quarta-feira, dezembro 19, 2012

"Pessoa Existe?" - Uma Apreciação Crítica











Jerónimo Pizarro é um dos mais prolíficos Pessoanos à data, com diversas edições de monta - destaca-se entre elas a edição crítica do Livro do Desassossego, por exemplo - bem como com estudos espalhados pelas mais diversas publicações científicas. Não é por isso de estranhar que agora ele tenha decidido agregar alguns desses estudos num volume único, dando assim acesso mais localizado à visão do "seu Pessoa".

Parece inegável que, face à dificuldade aparente em fixar Pessoa em seja qual for a classificação, a proposta/desafio colocada pelo título deste volume nos seja por demais familiar. Os estudos de Pizarro, porém, terão na sua raiz unificadora uma missão de descoberta pessoal de um Pessoa que ainda não tinha sido descoberto antes? Lembramos que Pizarro, na entrevista que nos deu em 2010, recordava que não lhe fascinava propriamente o fenómeno heteronímico - segundo ele isso identificaria Pessoa erroneamente com um certo desequilíbrio que de facto não o afectaria, face à sua extrema lucidez.

E é precisamente pela lucidez que se inicia a descoberta da existência de Pessoa, para Pizarro. Os três primeiros ensaios do livro tocam precisamente, embora em degradeé de intensidade decrescente, o tema do génio e da loucura. Nenhum dos três textos é inédito, mas servem de óptima introdução ao tema. Pareceu-me que o propósito de Pizarro foi o de um simples esclarecimento - o que está na base da obra não será uma deturpação da personalidade em busca de um processo caótico de escrita, mas antes uma descoberta incremental, já ela própria necessariamente limpa do ónus da insanidade (que navegava abertamente na árvore familiar).

Não é por acaso que o quarto ensaio, inédito, é sobre o confronto entre obras ortónimas e heterónimas. Estará Pizarro no centro de uma reavaliação do termo "heteronímia"? Sem dúvida. O seu objectivo é dar a entender a obra (e consequentemente o autor) enquanto elemento positivo e interventivo, lúcido, e por isso mesmo decisor. Não há, neste volume, espaço para uma teoria literária baseada em interpretações psicológicas - simplesmente porque a definição de Pessoa enquanto autor é defendida como elemento suficiente para esse mesmo entendimento. Pizarro defende - e com bases objectivas - que a produção literária de Pessoa, pelo menos até 1928, não é feita tendo por óbvia a distinção entre ortónimo e heterónimo, tanto que muitos dos textos nem eram assinados. Só mais tarde este projecto aparecerá de forma concreta - talvez como mera forma de organização da obra e, possivelmente, esclarecendo que Fernando Pessoa era o verdadeiro autor das suas próprias personagens.

Os ensaios cinco, seis, sete e oito tocam algumas relações de Pessoa com outros autores; nomeadamente Borges, Marinetti, Khayyam e autores anglófonos (sobretudo durante a juventude na África do Sul). Estes artigos quebram um pouco a continuidade do tema geral do volume, mas talvez propositadamente, inserindo um elemento puro de literatura que se substitui às raízes psicológicas, expurgadas no início do mesmo. Certo é que Pizarro está mais à vontade quando precisamente aprofunda os temas literários - outra coisa não seria de esperar face ao seu currículo - e estes ensaios "intermédios" não deixam de ser de grande interesse. Agora, o interesse dos mesmos para a teoria de Pizarro em relação à existência de Pessoa, é "meramente" simbólico, embora simultaneamente essencial.

O nono ensaio, intitulado precisamente "Pessoa existe?" retoma o discurso quando o autor escreve: "Esta é uma pergunta algo intempestiva, mas tentarei, neste contexto, justificá-la, não a nível metafísico, mas a nível textual". O "jogo" de Pizarro, caso estivesse escondido até agora, torna-se claro. A existência de Pessoa e a questão maior da autoria e do autor, serão discutidas (e fixadas) em termos objectivos e não especulativos. Esta é também, afinal, a característica mais evidente da escrita de Pizarro, extremamente lúcida e muito pouco especulativa; ligada sempre à leitura dos originais e firmemente segura à filologia. A ilusória fixação do autor parece impossível, tanto que "Pessoa" é feito de fragmentos. Pizarro diz que se "pessoa" existe, "Pessoa" já não. Pizarro acaba por defender que Pessoa deve existir tal como é, fragmentário, e as suas obras apresentadas também tal como são - sem que o editor se sobreponha ao autor.

Esta fragmentação é - entenda-se - temática. Neste sentido seria possível editar "Pessoas" diferentes: o político, o economista, o filósofo, etc...

O décimo ensaio é dedicado à vertente Sebastianista. Os ensaios finais (até ao décimo quinto) abordam questões ligadas à edição, levando mesmo ao pormenor da leitura de originais. Coerente com o início do livro (e com o seu meio), Pizarro leva-nos para um entendimento de Pessoa lido, ou seja, uma identidade (e autoria) que nasce do original, que surge da obra nas suas diferentes dimensões e não ao contrário; sem permitir portanto grandes veleidades interpretativas que não sejam de origem filológica. Separando-se da discussão sobre a heteronímia enquanto base do fenómeno Pessoano, Pizarro marca a diferença.

Mas será que o volume marca, por ele mesmo, a diferença? Miguel Real, no longo prefácio, pensa que sim, dando-lhe inclusive grande importância para o futuro dos estudos Pessoanos. Não nos cabe o papel de dizermos se Miguel Real está certo ou não. A única coisa que eu me atreveria a dizer é que Jerónimo Pizarro concorre certamente para estabelecer a teoria interpretativa moderna de Pessoa. Está nesse papel devido ao que fez e continua a fazer no domínio da edição de Pessoa. Ora, isto pode ter tanto de positivo como de negativo e não tem directamente a ver com o facto da teoria (e/ou metodologia de Pizarro) estar correcta ou não. De certo modo o livro de Pizarro é anunciado como sendo um combate ao "mito" Pessoa. No final de o lermos admiramos o rigor e a precisão, mas fica-nos a faltar o que de impreciso esse mito invoca e possui. Talvez houvesse outra forma de o desmascarar sem o tornar tão banal.

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