sexta-feira, junho 08, 2012

"O anjo que queria pecar" - Uma Apreciação Crítica







"O anjo que queria pecar" é o mais recente livro que toma a figura de Fernando Pessoa e a transforma e manipula pela ficção. Nos últimos anos temos assistido a um crescente uso de Pessoa como figura de romance - logo ele que se dizia incapaz de escrever romances - tendo aparecido por exemplo no horrendo "Passageiros da Neblina" de Montserrat Góngora e no excelente "A Conspiração dos antepassados" de David Soares.

Recebi o livro e li-o com toda a boa vontade possível e dentro dos limites da minha capacidade. Confesso que quis lê-lo rapidamente para perceber do que se tratava, sobretudo depois de saber que o autor - Francisco Salgueiro - era autor de pelo menos outro bestseller, embora eu não o conhecesse nem à sua obra. Li o livro em três dias, o que para mim é um absoluto recorde. Posso resumir o que acho do livro: é mau, muito mau. Não que esteja mal escrito; o livro começa lento, mas ganha ritmo eventualmente e o enredo não é insuportável em termos de cadência. O que é mau é tudo o que o suporta. A falta de informação sobre a vida de Pessoa, a falta de rigor e o terrível retrato que é feito do poeta, caindo em clichés já demasiado insuportáveis na altura em que escrevemos esta crítica. 

Não querendo revelar o final do livro, é uma espécie de mini-Código DaVinci. Um código-Pessoa. Uma descrição romanceada da visita de Crowley a Pessoa em 1930 e subsequentes acontecimentos. Nada de mal nisto, não fossem as imprecisões imperdoáveis mesmo a um romance. Há várias, mas vou-me ficar por apontar as que achei mais chocantes. 

Desde logo, Pessoa é descrito como um incapaz relativamente ao sexo, um virgem que - no que deve ser a cena de sexo mais deprimente alguma vez escrita - nem sequer é capaz de se excitar, nem mesmo incorporando Álvaro de Campos, perante a presença de uma mulher bela e voluptuosa como era Hanni Larissa Jaeger (a mulher escarlate de Crowley). Já escrevemos sobre isto, mas não é demais recordar que Pessoa, mesmo que virgem, não era um estranho ao contacto sexual e sobretudo não era certamente um amorfo sexual... está amplamente documentado o seu interesse pelo sexo oposto e sobretudo os seus pulsões sexuais, naturais para um homem da sua idade, mesmo que mal concretizados. Agora, perpetuar o mito do Pessoa assexuado, parece-nos andar para trás sem necessidade, sobretudo num livro que certamente venderá (infelizmente) aos milhares.

A segunda coisa que me ficou da leitura é o móbil de Crowley vir a Lisboa. Há outras coisas bem mais descaradamente fantásticas no livro, mas desculpam-se pela ficção, agora Crowley vir a Lisboa para se vingar de Pessoa por este ter corrigido o seu horóscopo não lembra ao Diabo, mesmo que o Diabo seja Crowley... o autor deve ter lido o "Encontro Magick", mas de certeza que não com muita atenção. Senão tinha visto que as cartas de Crowley a Pessoa não são cartas de quem se quem vingar, mesmo que fossem dissimuladas, mas antes cartas de quem precisava de mais um esquema para arranjar dinheiro fácil. 

Enfim, aos romances tudo será permitido, até serem maus romances. Não vou falar sobre o fim do livro, que também é bastante mau e descabido, mas pronto, isso já sai fora do espírito do respeito à verdade por ser mera especulação criativa que não deve ser censurada. Pena é - essencialmente - que se reavive uma imagem de Pessoa que nos leva, como o romance, aos anos 80, a um Pessoa triste e macanbúzio, virgem incapaz e atrofiado. Era desnecessário. Mesmo que Francisco Salgueiro, como Crowley, apenas quisesse aumentar as vendas do seu livro pela polémica. Tinha formas mais inteligentes de o ter feito e ele é certamente inteligente o suficiente para o perceber. 

Um agradecimento à Oficina do Livro pelo envio de um exemplar para análise.