terça-feira, janeiro 31, 2012

"Fernando Pessoa e as Estratégias da Razão Política" - Uma Apreciação Crítica



"Fernando Pessoa e as Estratégias da Razão Política", de José Fernando Tavares, originalmente publicado em 1998 pela Instituto Piaget Editora, foi à altura um dos primeiros grandes estudos sistematizados sobre a visão política de Fernando Pessoa.

Este tema da política em Pessoa tem sido abordado na actualidade por diversos investigadores e toma cada vez mais relevo, sobretudo quando tendemos a olhar Pessoa enquanto um não-interventivo e alguém com uma alcance e divulgação limitadas enquanto era ainda vivo. Como se pode ler neste volume isso não era bem verdade, pois ele publicou várias centenas de textos em vida e muitos deles com intensas posições políticas.

No entanto este volume abre com uma introdução em que o autor nos remete inicialmente para o misticismo na posição política de Fernando Pessoa. Este será um princípio que influencia toda a escrita do livro, pois Pessoa é visto enquanto um poeta-político e essas dimensões nunca são verdadeiramente separadas uma da outra. Se é verdade a certo ponto, não é menos certo que certas posições políticas de Pessoa não parecem ter tido nada a ver com a sua vertente de escritor, mas antes de homem de ideias próprias, fortes e formadas.

O autor, no seu direito, escolheu ligar a poesia, a filosofia e a política, apresentando-nos assim uma visão mais ampla do que seria a posição política de Pessoa.

Após a introdução somos levados à análise dos principais escritos políticos de Pessoa que foram publicados por ele: "Crónicas da vida que passa", "O preconceito da ordem", "Como organizar Portugal", "A opinião pública" e "O interregno"; bem como alguns textos inéditos à data da sua morte. Através deles o autor tenta-nos explicar concisamente a forma como próprio pensamento político de Pessoa evoluia (e muitas da vezes mudava). São incluidas também algumas páginas de grande interesse sobre a questão da Grande Guerra e da União Ibérica, dois temas que muito interessaram ao poeta; e a questão da posição dele quanto ao Estado Novo.

José Tavares termina o livro falando sobre três teorias políticas que Pessoa via na génesis de uma restauração da república: "Teoria do sufrágio político" (reflectindo sobre a consulta popular), "Teoria da República Aristocrática" (reflectindo sobre a relevância de um líder carismático) e o "Nacionalismo Liberal" (reflectindo na Nação enquanto escola onde se aprende a liberdade de espírito e a fraternidade).

Em resumo qual seria a posição política de Pessoa? O autor não nos responde e remete-nos para a evolução (às vezes feita mais de recuos e avanços do que propriamente evoluções) das posições políticas de Pessoa ao longo do tempo, não esquecendo porém o que ele considerava ser no final de vida: "monárquico mas republicano por utilitarismo, conservador mas ao estilo liberal e anti-reaccionário". Ou seja, parece-nos que a posição política de Pessoa não fugiria muito à sua própria posição pessoal: um homem vivendo num período muito conturbado, privado mas com fortes posições públicas, reservado e tradicional mas incondicional defensor do futuro e da modernidade.

Quanto à questão de ele ser um interventivo ou um indisciplinador, o autor parece defender mais a última opção, mas nós lembraríamos o que disse José Barreto - o investigador que no presente mais tem publicado sobre este assunto - quando ele refere que, no seu tempo, Pessoa seria o equivalente aos intelectuais dos nossos dias que, comentando a actualidade política e sem cargos políticos próprios, a tentariam influenciar através da sua análise.

Um agradecimento à Instituto Piaget Editora pelo envio de um exemplar para análise.