terça-feira, julho 10, 2012

"Prosa de Álvaro de Campos" - Uma Apreciação Crítica









Lançado recentemente, "Prosa de Álvaro de Campos" pretende redefinir Álvaro de Campos como grande prosador, ao lado daquele que até agora tem sido visto como a maior figura prosadora no universo Pessoano - Bernardo Soares (o autor, embora tardio, do Livro do Desassossego).

Temos mais uma vez de dar os parabéns à equipa da Ática, que, evitando as edições fáceis - seria bem simples retomar edições anteriores e dar-lhes poucos retoques - está seriamente empenhada em redescobrir a Arca, publicar inéditos e até reformular já antigas concepções da obra de Pessoa. Certamente que muito desta atitude e energia está ligada à juventude desta equipa liderada por Jerónimo Pizarro.

É uma juventude que, embora esteja a trazer grandes frutos, também origina por vezes alguns precalços. Desde logo parece-me exagerado equiparar esta edição à edição original do Livro do Desassossego. Há claramente uma diferença entre ambas e essa diferença tem a ver com a própria natureza dos "livros-Pessoas" que as escreveram. A Campos, embora grande prosador, falta a anemia permanente e dialéctica de Soares. O mínimo raio de acção é estranho a Soares enquanto que em Campos é a acção que transforma ao longo da sua vida e faz dele o homem que ele acaba por ser - um diluído e um decepcionado. Soares já nasceu decepcionado e o seu livro não poderia equiparar-se a qualquer outro de Pessoa, pelo menos enquanto prosa pura.   

A edição, de Pizarro e António Cardiello, que conta com a colaboração de Jorge Uribe, divide os textos em prosa de Campos entre éditos e inéditos. São cerca de 40 os textos inéditos, que variam de tamanho, desde apenas uma frase a várias páginas. 

O livro inicia-se com textos não publicados em vida, muitos deles reflectindo várias dimensões da polémica entre Reis e Campos, dentro da "discussão em família". Trata-se de um aspecto pouco abordado pelos especialistas - ou abordado superficialmente - que Pessoa pretendia desenvolver a interacção entre os heterónimos, colocando-os em discussão entre si, levantando assim a validade de pontos de vista aparentemente opostos. A polémica em Pessoa, como se vê, não era só externa, mas era sobretudo interna...

Segue-se uma entrevista que Pessoa preparou a Campos. A meio do livro aparece o que julgo seja uma parte que devia ser mais destacada e que tem que ver com a tentativa de "recombinação" do texto paradigmático de Campos - "Notas para a recordação do meu Mestre Caeiro", da responsabilidade de Jorge Uribe. Pena é que, no prefácio, Uribe não nos explique melhor a lógica desta "recombinação" ou "reorganização" face sobretudo a edições anteriores. 

Segue-se a obra publicada em vida, a correspondência, uma secção dedicada a "outros textos" e uma secção final dedicada a projectos. O volume termina com o aparato genético. 

Esta edição, como a esmagadora maioria das edições da Nova Série dedicada a Pessoa refresca o panorama de edições Pessoanas e é de louvar, ampliando e focando o nosso conhecimento actual de Álvaro de Campos. No entanto devo reforçar que me custa muito ver Campos essencialmente como prosador. Para mim há muito maior vitalidade e riqueza na sua prosa poética e nos seus poemas do que propriamente nesta prosa solta, muito à base de apontamentos, em que escapam apenas alguns textos paradigmáticos como as "Notas", o "Ultimatum" ou os "Apontamentos para uma estética não-Aristotélica". Será descabido a meu ver comparar a grandeza de uma prosa mais coerente, embora dispersa, do Livro do Desassossego, com a prosa pura de Campos.  

Como nos lembram os editores no prefácio Campos foi o heterónimo que mais "durou" durante a vida de Pessoa, quando Reis foi exilado e Caeiro morto. Mas por essa mesma razão, Campos é a sua própria vida e limitarmo-nos a potenciar a importância da sua prosa - iminentemente (mas não só) interventiva - é limitar a sua própria importância dentro da mais vasta obra Pessoana.

Este volume pode já ser adquirido aqui

Agradecimentos à Editora Babel pelo envio de um exemplar para análise.