quinta-feira, maio 31, 2012

"Contos Completos" - Uma Apreciação Crítica










Curiosamente, ou talvez não, Maio marca a edição de dois volumes de contos de Pessoa. 

O primeiro que analisamos intitula-se "Contos Completos" e é editado pela Antígona.

Este volume reúne 17 textos, com um critério que nos parece um pouco amplo pois não se tratam apenas de contos mas incluem por exemplo textos publicitário, traduções e até o drama estático "O Marinheiro", que não é propriamente um conto mas um drama estático para encenação teatral (aliás, na edição de contos da Assírio & Alvim existem contos estáticos, que, claramente são contos e não dramas para teatro). Inexplicavelmente, faltam outros contos como "Um jantar muito original" que, nesta lógica, deveria estar presente. Seja como for, no âmbito mais amplo das ficções narrativas, o volume pretende reunir pela primeira vez num só volume este tipo de produção Pessoana apresentando assim Pessoa ao público para além do prosador do "Livro do Desassossego" e mesmo da prosador das novelas policiárias de Abílio Quaresma. 

O volume inicia-se com um texto introdutório da responsabilidade de Zetho Cunha Gonçalves. Confesso que o nome não me era imediatamente familiar. Na "Pessoana" de José Blanco não aparece, mas ele afinal já publicou Pessoa, mais propriamente "Contos, fábulas e outras ficções" pela editora Bonecos Rebeldes em 2008 (razão porque não aparece na "Pessoana", que vai apenas até fim de  2004). Aliás, essa edição parece ser uma proto-edição da presente, pois já publicava alguns dos textos que encontramos nesta. 

A introdução é bastante fraca em termos científicos, revelando desde logo o porquê do critério amplo de edição (o editor nem sequer nos dá as variantes dos textos, como seria de esperar). Destaque para a opinião do editor, considerando Pessoa como um "elitista" que "nunca escondeu o seu menosprezo" pelo "povo mais humilde", referindo-se ao texto inédito "A varina e a lógica" (que tem, pasme-se, uma página para ele tirar esta conclusão fantástica). Claramente falta-lhe ler Pessoa mais amplamente, sobretudo para compreender como ele, desprezando os "brutos", almejava ao mesmo tempo ser um deles.  

Passando à organização do volume, ela passa por quatro partes: 1) Contos Completos; Crónicas Decorativas, 2) Fábulas para as Nações Jovens, 3) Contos Selectos de O. Henry e 4) Drama Estático. Em rigor são portanto contos de Pessoa os das partes 1) e 2). Destes, três são anunciados como inéditos: «A Varina e a Lógica», «O Cristão e o Católico» e «Crónica Decorativa II». No entanto, tanto «A Varina e a Lógica» quanto «O Cristão e o Católico» não são textos inéditos, tendo sido publicados por Jerónimo Pizarro no Jornal i, como noticiámos aqui e aqui. Um erro bastante grave do editor, mas que não nos surpreende, dado o que foi dito até aqui sobre este volume. 

Ignorando este facto, e em geral, todos estes textos, com a excepção porventura do «Banqueiro Anarquista» são de pouco valor literário e constituem quase que curiosidades, se bem que são utéis para compreendermos melhor a vertente humorista/moralista de Pessoa. Apenas nesse aspecto os poderemos recomendar ao leitor. A edição da Antígona, em confronto com a da Assírio & Alvim (de que falaremos amanhã) é mais pobre cientificamente e contém textos que na nossa opinião não podem ser considerados contos, não trazendo nada de propriamente novo para o mundo das edições Pessoanas - os "inéditos" que revela, dois deles com apenas uma página, já vimos que não podem constituir uma novidade, embora a «Crónica decorativa II» tenha algum interesse. 


Um agradecimento à editora Antígona pelo envio de um exemplar para análise.