sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Uma exposição, Uma arca. Uma esperança.



"Fernando Pessoa, Plural como o Universo". Visitei a exposição ontem e deixo aqui as minhas impressões iniciais. A exposição é breve e sintética, mas penso que muito atractiva sobretudo para quem conheça mal Pessoa e essa é a sua principal virtude. Há momentos para todos, desde a descoberta visual da poesia, à deliciosa contemplação de material original, cartas, poemas, pequenos cadernos.

E depois, na sala final, o monumento "fúnebre" que é a Arca dos Inéditos, posta em destaque como fulcro de toda a exposição, parece respirar com vontade própria e simultaneamente assombra tudo o resto em seu redor de qualquer significado verdadeiro. Devo dizer que fiquei uns momentos perto dela e vi-a de todos os ângulos com algum medo de estar a sonhar. Mas não. Ela estava mesmo ali. Quem por aqui passa deve conhecer a petição que promovi (e promovo) para recuperarmos a Arca para o domínio público. Tem sido impossível conhecer avanços na petição, por falta de vontade política. Mas, assim, sem preparação, ali estava ela. Vale a pena a visita à exposição só para a ver, porque aquele é um monumento pobre e gasto de toda a nossa cultura, está ali toda a nossa identidade, polida e riscada, de fecho partido e arrancada à sua casa. Que melhor síntese há da nossa alma de país, partida e subjugada mas ainda assim forte e afirmativa? Cheguei com raiva de a ver e com vontade de insistir em que o proprietário a cedesse de volta à casa dela, à Casa Fernando Pessoa, mas talvez esteja errado, talvez ela esteja destinada a sofrer como o seu dono morto. Talvez ela esteja destinada a não ter casa nem ter sossego, como ele nunca teve. Talvez isto faça tudo sentido assim, tortuosamente.

Seja como for, vão lá se puderem. Passem por ela e deitem-lhe um olhar piedoso. Ela merece. Mas não tenham pena dela. Não é a mesma coisa. Se não entendem agora, passem por lá, vão entender certamente depois de estarem à frente dela. Há ali qualquer coisa superior e qualquer coisa que nos diz respeito a todos, mas individualmente.

Uma pequena nota para uma sanguínea que Negreiros fez de Pessoa e que está precisamente na parede oposta à da arca - sem se verem, porque a parede está pelo meio. Um quadro pequeno mas que mostra um Pessoa incrível, desregrado, diferente. Ali está o espírito que morre do outro lado da parede e, combinados, fazem a alma presente do Pessoa naquele espaço.