segunda-feira, outubro 29, 2012

"Fernando Pessoa e Espanha" - Uma Apreciação Crítica











"Fernando Pessoa e Espanha", de Antonio Sáez Delgado, é a primeira tentativa de maior fôlego que tenta estabelecer os contactos e ligações efectivas existentes entre a vida e obra de Pessoa com o nosso país vizinho. 

Já se conheciam alguns pormenores vindos de outros estudos, biográficos ou não, e que colocavam esta ligações em níveis bastantes ténues, realçando sobretudo o que Pessoa escreveu sobre a "questão Ibérica" e não tanto sobre a maneira como ele se relacionou directa ou indirectamente com outros escritores e/ou poetas Espanhóis. É neste aspecto que este volume mais nos vai auxiliar. 

Devo dizer que à partida esperava que se pudesse encontrar aqui também tratado o tema da "questão Ibérica" - ou seja, a opinião de Pessoa sobre a integração Ibérica e da relação geo-estratégica com Espanha e com a Europa em geral. Mas, com a excepção de algumas páginas, este tema não é estudado com a necessária profundidade, o que não deixa de ser estranho, sobretudo visto o título do livro. Não se percebe muito bem como a questão do contacto com Espanha possa ser tratada sem se tocar neste tema.

Quem procure portanto saber mais sobre a "questão Ibérica" não achará aqui nada de novo, pelo contrário. O livro dedica-se sobretudo a revelar mais pormenores sobre a relação de Pessoa com alguns poetas Espanhóis, sobretudo Adriano del Valle. Este poeta conheceu Pessoa em Lisboa e mais tarde foi-se "lembrando" progressivamente da sua amizade e "colaboração" com ele. Colocámos entre aspas ambas as palavras porque é notório que del Valle não teve uma amizade profunda com Pessoa e que mentiu sobre muito do que fez ou deixou de fazer com o poeta Português (exemplo óbvio das traduções para Castelhano dos poema de Sá-Carneiro que nunca chegaram a aparecer no espólio do Espanhol).

Delgado, no entanto, parece ignorar de certa forma a memória selectiva de del Valle, preferindo focar-se em estabelecer relações a um nível intectual, mais distante de passageiras (e mais materiais) invejas ou interesses. Neste aspecto a sua escrita é rigorosa e detalhada, mas menos precisa pela falta que indicámos atrás. 

A relação de Pessoa com Espanha parece, no fim de lermos o livro, fraca e inconsequente. Houve um esforço de Pessoa tentar internacionalizar "Orpheu" e de contactar alguns poetas em Espanha, mas nada de singularmente importante. Na mesma altura que o futurismo chegava a Portugal, pouco depois ele chegaria a Espanha, mas não houve concordância ou colaborações de monta entre os dois países no âmbito desta revolução nas letras. Além do mais, em que medida é que Pessoa, que não era realmente futurista, poderia ter algum papel nessa mesma colaboração?

Um agradecimento à editora Licorne pelo envio de um exemplar para análise.