sexta-feira, dezembro 09, 2011

"Olhares Europeus sobre Fernando Pessoa" - Uma Apreciação Crítica



"Olhares Europeus sobre Fernando Pessoa" reúne, num só volume, sob organização do Prof. Paulo Borges, as conferências efectuadas no colóquio com o mesmo nome que decorreu em Junho de 2009 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mas não só, porque foram acrescentadas mais tarde outras, de outros jovens investigadores Pessoanos, sendo que todas são do âmbito filosófico.

Não deixamos de realçar, desde logo, a importância de edições como estas para os estudos Pessoanos contemporâneos. Cada vez mais Pessoa está a ser abordado filosoficamente e isso vai permitir descobrir na sua obra novas dimensões até aqui desconhecidas.

No volume constam 12 artigos.

No primeiro Julia Alonso fala sobre o "pensamento do nada" em Pessoa, descorrendo sobretudo em volta de Parménides; uma interessante análise ontológica que pega em alguns textos filosóficos de Pessoa e os analisa meticulosamente. De seguida Adelino Braz fala do "abismo ontológico" em Pessoa, no âmbito do desassossego, do "estado de não ser que, no entanto, existe" - levando a uma ontologia poética.

Pedro Sepúlveda fala do "Drama em gente como drama em livros". Este é talvez o menos filosófico dos artigos, em continuidade com o artigo seguinte, em que Daniel Duarte aborda o nacionalismo de Pessoa. No entanto o artigo que se segue reintroduz em força a análise filosófica com a análise de Dirk Hennrich "Ultimatos à Metafísíca. Fernando Pessoa a partir de Emanuel Kant". A crítica da metafísica em Pessoa é um tema forte de alguns estudos recentes (um dos quais analisamos aqui) e é uma vertente muito interessante (e polémica).

A teosofia foi uma das outras paixões de Pessoa (embora, como todas a suas paixões, de vida curta). António Faria analisa esta questão em "Pessoa e a Teosofia". Trata-se de um estudo muito interessante e original porque, ao que me recordo, não existe grande obra publicada nesta vertente Pessoana.

Seguem-se três excelentes estudos que relacionam Pessoa e Nietzsche, respectivamente de António Cardiello, Pablo López e Nuno Ribeiro. Paulo Borges fala depois de "António Machado e Pessoa"; Dagmara Kraus fala depois da influência (curiosa) de Pessoa em Emil Cioran e o volume termina com um artigo que nos fala da leitura do Livro do Desassossego dentro de uma perspectiva da psicologia de James Hillman (um artigo da autoria de Fabrizio Boscaglia).

Embora "Olhares sobre Fernando Pessoa" pudesse ser um volume mais coerente em termos da profundidade dos artigos incluídos, é, assim mesmo, um importante contributo para o crescente ramo de estudos filosóficos Pessoanos. Podemos recomendá-lo sem hesitar, para qualquer um que se interesse pelos mesmos.

Um agradecimento ao Prof. Paulo Borges pelo envio de um exemplar para análise.