sexta-feira, janeiro 13, 2012

Entrevista com Nuno Ribeiro



Temos o prazer de apresentar uma entrevista com o investigador Pessoano Nuno Ribeiro. O Dr. Nuno Ribeiro dedica-se sobretudo à investigação do espólio filosófico de Fernando Pessoa e neste aspecto pode ser considerado o herdeiro directo de António Pina Coelho. Isto embora tenha colaborado em outras edições recentes, como a edição das "Canções" de António Botto.

Pode falar-nos um pouco da sua entrada no mundo Pessoano, o que o atrai em Pessoa?

A minha entrada no mundo pessoano deu-se em 2008, com o início da minha dissertação de doutoramento. Inicialmente foi o estudo da relação entre Fernando Pessoa e Nietzsche que me conduziu ao espólio de Pessoa. No entanto, para minha surpresa, pude constatar, no decurso das múltiplas incursões pelos inéditos, que a produção filosófica de Pessoa ainda se encontra, em grande parte, por publicar. Desde então, tenho consagrado inúmeras palestras a este assunto, das quais têm vindo a resultar a inúmeros artigos. Preparo presentemente uma edição dos textos filosóficos de Pessoa, no âmbito da minha dissertação de doutoramento.

O Nuno estuda sobretudo a relação entre a literatura e a filosofia na obra de Pessoa. Na sua opinião Pessoa foi também filósofo? Se sim, em que medida?

Sim, Pessoa foi também filósofo. Com efeito, a dimensão filosófica da obra de Fernando Pessoa não se esgota nas referências a filósofos e a conceitos filosóficos presentes ao longo da sua poesia e ficções. Para além de poeta animado pela filosofia, que Pessoa diz ter sido e que efectivamente chegou a ser, encontramos no espólio deste autor inúmeros projectos e fragmentos destinados a livros, ensaios, artigos e pequenas produções de cariz filosófico. A faceta de Pessoa-filósofo é, sem dúvida, uma das dimensões da produção de Fernando Pessoa.

Interessa-o particularmente a recepção de Nietzsche em Pessoa. Em que medida foi Pessoa influenciado pelo filósofo Alemão?

É complicado dizer até que ponto Fernando Pessoa foi influenciado por Nietzsche e a este respeito existe alguma controvérsia. No meu livro Fernando Pessoa e Nietzsche: O pensamento da pluralidade [Verbo, 2011] tento realizar um estudo comparativo das obras destes dois autores. Aí tento mostrar que existe uma afinidade de fundo entre ambos que se estende para além do emprego de conceitos nietzschianos por parte de Pessoa. Essa afinidade de fundo diz respeito à forma como na obra destes dois pensadores se desenha a construção de um espaço literário plural. Penso que o interesse de Pessoa pela leitura e pelos conceitos de Nietzsche (que foi sobretudo veiculada através de bibliografia secundária) se prende com este aspecto.

O heterónimo filósofo de Pessoa, António Mora, parece desempenhar um papel secundário no drama em gente, um pouco à maneira de um teórico de bastidores. Era assim talvez que Pessoa via a filosofia, enquanto a necessária teoria para a sua prática heteronímica?

Para responder a essa pergunta é necessário distinguir entre a produção estritamente filosófica de Pessoa e a repercussão da filosofia na sua produção poético-literária. Relativamente à produção poética de Fernando Pessoa as referências a filósofos e a conceitos filosóficos desempenham um papel de «bastidores», isto é, a filosofia é apenas um dos elementos da composição literária a par de outros. No entanto, existe uma produção estritamente filosófica de Fernando Pessoa que se consubstancia nos inúmeros projectos e fragmentos de textos filosóficos que este autor nos deixou. Aqui essa lógica de «bastidores» inverte-se e a filosofia torna-se primária.

A questão da relação entre filosofia e heteronímia é, a meu ver, uma questão de grande interesse. Com efeito, na composição da personalidade de cada heterónimo encontra-se implícita uma determinada visão do mundo que é, em muitos casos, reflexo das leituras e projectos filosóficos de Fernando Pessoa. Assim, o estudo da biblioteca e do espólio filosófico de Pessoa é uma das condições de possibilidade da compreensão não só dos heterónimos, mas também das restantes personalidades literárias de Pessoa, o que se torna evidente se se tiver em consideração que muitos dos projectos filosóficos de Pessoa são atribuídos às suas personalidades literárias.

Que 5 obras filosóficas sobre Pessoa destacaria entre as publicadas desde a morte do poeta?

Das obras filosóficas sobre Pessoa destaco em primeiro lugar Os Fundamentos Filosóficos da Obra de Fernando Pessoa da autoria de António de Pina Coelho. Trata-se de um livro que se encontra em muitos aspectos ultrapassado, mas que nos alerta, pela primeira vez, para a necessidade de um estudo sistemático dos textos filosóficos de Pessoa. Em segundo e terceiro lugares, Fernando Pessoa ou a Metafísica das Sensações e Diferença e Negação na Poesia de Fernando Pessoa de José Gil. Dou especial destaque a Fernando Pessoa ou a Metafísica das Sensações, porque foi um livro que marcou e que ainda continua a marcar a recepção filosófica de Fernando Pessoa em França. Em quarto e quinto lugares, Fernando Pessoa, Rei da Nossa Baviera e Pessoa Revisitado de Eduardo Lourenço, o nosso recente 25º Prémio Pessoa. Trata-se de duas obras que fundaram a reflexão filosófica sobre Fernando Pessoa e que talvez nunca venham a estar ultrapassadas.

Para onde caminha, na sua opinião, a pesquisa filosófica em torno de Pessoa? Para onde caminha o state-of-the-art desta dimensão dos estudos Pessoanos?

Podemos distinguir dois caminhos da pesquisa filosófica de Fernando Pessoa: um caminho simplesmente interpretativo e um caminho filológico. O caminho interpretativo é sobretudo dominado por uma preocupação teórico-especulativa, isto é, pela tentativa de uma interpretação filosófica dos textos já publicados e pelo estudo, muitas vezes comparativo, das bases filosóficas da escrita de Pessoa. O caminho filológico, que em grande medida tenho vindo a percorrer, é dominado pela preocupação com o apuramento dos mais diversos materiais filosóficos deixados por Fernando Pessoa. O ideal será unir estas duas tendências, em que um esforço especulativo seja complementado por uma pesquisa das fontes. Eu e a Cláudia Souza temos organizado – nomeadamente com Paulo Borges que também contribuído para o estudo filosófico de Pessoa – inúmeros ciclos de conferências relativos à dimensão filosófica da obra de Fernando Pessoa e são estes os dois caminhos que se têm revelado.