segunda-feira, janeiro 14, 2013

"Considerações sobre a presença do elemento arábico-islâmico no sensacionismo e no neo-paganismo de Fernando Pessoa" - Uma Apreciação Crítica












Fabrizio Boscaglia, que tivemos o prazer de entrevistar aqui, está a "inaugurar" um novo campo de pesquisa em Fernando Pessoa que, só pela novidade, merece ser mencionado. Mas não devemos apenas mencionar a novidade - o facto é que o trabalho de Boscaglia ganhará renovada importância por se enquadrar no mais vasto espectro da análise filosófica Pessoana, uma área de investigação em claro crescimento.

"Considerações sobre a presença do elemento arábico-islâmico no sensacionismo e no neo-paganismo de Fernando Pessoa" é um pequeno opúculo - tem 50 páginas - mas representa um trabalho de grande interesse e inesperada profundidade.Por duas razões. Primeiro porque, a meu ver, revela um insight, que não é muito explorado e que poderá estar na base de muitas teorias Pessoanas que à primeira vista parecem um pouco descabidas - falo das teorias da separação de Portugal da Europa enquanto raíz e fonte de civilização (certamente que todos ou quase todos os que leram Pessoa e o viram a indicar Portugal enquanto país decisivo para o renascimento espiritual do mundo moderno sempre o encararam de maneira menos séria); segundo porque é um estudo filosófico que não ignora António Mora (provavelmente o mais ignorado da galeria de personagens Pessoanas, comparativamente à sua importância da obra de Pessoa).

O opúsculo inicia-se com uma introdução ao tema, que é um pouco complexo. O autor faz - e bem - o necessário enquadramento histórico-social. Compreendemos lentamente que de facto Pessoa colocou a influência arábico-islâmica como um factor de grande importância, tanto no ressurgimento da civilização europeia como na sua decadência posterior. Foram o mundo do Islão que, guardando a herança Grega (Grega e não Romana), revitaliza a Europa caída na Idade das Trevas para o Renascimento e é esse mesmo elemento árabe-islâmico que, depois de expulso da Europa, a condena à decadência posterior. 

Ora, todas as crianças na escola aprendem estes factos. Mas Pessoa enquadra-os - indica Boscaglia - de maneira particular. A saída dos árabes significou sobretudo a saída do elemento mais leve da sua influência, o conteúdo Grego. Ficou o elemento mais pesado, o fatalismo. Ora, o Sensacionismo (diz Mora) é árabe, ou seja, é Grego. Inclui o sonho e a imaginação, a liberdade de pensar. E o poeta mais imaginativo - Campos - vem de Tavira, do Algarve mouro. As ideias de universalidade e de síntese, tão comuns em Pessoa apesar da sua aparente e enganadora dispersão, também teriam aqui a sua génese, ou pelo menos seriam muito influenciadas por este elemento fundador. Também no neo-paganismo de Caeiro está essa influência de um regresso aos clássicos, à base civilizacional (uma redução que diríamos também alquímica, um queimar de tudo para o início branco). 

Se me pedissem uma palavra para definir este opúsculo de Boscaglia eu diria: provocador (no sentido de thought provoking). Boscaglia podia ter-se resumido a falar de Omar Khayyām e dos Rubayat de Pessoa, mas felizmente vai muito mais longe e é muito mais corajoso na sua escrita. Este tipo de estudos é também ele fundador porque aposta numa visão de Pessoa muito mais séria e enquadrada num objectivo final de análise de Pessoa enquanto pensador (e não enquanto poeta delirante). Sabemos que o autor prepara um estudo de muito maior fôlego e apenas podemos desejar que este seja publicado dentro em breve e que ajude definitivamente a transformar Pessoa, de um poeta-pensador num pensador-poeta. 

Agradecemos a Fabrizio Boscaglia a entrega de um exemplar para análise.