quinta-feira, julho 26, 2012

"Cartas de Amor de Fernando Pessoa a Ofélia Queiroz" - Uma Apreciação Crítica









A Assírio & Alvim continua em 2012 o seu ritmo de edições Pessoanas, mantendo sempre o costumeiro alto nível de qualidade. Desta vez destacamos uma nova edição das cartas de amor de Fernando Pessoa intitulada precisamente "Cartas de Amor de Fernando Pessoa a Ofélia Queiroz", a cargo de Manuela Parreira da Silva, a maior especialista em epistelografia Pessoana. 

O título pode ser um pouco enganador, desde logo porque esta é a primeira edição das cartas que reune tanto as cartas escritas por Pessoa como as escritas por Ofélia, lado a lado e em ordem cronológica, permitindo assim uma leitura muito mais lógica do "namoro" entre ambos. Este factor é, quanto a mim, suficiente para aconselhar a compra do livro. Era algo para a qual já chamámos a atenção desde 2010... assim é muito mais fácil ler as cartas, sem necessidade de comparar volumes diferentes.

A edição traz mais algumas novidades a salientar. Desde logo edita duas cartas inéditas, que tinham sido "bloqueadas" pela família de Ofélia. Os Pessoanos pensaram de imediato que elas pudessem esconder algo de importante mas uma leitura rápida das mesmas desfaz qualquer expectactiva. Ofélia fala apenas de problemas femininos e nada mais (há quem tenha pensado que ela fala num aborto, mas da leitura das cartas não se retira minimamente esta leitura e aqui tenderemos a concordar com o que Richard Zenith disse na apresentação deste volume na Casa Fernando Pessoa). Temos também mais alguns pormenores inéditos, como uma "pré-carta" a si próprio muito curiosa em que Pessoa escreve como se fosse Ofélia, a projectar os seus sentimentos antes da primeira carta que dirigiu a ela; bem como alguns telegramas muito tardios, enviados entre ambos, até 1935.

É curioso perceber que realmente a relação entre ambos nunca teve realmente um fim e que se desenrolava de uma forma muito particular. E isto só se entende bem lendo as cartas lado a lado e de forma sequencial. Percebe-se como tudo começa, como há a quebra em 1920 (o namoro começa ainda em 1919) e eles se deixam de falar (Ofélia arranja mesmo outros namorados entretanto) e em 1929 eles reatam e começam novamente a falar amiúde - tanto por carta, mas especialmente por telefone, sendo que ela nunca o tinha verdadeiramente esquecido. Este namoro podia mesmo ser uma coisa artificial, como muitos Pessoanos tendem a defender actualmente? Parreira da Silva defende que não e nós tenderemos cada vez mais a concordar. 

É plenamente visível que Ofélia é a que tenta "forçar" a relação, mas certo é que Pessoa nunca desiste verdadeiramente dela, mesmo que seja sempre mais lacunar e breve. Se assim não fosse não manteria o contacto com Ofélia até à data da sua morte, não só por correspondência mas também por telefone. Ofélia tornou-se uma presença mais ou menos fixa numa vida que nada acabou por ter de fixo e esta edição tem a grande valia de nos demonstrar isso mesmo e de reforçar o papel energético, constante e firme desta mulher que muitas vezes tem sido retratada de modo injusto e menor. 

Este volume pode já ser adquirido aqui

Agradecemos a Manuela Parreira da Silva o envio de um exemplar para divulgação.