sexta-feira, outubro 07, 2011

Entrevista com Carla Gago


Pode dizer-nos dizer qual foi o seu primeiro contacto com Pessoa e em que medida esse contacto influenciou a sua vinda para os estudos Pessoanos?

Não consigo precisar o meu primeiro contacto com Pessoa. Tenho a sensação que Pessoa me acompanhou, desde sempre, em todas as minhas leituras. Mas tenho uma recordação muito viva do meu primeiro livro de poesia de Pessoa, a antologia O Rosto e as Máscaras de David Mourão Ferreira.
Creio que foi também para compreender melhor Pessoa e outros autores de Língua portuguesa que decidi estudar Literaturas francesa, inglesa e alemã e mais tarde Literatura comparada, que me abriu as portas para outras culturas. Sempre tive a percepção que só o conhecimento mais profundo de outras literaturas e culturas é que permitiria um melhor entendimento da Literatura portuguesa. O estudo do fenómeno literário suscita necessariamente uma base comparatista para se poder chegar a outros lugares.

Sei que tem estudado a Biblioteca Pessoal do poeta. Agora que quase todos os volumes estão já digitalizados e acessíveis online, o que falta para que tenhamos uma melhor compreensão da mesma?

Falta ainda praticamente tudo, na minha opinião. A Biblioteca pessoal de Fernando Pessoa constitui material muito importante ainda a desbravar. O trabalho de digitalização efectuado por vários voluntários, cujo denominador comum era a admiração por Pessoa, foi um importante passo para a perenidade deste importante acervo da cultura europeia dos séculos XIX e XX. A BpFP contém exemplares raríssimos que não serão, certamente, só de interesse para pessoanos e a digitalização permite ao acervo uma vida para além do frágil suporte de papel.
Para uma compreensão da BpFP há que ter, em primeiro lugar, a consciência que esta biblioteca deve ser valorizada pelo que é: há que destrinçar a biblioteca material (o que existe hoje), a biblioteca virtual (uma tentativa de reconstituição do que a biblioteca poderia ter sido um dia) e o que Mazzino Montinari denominou de “biblioteca ideal”, que abrangeria todo o universo de leituras, mesmo fora do corpo da biblioteca pessoal e que teria em vista a situação ideal de uma reconstituição de todo o corpus textual que o autor teria percorrido e que teria influenciado a sua produção textual.
Mas, para uma maior compreensão da BpFP, terá que haver, sobretudo, uma maior compreensão do tempo de Pessoa (e vice-versa), um tempo de vertiginosos avanços em diferentes áreas do saber. Estudar esta biblioteca é entrar na família intelectual de Pessoa e no contexto intelectual que era comum aos homens do Modernismo europeu, conhecer a História das Ideias do século XIX e início do XX e os autores com que privou tantos anos (é difícil referir um autor central para o pensamento literário-filosófico e científico dos séculos XIX e XX que não figure entre os volumes de Pessoa).
Num autor como Pessoa existe a tentação de o apresentar desvinculado de qualquer tradição, podendo, assim, a sua Biblioteca pessoal constituir o contra-peso necessário para contextualizar toda a sua produção literário-filosófica. Este tipo de abordagem é essencial para não se incorrer em certas ideias pré-concebidas do autor – nomeadamente a do autor contraditório e paradoxal – nem em interpretações anacrónicas. Intenta-se, desta forma, um entendimento mais profundo e certeiro do seu pensamento através de uma maior compreensão das práticas intelectuais de uma época, sublinhando, em que medida, o ambiente intelectual, no qual e em função do qual o autor teve uma determinada produção, pode ter sido esquecido.
Em suma: há ainda muito trabalho a fazer.

Num recente texto falou do problema de classificação temática dos volumes da Biblioteca. Pode falar-nos mais sobre esta questão?

Existem volumes que residem na classe errada e esses lapsos não foram corrigidos nas últimas publicações relativas à BpFP. Na verdade, existe um problema de fundo nesta classificação por classes e que se prende com o facto de certos títulos (ou até índices) de volumes poderem ser enganosos, pois apontam num sentido quando os conteúdos principais são outros. Há que ter em mente que no início do século XX a “promiscuidade” entre disciplinas (Física, Biologia, Literatura, Sociologia, etc) constituia a normalidade, dada a explosão de interesses e o diálogo aberto entre os vários ramos científicos. Tal faz com que, por vezes, os temas que o investigador procure se encontrem em volumes com títulos que apontam noutras direcções temáticas.
Eu poderia avançar, por exemplo, que as leituras científicas de Pessoa representam pelo menos 10% da biblioteca (tal como, curiosamente, também, no caso de Nietzsche), mas a verdade é que esta contabilidade é relativamente difícil de se fazer pela permeabilidade entre a Literatura ou a Filosofia e as novas disciplinas científicas.
Parece-me óbvio que a única via será a de mergulhar no universo de leituras de Pessoa, conhecer o “miolo” e não unicamente os títulos dos livros.

