quinta-feira, junho 14, 2012

Entrevista com Manuel Portela









Temos hoje o prazer de vos apresentar uma entrevista com o Prof. Manuel Portela da Universidade de Coimbra. O Prof. Portela é o responsável por um arrojado projecto de digitalização do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, que vai decorrer até 2015.

A equipa da qual é responsável está a desenvolver um arquivo electrónico dedicado ao "Livro do Desassossego". Como surgiu este projecto e qual é, na sua opinião, a necessidade de uma edição digital do "Livro" no âmbito mais vasto da edição da "obra completa" de Fernando Pessoa? 

Este projeto do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra surge no âmbito de uma nova área de investigação que estamos a desenvolver na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra desde 2010 e que designámos 'Materialidades da Literatura'. Criámos um novo Curso de Doutoramento (http://matlit.wordpress.com/) e este é o primeiro projeto de investigação financiado a realizar nesse âmbito. O projeto conta ainda com a colaboração da Biblioteca Nacional de Portugal e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Investigação e Desenvolvimento em Lisboa (INESC ID, Universidade Técnica de Lisboa). Podemos enquadrá-lo em projetos semelhantes que se têm levado a cabo desde o final dos anos 90 em várias universidades pelo mundo fora, e que contribuiram para a gradual afirmação das humanidades digitais como um domínio que agrega a computação e as humanidades. Neste caso não se trata apenas de uma edição digital, mas de usar as capacidades de remediação e de processamento algorítmico para descobrir coisas novas sobre a escrita e o livro no LdoD. O projeto está circunscrito ao LdoD, mas terá certamente implicações relativamente à restante obra de Fernando Pessoa. Por outro lado, não creio que se deva equacionar este arquivo digital no programa de construção editorial da obra completa. Trata-se de um projeto de outra índole, com outros objetivos. 

Qual o maior desafio que enfrentaram? A dispersão dos materiais? A própria natureza do "Livro" enquanto "anti-livro"? 

Os desafios serão para enfrentar ao longo dos próximos três anos, uma vez que o projeto está apenas a começar. O que gostaríamos de conseguir fazer é integrar todo o conhecimento que já existe sobre o Livro do Desassossego com novas hipóteses de organização e de análise algorítmica dos textos. Pretendemos combinar uma edição genética com uma edição social, isto é, dar conta quer da produção autoral, quer da produção sucessiva do livro pelos seus diversos editores. Além disso, trata-se de imaginar novas possibilidades de articular o LdoD como processo e como artefacto, e pensar essa articulação entre escrita e livro na imaginação e nas práticas modernistas em geral. O LdoD não é tanto um 'anti-Livro' como um projeto e uma ideia de livro. Um livro em curso, digamos. 

Tendo em conta a dificuldade de editar Pessoa, nomeadamente face à dispersão e incompletude dos originais, o formato digital apresenta-se como o formato mais consensual, sobretudo face ao formato em papel, porque pode congregar as diferentes opiniões dos especialistas num único meio? 

Sim, de facto muitos dos processos de escrita de Fernando Pessoa não são facilmente traduzíveis para o livro impresso. A capacidade simulatória do meio digital abriu outras possibilidades de representar os manuscritos e os processos de escrita e de edição. A integração reticular de múltiplos materiais é uma das capacidades específicas do meio digital que pretendemos explorar. A marcação dos documentos a vários níveis de granularidade torna possível a reconfiguração radial dos objetos digitais de acordo com múltiplos critérios. Esperamos poder usar esta flexibilidade do meio como instrumento de investigação para pensar a escrita e o livro no LdoD. 

Quando estará o arquivo disponível para consulta e qual será o tipo acesso proposto ao público em geral? 

Se tudo correr como planeado, esperamos ter a primeira versão do arquivo disponível em 2015, com possibilidade de adição de novos materiais em fases sucessivas. O acesso será aberto e sem restrições para todos os utilizadores. Haverá ainda uma área de ensino e investigação especificamente concebida para criar uma comunidade, com a participação daqueles que estudam e ensinam o LdoD em todo o mundo. Esta dimensão participativa é outra das capacidades do meio digital para a qual esperamos desenvolver programação e funcionalidades específicas no arquivo. 

Na sua opinião esta edição electrónica marcará um momento para além do qual todas as edições críticas posteriores do "Livro" se verão limitadas por existir um arquivo digital do mesmo? Como prevê no futuro integrar outras leituras subsquentes advindas de novas edições? 

O arquivo do LdoD permitirá gerar edições de configuração variável, de acordo com critérios específicos que serão processados automaticamente. O seu objetico não é substituir as edições singulares que existem ou as que venham a existir, mas sim criar um espaço de modelação e de simulação da dinâmica da escrita, da edição e da leitura como processos de produção do livro. A possibilidade de integrar novas leituras será um sinal de que o projeto terá conseguido estruturar a sua base de dados e as suas funcionalidades tal como as imaginámos. Mas isso só o futuro dirá. É preciso não esquecer o título do projeto, que tomámos de empréstimo a Bernardo Soares: 'Nenhum Problema Tem Solução'...