segunda-feira, janeiro 23, 2012

"On the Margins of Fernando Pessoa’s Private Library"


O
último número da revista Luso-Brasilian Review (n.º 48.2) traz um interessantíssimo artigo de Patricio Ferrari intitulado "On the Margins of Fernando Pessoa’s Private Library".

No artigo Ferrari toca dois pontos essenciais: a propriedade/claim de livros por personalidades pré-heteronímicas e a marginalia produzida sob o nome de Alberto Caeiro.

Quanto ao primeiro ponto é notável observar como Pessoa, mal chegado a Durban, começa a marcar os seus livros com identidades paralelas à sua, a primeira das quais é a de um tal "Pip", ainda sem particulares deveres ou obrigações de produção heteronímica. Já David Merrick, encarregado de escrever pequenos contos assina com o seu nome um livro correspondente - Ferrari supõe logicamente que este processo de ownership era parte do próprio ritual de encarnar o heterónimo, pois quem escrevia contos devia possuir livros de contos. Outros dois pré-heterónimos também pouco conhecidos - Lucas Merrick e Sidney Parkinson Stool - tinham livros assinados na biblioteca. Pessoa, à medida que ia lendo diversos géneros de literatura, iria inventando vários autores dentro de si mesmo, explicando-se desta forma uma espécie de hipótese da génese da heteronímia a partir da sua (cada vez mais vasta) biblioteca pessoal. Há medida que ia adquirindo livros, os pré-heterónimos tornavam-se, eles próprios, também mais complexos, como entendemos da análise que Ferrari faz dos livros assinados depois por C. R. Anon e Alexander Search - aliás, estes últimos são aqueles que começam a ter realmente uma produção literária já significativa, ultrapassando definitivamente a barreira de leitores para escritores.

O caso de Caeiro é dado como mais complexo e elaborado. Segundo Ferrari, Caeiro seria construído enquanto um original e por isso mesmo livre de influências, não assinando livros. Bem se compreende, conhecendo a educação humilde do Mestre. No entanto é muito curioso que Ferrari indique que é Search que primeiro lê as Leaves of Grass de Whitman e assine esse livro como seu - em que medida Search serviu de molde para Caeiro não é claro e Ferrari não chega a tomar esse passo na sua análise parecendo considerar que Search foi uma espécie de cadinho de experiências para toda a experiência heteronímica futura.

A conclusão seria a de ver os pré-heterónimos como entidades separadas e em evolução, preparando (inconscientemente) a entrada em cena dos heterónimos principais. Assim, os primeiros liam e possuíam livros, mas os últimos não, porque já não seriam propriamente influenciados mas influenciadores - dados a comentários eventuais nas suas leituras, mas mais independentes na sua formação literária própria.

Pessoalmente achei o artigo de Patricio Ferrari admirável, na sua construção e nas questões que levanta; sobretudo na maneira como nos faz pensar em Pessoa como um leitor e sobretudo como um escritor-leitor (e leitor-escritor). Gostaria apenas de ter visto um pouco mais estruturada a questão da transição de Search para os heterónimos "tardios" ou "inteiros". Também seria interessante falar da vontade de Pessoa em se livrar das suas influências - Ferrari fala um pouco disto, mas ao ler pareceu-me uma análise algo superficial. Podemos lembrar algumas passagens do diário de Pessoa de 1910 que poderiam ter entrado neste artigo tornando-o (ainda) mais rico:

"Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus — mais, provocações de sonhos".

(...)

"Ultrapassei o hábito de ler. Deixei de ler seja o que for, excepto jornais, literatura ligeira e livros casualmente acessórios a qualquer assunto que possa estar a estudar e a respeito do qual o simples raciocínio seja suficiente.

Quase deixei cair a literatura como tal. Poderia lê-la para aprender ou por prazer. Mas não tenho já nada para aprender, e o prazer extraível dos livros é de um género que pode ser substituído com proveito pelo que o contacto com a natureza e a observação da vida pode oferecer-me directamente.

Estou agora de posse das leis fundamentais da arte literária".
Qualquer escritor poderá atestar a importância desta questão - até que ponto ele é influenciado pelas suas leituras e onde começa a sua originalidade e terminam as suas influências. Se lermos o artigo de Ferrari em conjunção com o diário podemos talvez concluir de forma mais completa que Pessoa passou por esta mesma fase de afirmação (algumas vezes megalómana), achando a necessidade de se afirmar "para além" das suas leituras. Os heterónimos são essa mesma afirmação, provavelmente efectuada entre 1910 e 1914.