A tese de doutoramento que está a concluir versa sobre o “género dramático em Fernando Pessoa”. Porque escolheu este tema?

Na verdade, eu comecei por estudar o Fausto pessoano, que apesar de ser um dos seus projectos mais ambiciosos não vai bem com a máscara que fizemos para Pessoa. Cedo me percebi que não seria possível entender o porquê da escrita de um Fausto e de Pessoa se quer equiparar a Goethe sem esclarecer antes outras questões de fundo.
Uma grande questão dizia respeito ao esclarecimento de conceitos como "drama lírico" ou "poeta dramático", resultado de uma concepção híbrida dos géneros literários e, sobretudo, de uma centralidade do estatuto do género dramático na Teoria literária. O drama é, como se sabe, para além de uma ideia transversal a toda a poética pessoana, um ponto nevrálgico nos Estudos pessoanos, pelo que me interessava igualmente uma perspectiva mais crítica do paradigma de Pessoa enquanto “poeta dramático” (na concepção heteronímica). Esta linha exegética que realça o carácter teatral dos seus jogos de desdobramento tende a reduzir a questão do drama à heteronímia mas a complexa problemática do drama não está, contudo, unicamente ligada à questão heteronímica. O género dramático, ou mais exactamente, uma determinada ideia do “drama” (com o seu suplemento de utopia) é um nó central no pensamento estético pessoano que ultrapassa a própria questão do género literário e vai enformar toda a sua produção literária (e não só dramática).

É possível, de algum modo, relacionar o “conhecimento enciclopédico” de Pessoa, visível no que resta da sua Biblioteca Pessoal, com a sua tendência para a dramatização?

A impressionante erudição de Pessoa faz com que esteja ao corrente das discussões mais importantes no espaço europeu em redor do género dramático. Ao autor português de formação intelectual anglo-saxónica não lhe escapam as leituras mais importantes à época sobre esta matéria, sendo a discussão em redor do género dramático (tanto num contexto ideológico-histórico mais alargado quer mais específico do movimento de vanguardas) uma constante na literatura que encontramos na BpFP, pois esta problemática foi central no seio do movimento modernista europeu.
Mesmo entre os autores modernistas que, como Fernando Pessoa, não tinham na produção dramática o grosso da sua produção literária, mas nos quais o drama ocupava um lugar central na sua poética, a questão tem que ser estudada e entendida à luz de uma contextualização história que ilumine a crescente importância do género dramático na Europa, que começa já com a primeira geração romântica alemã, ainda antes da viragem para o século XIX (quando o conceito do “moderno” nasce) e a sua sedimentação nos movimentos modernistas. Para um estudo crítico sobre o papel do género dramático no universo literário Pessoa, a análise das afirmações de Pessoa relativas ao drama, se desvinculadas de qualquer contexto histórico-intelectual, revelam-se pouco frutuosas ou simplesmente redutoras. Para o estudo deste contexto coloca-se, necessariamente, a questão das leituras efectuadas pelo autor que irão influenciar, se não determinar, a concepção dos géneros literários.
Se me pergunta especificamente quanto à relação do fenómeno heteronímico com as leituras efectuadas por Pessoa: para além de alguma dose de verdade que obviamente existirá na versão de Pessoa que a criação de personagens fictícias remonta à sua infância, a multiplicidade de interesses intelectuais é o que conduzirá, verdadeiramente, à variedade de heterónimos, à "variedade [que] alargará o espírito".
Para além dos jogos lúdicos das rubricas de heterónimos em volumes da BpFP, existe uma tentativa de abarcar não só "toda uma literatura" mas também todo um universo de posições de debates científicos que são representadas por alguns dos heterónimos.
Uma outra ligação existe, ainda, entre vários volumes da biblioteca e a heteronímia: um vector forte na biblioteca diz respeito ao desenvolvimento da “ciência psicológica” que tanto interessava a Pessoa (e pouco ou nada têm que ver com as posteriores ideias de Freud) e que terão contribuído para a explosão heteronímica.