segunda-feira, outubro 08, 2012

"Teoria da Heteronímia" - Uma Apreciação Crítica












"Teoria da Heteronímia" é o mais recente volume publicado pela Assírio e Alvim sobre Fernando Pessoa. Trata-se de uma edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, que reúne textos importantes sobre o tema da heteronomía mas que, de maneira mais vasta, leva a discussão para o campo da importância de se fixar o conceito de autoria em Pessoa.  

O número de heterónimos que Fernando Pessoa criou é tema de polémica actualíssimo, sobretudo depois da recente biografia de José Paulo Cavalcanti, em que o autor citou 127 identidades. Antes o número era bastante mais baixo, em redor das 70 a 80. Mas, como bem tem sido indicado, tudo dependerá do critério a utilizar para identificação destas mesmas "personagens". A edição que analisamos agora chegou a um outro número, diferente dos anteriores - 106.

Mas antes de analisarmos o número, devemos referir o prefácio que precede essa lista. Trata-se de um estudo muito bem conseguido em que se procede a uma clarificação do termo "heteronímia" e em que ponto esse termo pode ser aplicado ou não a todas as criações literárias de Pessoa. Penso haver aqui um grande peso de Zenith neste prefácio, porque ele é típico dos seus estudos - claro e sintético. Cabral Martins intervém claramente numa perspectiva mais académica, de enquadramento histórico-literário. É muito interessante observar a posição defendida pelos co-editores (e que é também a nossa) - que postula que Fernando Pessoa lutava em termos de autoria com as próprias personagens que ia criando, pensando no final da sua vida colocar toda a obra sobre a sua própria autoria ortónima.  

Quanto ao número de heterónimos/personagens, não nos cabe propriamente pronunciar sobre a sua correcta enumeração - que depende de variados factores, nomeadamente análise dos espólios Pessoanos usando um determinado critério, que é necessariamente subjectivo. Mas tendo a concordar que teremos de limitar estas personagens áquelas que realmente têm uma obra (por muito reduzida que seja), e não meramente serem consideradas enquanto tal por aparecer um mero ensaio de assinatura, por exemplo. Neste aspecto a lista elaborada pareceu-me razoável e bem construída. Além do mais, a sua elaboração cronológica ajuda a perceber a própria evolução da obra heteronímica de Pessoa, o que é útil a todos os que o estudam a um menor ou maior grau. 

Julgo que fazia falta uma obra deste género que, embora muito específica, chega para esclarecer um pormenor de grande importância nos estudos Pessoanos. Dará também espaço para que outras se sigam neste curso - lembramo-nos particularmente de um livro que sairá brevemente, de Jerónimo Pizarro, que versará precisamente sobre o tema da autoria em Pessoa. Teremos curiosidade em confrontá-lo com as visões da presente edição. 

Este volume já pode ser adquirido aqui

Um agradecimento à Porto Editora/Assírio e Alvim pelo envio de um exemplar para análise.