quinta-feira, janeiro 26, 2012

"Fernando Pessoa - Outramento e Heteronímia" - Uma Apreciação Crítica



Como prometido começamos hoje a recensão de três obras da Instituto Piaget Editora. O primeiro livro de que vamos falar é "Fernando Pessoa - Outramento e Heteronímia", escrito por António Azevedo.

Este pequeno volume, com pouco mais de 120 páginas, apresenta um resumo conciso e bem conseguido do que é o fenómeno da heteronímia e como ele se relaciona com a necessidade de "outramento" em Fernando Pessoa.

O autor parte a "viagem de outramento", cronologicamente, em três fases: dispersão do eu, criação dos heterónimos e criação dos semi-heterónimos. Julgo que foi a primeira vez que vi o processo descrito de forma tão sintética e devo dizer que torna a compreensão do mesmo mais fácil. Não quer isso dizer que tenhamos necessariamente de concordar com esta progressão. Há sobreposição de alguns semi-heterónimos na fase heteronímica, por exemplo, e não se pode propriamente dizer que a dispersão do eu tivesse terminado necessariamente com a criação da personalidade heteronímicas mais fortes.

A maior força deste volume acaba, por isso mesmo, por ser a sua maior fraqueza. O autor tenta, com grande decisão, organizar um processo que é por natureza caótico, explanando-o de forma racional. Mas, no que toca à tentativa, ela é uma tentativa muito boa. Serviria mesmo, em retrospectiva, de plano elaborado para um objectivo que não se chega a perceber bem qual é - apenas se fala na produção de uma espécie de "arte superior".

Se é certo que Pessoa considera que falhou no seu projecto, não é menos verdade que o livro também falha em demonstrar isso mesmo. É demasiado organizado e planeado quando nos parece que nada no processo de "outramento" foi planeado. Mesmo quando Pessoa decide criar os heterónimos ele é impulsionado por uma pulsão externa: a enorme influência de Sá-Carneiro, que não é muito reforçada neste estudo.

Também existem mais algumas lacunas, sobretudo no estudo dos pré-heterónimos, sendo apenas abordado com alguma profundidade Alexander Search.

"Fernando Pessoa - Outramento e Heteronímia" acaba, em resumo, por ser um estudo muito honesto e bem conseguido do que seria um plano heteronímico, no entanto fica curto desse objectivo simplesmente porque na realidade não houve plano nenhum. Desde logo a "morte do eu", atirada para razões de estética e filosofia, não foi mais do que uma reacção instintiva a factores externos inegáveis, de raiz iminentemente psicológica. Não há, em muito da heteronímia, senão mesmo em toda ela, nada de literatura que não seja, antes, de razão de vida. Estes estudos, por muito valiosos que sejam, correm sempre o risco de desumanizar um poeta que, antes de poeta, era um homem.

Um agradecimento à Instituto Piaget Editora pelo envio de um exemplar para análise.