terça-feira, dezembro 27, 2011

"Lisboa - O que o turista deve ver" - Uma Apreciação Crítica



A(s) arca(s) de Pessoa sempre constituíram, para quem as estuda, um manancial quase inesgotável de pérolas literárias, produzindo desde a morte do seu autor, inúmeras edições. No entanto há que realçar que, a esmagadora maioria dos inéditos estavam em forma desgarrada, longe de estarem prontos para edição imediata, com algumas notáveis excepções. A maior talvez tenha sido descoberta em 1988, pela equipa da Prof.a Teresa Rita Lopes, na forma de um guia turístico de Lisboa escrito em Inglês e intitulado "What the tourist should see".

A primeira edição em 1992 gerou acesa polémica, sobretudo devido à pobre qualidade literária do guia, que, segundo alguns, não poderia ter sido escrito por Fernando Pessoa. O Prof. George Monteiro é talvez a voz mais acesa a favor de uma autoria não-Pessoana, num artigo que publica no ano seguinte, em 1993 e que pode ser lido aqui. Segundo Monteiro, a prosa deste livro é demasiado má para ser de Pessoa, não sendo também dadas explicações sobre uma eventual assinatura do autor ou sequer análise comparativa do papel ou da máquina de escrever utilizada. Na primeira reedição (a de 2011 é a sexta), Teresa Rita Lopes parece tomar em conta algumas das críticas de Monteiro, indicando nomeadamente que existem apontamentos e correcções no manuscrito efectuadas pela mão de Pessoa e que a máquina utilizada é uma das que costumava utilizar. O enquadramento feito pela insígne Pessoana vai mais longe, enquadrando a obra no plano de edições Pessoano, mais precisamente no âmbito da promoção (propaganda) de Portugal; projecto que englobava, no seu cimo, o livro "Mensagem". No entanto ainda hoje Pessoanos de renome, nomeadamente o Prof. Jerónimo Pizarro, duvidam da autoria, indicando possivelmente uma origem semi-apócrifa para a mesma.

Quanto a mim é perfeitamente possível que a autoria seja de Pessoa, por uma razão muito simples: a sua obra em Inglês é muito menos precisa do que a sua obra em Português. Sobretudo desde que li as suas traduções Português-Inglês convenci-me plenamente disso. Não é de espantar que Pessoa cometa imprecisões no Inglês, muito pelo contrário. Quanto à qualidade da prosa, o guia queria ser turístico e não literário, pelo que esse argumento muito menos colherá. Indicaria um pormenor curioso a favor da autoria Pessoana, o texto que, a págs. 99-102 é dedicado ao Teatro de S. Carlos (em frente à casa onde ele nasceu) - um texto que lido com atenção parece denotar a emoção de um filho que se acostumou a amar a ópera por influência do pai.

Mas, passando a polémica da autoria, vejamos o que o guia (e esta edição nos oferece).

Destaco desde logo o excelente arranjo gráfico desta edição. A escolha do vermelho da capa com as letras negras traz um forte sabor da modernidade que distingue esta reedição e o formato do volume, mais pequeno do que o usual, bastante leve, permite que o mesmo possa ser carregado com todo o prazer pela cidade, à medida que o vamos lendo e vamos sendo guiados pelo texto. A edição é bilingue, apresentando o texto em Português por cima do texto em Inglês, de forma bastante bem conseguida, não nos confundindo minimamente.

A maior parte do volume é dedicada a Lisboa. Existe uma pequena secção sobre os jornais de Lisboa e uma última sobre Sintra.

O autor discorre sem grandes floreados sobre Lisboa, é certo. Mas os percursos efectuados são ainda hoje relevantes e é muito curioso conhecer o que seria (eventualmente) a opinião de Pessoa sobre eles, nomeadamente quais seriam os imprescindíveis de se conhecer. Nas margens do texto o editor incluiu fotografias de época, infelizmente de pequenas dimensões, mas que ajudam a contextualizar o que é escrito. Embora a pequena dimensão prejudique a sua acção auxiliar, o facto de existirem ajuda-nos a "suportar" um texto que por vezes consegue ser demasiado seco, quase ao estilo da escrita comercial. Trata-se de uma crítica a Pessoa guia turístico e não propriamente à edição em si própria...

Em bom rigor o interesse neste texto centra-se na sua autoria Pessoana e não propriamente na sua genialidade literária ou originalidade. Em termos de guias turísticos será bem conseguido mas não propriamente cativante para o leitor. Mas se acrescentarmos a aura de Pessoa por detrás das escolhas dos locais, é evidente que nos poderemos deixar envolver num percurso verdadeiramente sedutor por uma Lisboa diferente. Saúda-se por isso a nova reedição para o ano de 2011 (e sobretudo o seu arrojado grafismo) e recomenda-se a todos os Pessoanos que gostem de percorrer Lisboa.

Um agradecimento à editora Livros Horizonte pela cedência de um exemplar para análise.