quarta-feira, maio 09, 2012

Resposta de José Cavalcanti a Teresa Rita Lopes

Em resposta à carta de Álvaro de Campos que publicámos no passado dia 4, recebemos uma missiva do autor visado na mesma, José Paulo Cavalcanti. Reproduzimos aqui a mesma na íntegra:


RESPOSTA À PROFª TERESA RITA LOPES 

A Professora Teresa Rita Lopes é uma autora importante, isso está para além de qualquer dúvida. E grande especialista em Pessoa, também. Tanto que, no meu “Fernando Pessoa, uma quase autobiografia” (Porto Editora, 2012) a cito em 16 passagens do livro (e cito, na bibliografia, 9 trabalhos seus). Por essa razão, foi ela um dos primeiros especialistas que consultei. Educada e solicita, conversamos longamente sobre o poeta em sua sala na Universidade. Ao fim, levando-nos à porta (a mim e a minha mulher), advertiu que “em Portugal os intelectuais se enfrentam dando cotoveladas”. Agora, talvez para honrar essa frase, aqui temos as primeiras dessas “cotoveladas”. Dadas pela própria, sem sequer ter lido o livro. Acontece. 

Não as responderei, aqui. Por faltar disposição íntima para entrar nesse debate. Trata-se de um confronto desigual. Porque jamais teria coragem de criticar, como a Professora, sem conhecer o objeto das críticas (dado não ter lido o livro). E jamais teria coragem de escrever palavras tão pouco respeitosas pelo prazer apenas de fazer graça. Diferentemente dos cabelos rouge da eminente Professora, cor de sangue, os meus são já brancos. E a maturidade me trouxe paz. Longe do desassossego dos adolescentes (ou quase), próprio de um tempo em que éramos mais jovens, mais magros e provavelmente mais felizes. No fundo, e considerando a natureza da crítica, não vale a pena o esforço para uma resposta. É isso. 

Busco razões para aquele texto, com linguagem própria de estudantes, e percebo que a explicação talvez seja simples. Porque ela vem assinada por Álvaro de Campos – cabendo, à Professora, só as responsabilidades por tê-lo psicografado. Tudo se explicaria, então. Seria mais uma do engenheiro. Nada a estranhar. Ophelia Queiroz dizia que Pessoa, quando se apresentava como Álvaro de Campos, “portava-se de uma maneira totalmente diferente. Destrambelhado. Dizendo coisas sem nexo”. O próprio Pessoa se queixou, em carta a Gaspar Simões, dos “desvarios do engenheiro Álvaro de Campos”. Sem contar que, no acidente onde Afonso Costa fraturou o crânio (em 1916), Campos dirigiu ao jornal “A Capital” uma carta inteiramente desequilibrada (cheguei a ter essa carta, Professora, adquirida em leilão naquele Centro de Convenções junto aos Jerônimos; até quando, dois dias depois, o governo Português exerceu seu “direito de preferência” e ficou com ela). Confessando Pessoa mais tarde, a Almada Negreiros, que no momento em que a escreveu “se encontrava em manifesto estado de embriaguês”. Tudo fica claro. É que nosso Álvaro de Campos, ao fazer essas críticas psicografadas pela Professora, deveria estar mesmo em um desses momentos etílicos. 

Dando os trâmites por findos, Professora, e só para lembrar, esse livro que a senhora não leu acaba de ganhar, no Brasil, os dois mais importantes prêmios literários do ano – o da Bienal do Livro e o da Academia Brasileira de Letras. Em respeito a essas entidades, ao menos a linguagem das críticas deveria ter sido mais adequada. E, se permite uma sugestão, em situações similares, primeiro leia o livro. Depois, se quiser, critique. Antes não, por ser atitude imprópria a uma Professora. No mais, o que gostaria no fundo é que, depois de ler o livro, se arrependesse das críticas de agora. Porque, para além de todas as divergências, há algo maior que nos une – esse amor desvelado e incondicional pelo gênio absoluto que foi, e é, Fernando Pessoa. 

José Paulo Cavalcanti Filho. 
Maio.2012.