quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Fernando Pessoa et le Quint-Empire de l'Amour - Uma Apreciação Crítica



Aníbal Frias é um dos mais interessantes jovens investigadores Pessoanos, tendo-se notabilizado pelas análises incisivas e inovadoras que produz. Radicado em França ele apresenta-nos agora um volume intitulado "Fernando Pessoa et le Quint-Empire de l'Amour. Quête du Désir et alter-sexualité", onde explora com grande profundidade a questão do sexo e do desejo na obra de Fernando Pessoa.

Devo dizer que este livro é muito corajoso e destemido na maneira como enfrenta este assunto "melindroso" em Pessoa. E é corajoso de uma forma positiva pois não pretende escandalizar ou explorar esta temática, mas antes elaborar percursos alternativos e originais na sua descoberta e exploração. A primeira forma como o faz é desmistificando algumas visões clássicas (ou que se vão tornando clássicas). Mas não sem antes aceitando uma principal - a de que Pessoa negou a sensualidade em favor de uma "estética da renúncia", levado por um espírito artístico idealista que se foi tornando regra de vida. Veremos mais tarde como este acaba por ser porventura o único ponto fraco do livro.

Mas falando ainda das desmistificações... há muito que se fala de Pessoa e de sexo ou sexualidade. Nós próprios já falámos sobre isso. Frias não foge da polémica e aborda logo nas páginas iniciais tanto a análise Freudiana de Gaspar Simões como as pequenas notícias largadas por Jorge de Sena (via António Botto) ou pelo próprio Pessoa em poem
as ortónimos ou na obra do Barão de Teive por exemplo. O autor prefere deixar os rumores e embarcar na análise preponderante do que foi escrito pelo poeta - assim limpa o seu livro de qualquer intenção polémica em si mesma.

Parecerá então que a busca do amor em Pessoa é uma busca puramente literária. Talvez. Frias consegue passar um conceito de "fingimento sincero" em Pessoa que, trazendo alguma realidade para a escrita não deixa de revelar uma realidade manipulada, transformada pela imaginação. É assim que por exemplo o namoro com Ophélia é entendido - enquanto dramatização teatralizada. Tendemos a concordar em alguns pontos, nomeadamente na intromissão dos heterónimos na relação (falámos disso mesmo num recente colóquio).

Onde o volume realmente inova - e ganha enorme interesse - é na análise contínua do grande ciclo de cinco poemas amorosos que Pessoa planeava e que não chegou a terminar. Apenas escreveu dois, Antinous e Epithalamium, considerados os seus poemas mais sexuais (e mesmo obscenos). Julgo que Frias inova, primeiro distinguindo homosexualidade de homoerotismo e depois separando estes dois poemas não pela tradicional distinção homosexual/heterosexual, mas pela dualidade
Apolíneo/Dionisíaco. Deslocando os poemas de uma conotação sexual intrínseca ele conseguirá enquadrá-los dentro de um projecto mais ambicioso e vasto, de procura utópica (e esotérica) do amor.

Este projecto, denominado de "ciclo amoroso", seria constituído por cinco poemas, como dissemos, cada um deles correspondendo a uma época: 1) Grécia, Antinous; 2) Roma, Epithalamium; 3) Cristão, Prayer to a Woman's Body; 4) Império Moderno, Pan-Eros; 5) Quinto Império, Anteros. Curiosamente Frias considera que os poemas poderiam ser enquadrados não numa visão cronológica mas genealógica (sobretudo os dois primeiros, os únicos completos). A busca de um Quinto Império "espiritual" seria assim acompanhada de uma busca por um Quinto Império "sensual".

Qual a conclusão desse Quinto Império e da busca em si mesma? Para Frias o quinto poema traria uma "universalidade de paixões" um pouco à semelhança do final de "Mensagem" onde o poeta se despede com um "valete frates" também ele universal. Devo dizer que já reflecti bastante sobre o conceito de Anteros - sobretudo dentro do "Livro do Desassossego" onde ele é equivalente ao conceito mais amplo (e desenvolvido) do "Amante Visual" e tendo a discordar da visão de Frias. Para mim Anteros é o final das sensações e a transformação do sensual em visual, da síntese perfeita das sensações em pensamentos como final perfeito da desnecessidade do mundo exterior face ao mundo interior. Só assim se pode compreender o sonhador também enquanto homem de acção sensual.

Mas esta discussão já não cabe nesta nossa análise e é supérflua a ela. Resta dizer que ficámos deveras impressionados por este livro, pela sua coragem e largura (no verdadeiro sentido anglófono de "breadth"). Um estudo assim deve ser realçado e promovido, sobretudo feito numa área que tende a ser pouco explorada nos estudos Pessoanos. Aníbal Frias, com esta excelente edição só confirma um papel que já desempenhava com grande originalidade e abre-nos o apetite para futuras obras.