quarta-feira, julho 11, 2012

"Histórias de um raciocinador" - Uma Apreciação Crítica









"Histórias de um raciocinador" é a mais recente edição da Assírio & Alvim dedicada às novelas policiárias de Fernando Pessoa. Depois de Ana Maria Freitas ter editado em 2008 o volume "Quaresma, Decifrador", que reunia novelas policiárias tardias  e escritas em Português, agora apresenta-nos uma espécie de colectânea de "proto-novelas", escritas em Inglês entre 1906 e 1907. 

Sabemos que Fernando Pessoa teve, desde muito cedo, uma grande paixão pelo género, tendo começado a inventar charadas tão cedo quanto 1901, na viagem de férias da família a Portugal. Já antes lia Edgar Alan Poe, que tanto o influenciou.  

O gosto pelo mistério e pela aventura misturaram-se à sua inteligência e deram origem a diversas personagens interessantes, das quais se destaca William Byng. Uma espécie de Quaresma em formação, também já morto e ex-sargento (Quaresma era "médico sem clínica"). Ambos os personagens partilhavam outras importantes características: eram alcoólicos e possuiam uma grande incapacidade para viver uma vida normal. É evidente que há, em ambos, muito de Pessoa, que, mesmo já na tenra idade de 18 anos, se sentia um verdadeiro inadaptado, estrangeiro em Durban e estrangeiro mais tarde em Lisboa. 

É curioso ler estes textos e, ao mesmo tempo, ir lendo os diários de 1906/7 de Pessoa. Um exemplo pode ser a elaboração da novela "The Stolen Document" que sabemos ter sido começada entre os dias 13 e 17 de Abril de 1906. Claramente esta era uma época de grande agitação mental para ele, e a sua escrita mostra isso mesmo. 

Esta edição traz, em resumo, o grande interesse de compreender a evolução da obra policial de Fernando Pessoa, entre 1906/7 e 1914/14, alturas que marcam, respectivamente, o aparecimento de Byng e de Quaresma. As duas edições, lado a lado, permitem-nos agora estabelecer um fio condutor neste tipo de literatura em Pessoa. Continuo a acreditar que as novelas, enquanto obras policiais, são sofríveis e muito abaixo do resto da qualidade da obra de Pessoa, mas, como indicava Ana Maria Freitas na altura da apresentação desta obra, é possível retirar delas frases, pensamentos e expressões tipicamente Pessoanas e, se fosse só por isso, já poderiam ser diferenciadas. 

Este volume pode já ser adquirido aqui

Um agradecimento a Ana Maria Freitas pelo envio de um exemplar para análise.