base em falsidades e incorrecções:
–“Pizarro buscava material para as suas investigações pessoais e para o grupo da Edição Crítica, ao qual estava ligado.” Não: foi a proximidade do leilão de Dezembro de 2007 que motivou essa intervenção, que consistiu na digitalização, feita a título gratuito e através de imagens de alta qualidade, de mais de 2000 documentos cuja imagem importava salvaguardar antes de serem dispersados; de resto, o visado solicitou autorização da família para disponibilizar online esses documentos, no que não foi atendido.
-“Ferrari tinha como alvo a sua tese sobre 'A Biblioteca de Fernando Pessoa’”. Não: o visado nunca fez nem tem intenções de escrever tal tese, mas sim escreveu um artigo na revista Portuguese Studies, 24, 2, que deu visibilidade à existência de mais de 10 por cento da totalidade dos livros de F. Pessoa, ainda na posse da família.
–“Do espólio saiu praticamente a totalidade da obra do poeta”. Isto não é exacto. Ainda estamos longe de conhecer a totalidade dessa obra, pois o espólio de F. Pessoa não é apenas a parcela que hoje é pública na Biblioteca Nacional e na Casa Fernando Pessoa: é a totalidade dos seus livros e papéis. Isto quer dizer que para conhecer “a obra do poeta” é indispensável estudar e editar o material ainda conservado pela família.
–“A digitalização ter sido feita já não era agora essencial para os estrangeiros. Tinham dado apenas um DVD à família, apesar de instados para darem a totalidade, como prometido. Veio também a saber-se que não tinham fornecido à B.N., como combinado, os DVD.” A verdade é que a família de Pessoa recebeu cópia integral do material digitalizado, de que não foi pedido recibo, devido às boas relações existentes. Em finais de 2007, a família não autorizou que uma cópia integral fosse dada à BN. Mais recentemente, autorizou que essa cópia fosse entregue ao Ministro da Cultura, o que aconteceu.
–“A família vendeu o que foi objecto de um contrato e não tudo que, na altura, a irmã do poeta pudesse possuir relativo ao irmão”. A verdade é que uma parte importante (cerca de 10 por cento) do espólio do escritor foi eximida, por razão que se desconhece, ao arrolamento decidido em 1969 pelo governo português, medida de protecção de bens culturais que nunca prescreveu e continua em vigor pela presente lei. A família não terá franqueado às autoridades o acesso à totalidade do espólio de F. Pessoa para efeito de aplicação da medida legal de arrolamento e também não nos cedeu uma parte da biblioteca de Pessoa para digitalização.
4. A carta completa dos sobrinhos-herdeiros e a resposta a declarações anteriores encontram-se no blogue umfernandopessoa.blogspot.com.
Esperamos que os livros e os papéis de F. Pessoa recebam um tratamento digno e que não voltemos a ser objecto de acusações injustas.
Inês Pedrosa, por sua vez, também reage às afirmações de Manuela Nogueira, aqui.
A Leiloeira P4 Photography anunciou também, no mesmo jornal, que pretende levar o Estado a tribunal pela "ingerência" no Leilão Pessoa do passado dia 13 de Novembro de 2008.



