quinta-feira, dezembro 29, 2011

"Desassossegadamente, à sombra de Pessoa" - Uma Apreciação Crítica



"Desassossegadamente, à sombra de Pessoa - Questões existenciais pessoanas em Virgílio Ferreira", recentemente editado pelas Edições Afrontamento, é um estudo da autora Carla Freitas Martins que pretende debruçar-se, como o título indica, sobre a questão da influência de Fernando Pessoa na obra de Virgílio Ferreira.

A vertente dos estudos pessoanos que se debruça sobre a recepção de Pessoa nas gerações que se lhe seguiram não é das vertentes mais exploradas pelos investigadores e é uma pena, porque é muito interessante compreender qual foi a influência do poeta nos autores seus contemporâneos (e não só).

Se algo nos fica do estudo de Carla Martins é precisamente essa noção da presença quase esmagadora de Pessoa sobretudo na geração seguinte, que floresce para a escrita nos anos 50. Muitos desses autores vão rebelar-se contra Pessoa, escrevendo "contra" ele, mas afinal apenas com o objectivo mais amplo de eles próprios poderem encontrar o seu espaço. Foi o que fez, nomeadamente, Virgílio Ferreira. Primeiro instintivamente combatendo a influência Pessoana só para mais tarde a aceitar plenamente na sua própria obra. Outro autor do qual imediatamente nos lembramos com uma atitude igualmente rebelde, embora de uma escola de pensamento diferente foi Cesariny.

A autora debruça-se muito mais sobre Virgílio Ferreira do que sobre Pessoa, o que seria de esperar, pelo que o livro é recomendável a quem tenha interesse e, sobretudo, conhecimento da obra do autor de Aparição. Em certa medida, e a nosso ver, será mesmo duvidosa a ligação efectuada entre os dois autores, que muitas vezes parece estabelecer-se apenas na continuidade do que seria a "dor de pensar", uma atitude eminentemente existencialista e eminentemente Pessoana. É certo que Pessoa desbrava de certa forma esse caminho, mas é menos claro porque é que os autores dos anos 50-60 não são já claramente influenciados pelas correntes Francesas e necessariamente pela obra de Pessoa enquanto precursor "a derrubar" ou a "continuar".

A questão é certamente interessante e a hipótese de Pessoa enquanto autor nascente de um existencialismo que precede o existencialismo Francês é notável, embora não seja totalmente original (o Prof. António Quadros, muito bem citado, suscitou-a primeiro). O facto de se propor uma escola existencialista Portuguesa (mesmo que sem o formalismo associado ao termo) é também de louvar e merece ser analisado mais a fundo no futuro.

Este volume é, em resumo, de grande interesse para qualquer apaixonado pela obra de Virgílio Ferreira, na medida em que nos traz uma visão íntima das influências do grande romancista e também da sua luta interna contra essas próprias influências. Mais amplamente é uma visão muito interessante de um sector intelectual da época e da maneira como esse sector reage à presença de Pessoa. Mas não recomendaríamos que o adquirissem em busca de conteúdos específicos sobre Pessoa, pois eles são reduzidos e apenas acessórios.

Dirigimos um agradecimento especial à autora pelo envio de um exemplar para análise.