sexta-feira, dezembro 02, 2011

"Pessoa entre a terra nula e o que céu que não existe" - Uma Apreciação Crítica



O Instituto Piaget publicou recentemente uma tradução do livro de
Judith Balso "Pessoa, le passeur métaphysique". O título escolhido para a tradução Portuguesa foi "Pessoa entre uma terra nula e o céu que não existe". Judith Balso tem desempenhado um papel original na análise filosófica da obra Pessoana - julgo mesmo que será dos poucos autores que o fazem com alguma intencionalidade, sendo que a maior partes dos exegetas Pessoanos neste campo tendem a análises mais fragmentadas e episódicas do que seria apenas uma "faceta" da obra.


Para Balso, Pessoa desempenha um papel interessante na filosofia, e não apenas na poesia. Desde logo é de salientar que alguém olhe para Pessoa de um ângulo filosófico - é algo pouco comum, mas que se vai tornar inevitável nas próximas décadas - e além do mais que consiga aportar uma análise congruente. É o caso de Judith Balso, uma autora extremamente bem informada sobre Pessoa (embora ainda assim com algumas lacunas de alguém que não lê o state of the art publicado em Português) e a sua obra e que consegue construir raciocínios de grande valor em redor do que ele escreveu.

A pedra de toque da concepção de Balso é que Pessoa acredita no papel da poesia enquanto maneira de expurgar a metafísica da filosofia. Neste aspecto, Pessoa assemelhar-se-ia a Ludwig Wittgenstein, mas a via Pessoana seria a da poesia enquanto que a via do filósofo Austríaco seria a da filosofia da linguagem.

É certamente defensável uma posição deste tipo, embora eu a considere demasiado restrita. Aliás, o livro de Balso, se tem um defeito, é precisamente o de olhar para a poesia de Pessoa pelas suas partes e nunca como um todo - e aí é quase inevitável cair na tendência natural de assumir que a principal posição filosófica Pessoana ter de ser a posição anti-metafísica do "Mestre" Caeiro. Há uma passagem que esclarece definitivamente esta visão, quando Balso fala de António Mora, o pseudónimo filósofo e diz: "A não-convertabilidade da poesia heteronímica numa filosofia verifica-se nessa não-apresentação de um «heterónimo filósofo» - ele fica num estado de sombra, sem obra própria -, mas igualmente na impossibilidade de transpor os poemas do Guardador de Rebanhos num discurso filosoficamente interno à Discussão em Família" (pág. 41). Ou seja, a filosofia de Pessoa teria de ser uma "coisa" expressa, deliberada, e, a não ser assim, ela não existe como sistema, resume-se a uma posição.

A posição anti-metafísica de Caeiro domina todo o livro e toda a opinião de Judith Balso, ao ponto de apagar outras considerações interessantes, nomeadamente a visão do processo heteronímico enquanto um grande projecto ontológico, de descoberta do Ser. Balso toca neste princípio - que eu acho essencial - mas não o explora devidamente, preocupada em que está em atribuir uma vertente utilitarista à poesia Pessoana. Esta passagem é exemplo disto mesmo: "A poesia heteronímica (...) não sucede à filosofia, ela toma conscientemente a cargo a ontologia, colocando assim o poema à prova na sua capacidade de pensar o Ser" (pág. 209).

Entre as duas citações que colocamos, a autora analisa os outros heterónimos, dando a entender o papel desempenhado por cada um deles, mas sempre dentro da mesma visão de Pessoa enquanto "Barqueiro metafísico" do Século XX e por isso bem enquadrado com as tendências filosóficas nascentes do seu tempo, precursoras da filosofia da linguagem e do positivismo lógico do pós-guerra.

É curiosíssimo que os estudos Pessoanos estejam a evoluir para a compreensão mais vasta do papel desempenhado por ele na filosofia do seu tempo, embora ainda pareçam bloqueados pelo aparente "tabu" de ele ter sido essencialmente um poeta. O livro de Balso, agora numa bem-vinda tradução de grande qualidade para Português, traz à baila a necessidade dos estudiosos Pessoanos não terem medo de abordar este tema, porque só os ajudará a eles (e a nós) a ver em Pessoa mais do que apenas um grande poeta, um enorme pensador do seu (e nosso) tempo.

Um agradecimento à Instituto Piaget Editora pelo envio de um exemplar para análise.