terça-feira, junho 05, 2012

"Pessoa in an Intertextual Web" - Uma Apreciação Crítica









"Pessoa in an Intertextual Web", edição coordenada por David Frier, reúne diversos ensaios que estudam tanto as influências externas sobre Pessoa como, posteriormente, a influência de Pessoa no seu próprio tempo e em autores posteriores a ele. 

Podemos encontrar neste volume interessantes artigos de muitos conhecidos Pessoanos, divididos em três partes: Antes de Pessoa, Pessoa e os seus Contemporâneos e Depois de Pessoa. 

Na primeira parte temos cinco artigos.  

O volume inicia-se, a meu ver, de maneira fantástica, com um dos melhores artigos de Richard Zenith que eu já tive oportunidade de ler. Intitulado "Nietzsche and the Super-Pessoa". Zenith considera que Pessoa podia bem enquadrar-se na categoria de "übermench" construída pelo filósofo germânico, porque era essencialmente um criador de consciência, um homem completo. Antes disso, porém, explica que a Pessoa lê Nietzsche indirectamente, sobretudo em obras de análise mais vastas, e que isso influenciou a maneira como ele foi entendido. Zenith analisa alguns dos heterónimos na vertente Nietzschiana, sobretudo Caeiro e Campos; na perspectiva do anti-cristanismo, da vontade de poder e do "eterno regresso". Numa interessante conclusão, Zenith considera Reis Apolíneo, Campos Dionisíaco e Caeiro mais ligado ao conceito de "eterno regresso", sendo assim o Alfa e o Ómega de todo o sistema heteronímico. Altamente recomendado, este artigo de Zenith. 

No artigo seguinte, Mattia Ricciardi toca o tema "António Mora and German Philosophy: Between Kant and Nietzsche". Ricciardi confirma as leituras indirectas de Pessoa, sobretudo no que toca à filosofia de Nietzsche. Coloca Mora enquanto contraparte da epistemologia Kantiana e refere Nietzsche também como contraponto, desta vez ao Helenismo Dionisíaco. Segundo o autor, Mora não foi completamente definido e é este confronto com os dois filósofos Alemães que pode levar a essa mesma definição. 

Mariana Gray de Castro continua, de seguida, o seu estudo comparativo de Pessoa e Shakespear, com um artigo intitulado "Pessoa, Shakespear, Hamlet and the Heteronyms: Studies in Neurosis". A autora começa por explicar a influência do conceito "histeria" na época de Pessoa e mostra como estes "nervos em flor" aparecem nos diversos heterónimos e como Pessoa identifica essa mesma histeria, e/ou neurose, no seu grande "rival", Shakespear. A noção de que os heterónimos nascem da sua histeria não é nova e é o próprio Pessoa que a indica, Gray de Castro aborda a ligação entre esta origem dos heterónimos e a própria existência "neurótica" dos personagens dramáticos de Shakespear, mas acaba por não a desenvolver plenamente, o que é uma pena. Mas sabemos que está a caminho um livro da autora, que tocará inevitavelmente este tema. 

Rui Miranda de seguida traz-nos "Masters and Spectres: Pessoa's Haunts". Quem eram os mestres de Pessoa? Ele enumerou Cesário Verde, Antero de Quental e Camilo Pessanha,  ("esquecendo" propositadamente Camões). É feita também uma excelente análise da ligação da poesia (ou literatura) e da própria política - em que medida uma poderia influenciar a outra, como era o desejo de Pessoa? Na verdade os tais mestres revelam-se como apenas precursores, no que é uma boa intuição de Miranda, pois Pessoa ao reconhecer o papel deles, quase que ao mesmo tempo reconhece a necessidade de construir sobre eles, ultrapassando-os. O mestre, afinal, será apenas ele próprio. 

A primeira parte esgota-se com o estudo "Going Nowhere in 'Voyage autour de ma chambre' and 'Viagem Nunca Feita'" por Rhian Atkin. Um estudo interessante, mas que se torna um pouco difícil de entender sem se conhecer a obra de Maistre que é comparada à de Bernardo Soares. 

A segunda parte inicia-se com o artigo"'Ode Triunfal' with a breakdown at the end". Pedro Eiras dá-nos uma interessantíssima análise situacional da "Ode Triunfal", colocando-a na perspectiva do futurismo e dos autores contemporâneos de Pessoa e propondo uma leitura absolutamente literal desta peça poética. No entanto em que medida há dois Campos neste poema, um natural e um artificial, um que quebra no fim do poema e outro que o finge durante o tempo restante? Eiras tenta responder, mas deixa, no final a pergunta ao leitor. 

O segundo artigo da segunda parte está a cargo de David Frier, com "Mirror, mirror on the Wall: Unamuno, Bernardo Soares and the literary gaze". Este artigo toca alguns dos sentimentos prevalente na época de Pessoa, nomeadamente a inquietude e a análise existencial. 

A terceira e última parte, apresenta-nos as influências de Pessoa aos seus sucessores. O primeiro artigo, "Representing Pessoa" está a cargo de Paulo Medeiros. Achei deveras interessante a análise da influência de Pessoa em algumas figuras como Almada, Tabucchi, Saramago, Octávio Paz ou Valter Hugo Mãe. Todos estes artistas tiveram de lidar com Pessoa como obstáculo à sua própria afirmação artística. 

Mark Sabine pega no exemplo específico de Saramago em "Saramago and other Pessoas and Pessoan others". Em que medida foi Saramago influenciado pela figura de Pessoa e, mais importante, como lidou ele com essa influência de modo estrutural, construindo-a nos seus próprios personagens? Este estudo é de grande interesse e penso que cada vez mais conseguimos ver a genialidade de Saramago em se destacar de alguém como Pessoa, enquanto construtor de uma ideia própria de realidade. 

O volume termina com o artigo de Liz Wren-Own "Tabucchi's Pessoa: a legacy repaid?", onde a autora analisa a estreita relação de cumplicidade entre Tabucchi e Pessoa. Se Saramago conseguiu de certa forma desapropriar-se de Pessoa, transformando-o e transmutando-o (sem nunca o ignorar), Tabucchi é bem capaz de ter feito precisamente o oposto, incorporando-o demasiado na sua própria obra. 

 Em resumo "Pessoa in an Intertextual Web" é um valioso recurso de análise para todos os interessados na influência sofrida e projectada literariamente (e não só) por Pessoa. Tem a mais valia óbvia da qualidade dos artigos que inclui mas também o facto de ser impresso em inglês, o que certamente só aumentará o reconhecimento devido a Pessoa - e ainda pouco conseguido - no exterior das nossas fronteiras. 

Um agradecimento a David Frier pela colaboração para que esta crítica pudesse ser realizada. E já agora, pela iniciativa deste livro, que só deve ser reconhecida.