quarta-feira, fevereiro 01, 2012

"Pessoa e Nietzsche" - Uma Apreciação Crítica



"Pessoa e Nietzsche", publicado em 2005 por António Azevedo, é o primeiro estudo profundo que relaciona dois dos mais importantes autores dos Séculos XIX e XX. Sabemos que Pessoa é tributário das ideias do filósofo Alemão e partilhou inclusive com ele diversos pormenores da vida pessoal, dos quais se destacam a orfandade de pai em tenra idade e o medo da loucura.

O primeiro ponto abordado é um ponto curioso: não existem; à hora da morte, livros do filósofo Alemão na biblioteca pessoal de Pessoa. Existem apenas indicações indirectas de que ele o leu, porque usou expressões típicas de Nietzche e também porque em outros livros fez anotações e sublinhados das suas ideias.

O grande desafio de um estudo sobre a influência de Nietzsche em Pessoa esbarra assim, logo de início, com a dificuldade de saber em que medida Pessoa leu Nietzche. É possível que o tenha lido extensivamente e tenha vendido os livros, mas penso que há algo a ler no facto de nenhum ter sido guardado até à data da sua morte. Foi o interesse de Pessoa em Nietzche de facto decisivo no seu "futurismo" (ele na verdade recusou sempre o rótulo de futurista) ou foi Pessoa naturalmente atraído pelos mesmos temas desenvolvidos pelo Alemão, que eram já em si mesmos temas fin de siècle como a morte de Deus, a solidão, o individualismo, a força/vitalidade individual, o renascimento dos valores da antiguidade Grega e a decadência da religião? Serão todos os autores que escrevem no Séc. XX sobre estes temas necessariamente tributários de Nietzsche?

Parece ser neste sentido que António Azevedo dedica uma parte importante do livro a explicar a sua visão da recepção de Nietzsche nas literaturas Europeias e em particular na Portuguesa.

António Azevedo consegue identificar bem que Pessoa se interessa por alguns temas centrais em Nietzsche, sobretudo o tema da decadência (ou degenerescência) e do paganismo (ou "regresso dos deuses") e ambos os temas expressos na sua consequência prática social. Estes temas fortes teriam por directo resultado também a génese dos heterónimos do "regresso ao início" ou ao "princípio: Caeiro (regresso à natureza/inocência) e Reis (regresso simultâneo à antiguidade e à força epicurista).

Tratado de seguida, o tema do paganismo, recorrente do enorme tema da "morte de Deus", domina também a análise em torno da perspectiva religiosa Pessoana. António Azevedo escreve, e com razão, que a própria temática da "morte de Deus" não se esgota só no paganismo, mas reflecte-se também (e com relevo) no ocultismo/misticismo Pessoano. A "morte de Deus" é, sobretudo, a morte do "Deus cristão" ou do conceito estrito do "Deus cristão" para revelar todas as dimensões possíveis da sua espiritualidade e da transcendência (ou metafísica). Curiosamente o autor parece ter ignorado as críticas de Pessoa ao paganismo de Nietzsche, que classifica como "estrangeiro" e falso.

Na parte final do volume é abordado o problema genérico da morte da filosofia (que nos interessa particularmente) e da crise gnosiológica e ontológica vivida na transição do Séc. XIX para o XX. António Azevedo vê o fenómeno heteronímico enquanto nascente de uma estetização da metafísica e da própria ontologia. O sonho aparece, no poeta, enquanto reacção à impossibilidade da compreensão do mundo (e da verdade). É certamente uma posição defensável, mas tendemos a discordar dela, porque vemos o sonho não como recusa do acesso à verdade material mas enquanto uma verdade material interior. No entanto o autor defende a sua posição com habilidade e há que o reconhecer.

O livro propriamente dito termina com a análise da parte da obra de Pessoa mais facilmente identificável com a influência de Nietzsche - Álvaro de Campos.

Ao terminá-lo o autor parece concordar connosco na medida em que identifica a influência Nietzschiana não enquanto uma influência directa e unívoca, mas inserida em menor grau (mas com alta preponderância) entre as influências vindas do fim do Séc. XIX, que nos trouxeram um homem deslocado do centro do universo para o centro de uma decadência de todos os valores do iluminismo e sobretudo da própria razão enquanto instrumento para atingir a verdade.

Não podemos deixar de elogiar a um alto grau este "Pessoa e Nietzsche" enquanto análise lúcida, erudita e completa da influência da obra do filósofo Alemão no poeta Português. Este é um volume de referência, obrigatório na biblioteca de qualquer interessado no estudo da obra de Fernando Pessoa.

Um agradecimento à Instituto Piaget Editora pelo envio de um exemplar para análise.