terça-feira, junho 19, 2012

"Poesia, Ontologia e Tragédia em Fernando Pessoa" - Uma Apreciação Crítica










"Poesia, Ontologia e Tragédia em Fernando Pessoa" de Pablo Javier Pérez Lopéz, é o mais recente título que aborda a ligação entre a obra poética e a obra filosófica de Fernando Pessoa. É com imenso prazer que saúdo mais um estudo filosófico-poético Pessoano, que vem em linha com óptimos estudos recentes, como por exemplo "El Pensar Poético de Fernando Pessoa" ou a edição crítica dos escritos filosóficos de Pessoa por Nuno Ribeiro.

Existe uma nova geração de Pessoanos que se está a dedicar a esta vertente de estudos Pessoanos com grande seriedade e os resultados estão claramente a aparecer. Julgamos que é apenas o início de uma nova janela para a compreensão de Pessoa, e uma altura muito entusiasmante para os estudos Pessoanos.

Devo dizer que as expectactivas eram bastante altas, sobretudo porque Pablo Lopéz era um dos co-organizadores do volume "El Pensar Poético de Fernando Pessoa" que eu, na altura, considerei como uma das melhores obras conjuntas sobre o tema da filosofia em Pessoa.

Começando pelo fim acho que o livro de Lopéz falha no mesmo ponto em que todos os livros que sairam neste âmbito estão a falhar. De forma algo ingénua, todos os exegetas filosóficos de Pessoa estão a analisar a ligação poesia-filosofia no âmbito dramático da produção poética. Ou seja, o poeta-pensador aparece quase enquanto tese-antítese, porque é o confronto entre a poesia e a filosofia que produz a necessidade da experiência ontológica que se concretiza na heteronímia.

Exemplo do que dizemos poderá ser esta passagem do primeiro capítulo: "Quizá el filósofo trágico, el poeta que recupera la filosofía sin subyugación, que camina sobre el abismo de lo real, entre las dos montañas de lo poético y lo filosófico, que rompe las fronteras entre sus reinos, entre las montañas cercanas que habitan filósofos y poetas34 es el único que puede sobrevivir aceptando la tensión existencial que implica no poder evitar pasear, ser puente, entre el tenso combate entre la filosofía y la poética."

Mais à frente López escreve: "El pensador trágico es aquél que se atreve a extender un puente entre las dos distantes montañas del Reino de la Filosofía y de la Poesía, a aceptar su dualidad trágica."

Desde logo temos então de lidar, neste volume, com o pressuposto de que o pensamento filosófico de Pessoa se esgota na sua produção dramática (enquanto efeito directo e sequencial). Há um apontamento relativo à juventude de Pessoa e à sua frequência do curso de Letras, onde estudou filosofia, mas esse apontamento apenas reforça a noção de que Pessoa nunca foi verdadeiramente um filósofo, quanto muito um poeta-pensador. É uma noção que pessoalmente repudio, mas que aceito que possa ser tomada nesta fase dos estudos filosóficos Pessoanos, sobretudo quando ainda é recente a publicação da totalidade dos escritos filosóficos de Pessoa (lembremos que recentemente Nuno Ribeiro apresentou no volume 2 da sua tese, ainda não publicada, 382 páginas com este propósito). 

Mas é uma pena que Pablo López visite de tão perto o tema e não o toque de maneira diversa. A sua incursão pelo conceito de poeta-pensador é atrevida e bem suportada em materiais do espólio, no entanto não consegue chegar a conclusões finais que não saem da evidência simples do que foi revelado. Porquê ver o poeta-pensador apenas como forma expressa de elevar a poesia a um grau metafísico de maneira tão formal? O autor toca de seguida o Sensacionismo, mas é incapaz de ver este movimento para além do seu significado literário, porquê? Afinal o Sensacionismo não poderia servir de conduta metodológica para a filosofia de Fernando Pessoa, enquanto forma de linguagem filosófico-poética? Já falámos um pouco deste tema no nosso último livro em que analisámos o Livro do Desassossego. Penso que o Sensacionismo é muito mais do que apenas uma teoria literária. Sim é a aceitação do mundo enquanto literatura, mas qual é a principal conclusão que advém daí? Pablo López não nos diz. Eu penso que seja a importância da desconstrução do mundo pela poesia (pela literatura) para que possa ser comunicado para além dos limites da linguagem padrão.

A adesão à teoria do poeta-pensador dramático leva o livro a virar continuamente para esse sentido. É por isso que a comparação com Nietzsche é tão (a até demasiadamente) recorrente. É inegável que existe vasto material para esta análise, no entanto não nos pareceu particularmente inovadora ou interessante. O próprio fenómeno da heteronímia é descrito em moldes trágicos, embora com algum sabor filosófico, o que nos parece diminuir a dimensão puramente filosófica do mesmo. Será que podemos entender a heteronímia filosoficamente só enquanto forma de ultrapassar o subjectivismo pelo modelo trágico, os problemas modernos ligados à identidade pela diluição da identidade individual? Não negaremos o desejo de Pessoa em resolver o mistério da verdade através do drama - sentimos também que é aqui que reside a verdade - mas não pensamos que possa ser explicado de forma tão sucinta e esquemática...

Em resumo, este livro tenta reclamar um estatuto para Pessoa que vai para além do mero "poeta influenciado pela filosofia", colocando-o verdadeiramente como "poeta-pensador". Isto é - quanto a mim - o mais louvável do volume e não deve ser menosprezado. No entanto soube-nos mesmo assim a pouco e a nossa esperança é que no futuro os jovens investigadores filosóficos de Pessoa não tenham receio absolutamente nenhum de o colocar enquanto "pensador-poeta". Espero que o possam fazer dentro em breve.

Este livro poderá ser adquirido brevemente online na Editoral Manuscritos

 Agradecimentos ao Professor Pablo Javier Pérez López pelo envio de um exemplar para análise.