quarta-feira, agosto 10, 2011

"A Tormenta" - Uma Apreciação Crítica



A Olisipo/Guimarães continua a publicar obras que estavam no plano inicial da editora de Fernando Pessoa (que funcionou durante muito pouco tempo, ficando aquém das publicações planeadas). Desta vez viramos a nossa atenção para "A Tormenta", uma das mais famosas obras de William Shakespear.

O fascínio de Pessoa com Shakespear foi imenso. Mais do que supra-Camões, em certa fase da sua vida, Pessoa terá sobretudo pensado poder tornar-se um supra-Shakespear. Os seus objectivos eram assim tão altos e, vendo-se essencialmente enquanto um autor dramático, o mais alto que podia alcançar seria precisamente a posição que Shakespear já possuía.

Porque terá optado Pessoa, entre as 36 peças de Shakespear, por "A Tormenta" ("The Tempest" no original)? Mariana Gray de Castro, na introdução, avança com algumas possibilidades, entre as quais a que nos parece ser a mais provável será eventualmente a intensidade simbólica e mágica desta peça em particular.

Mas Pessoa pretendia ir mais além, traduzindo a peça para Português. Aliás, os seus planos eram muito mais ambiciosos, levados ao extremo de diversas traduções do Bardo. Traduções que ele exigia fossem exactas (do verso para o verso, da prosa para a prosa, sempre com métrica e esquema rítmicos iguais). Ora, esses planos ficaram, como é bom de ver, incompletos, pela sua magnitude e ambição. A tradução que se publica neste volume não é de Pessoa, mas de uma outra autora, Fátima Vieira.

Curiosamente ficámos sem saber se no espólio existem algumas páginas da tradução visto que apenas nos são dadas a conhecer algumas passagens anotadas por Pessoa na sua edição das obras de Shakespear... Visto que Pessoa exigia tanto de uma tradução de Shakespear (nomeadamente que o tradutor fosse culto e tivesse "penetrado do espírito" daquela obra dramática ao ponto de a traduzir como se fosse quase uma nova produção literária) não nos parece que Pessoa tivesse aprovado a tradução de Fátima Vieira, que é, diga-se simples e muito pouco ambiciosa.

Claro que, reproduzindo o plano da Olisipo nos dias de hoje, poderá parecer certo publicar uma tradução qualquer (ou pelo menos a melhor que esteja disponível), mas estará isso no espírito do então editor? Claro que não. Pessoa apenas ficaria satisfeito com a sua própria tradução - que talvez nunca concluísse, mesmo que vivesse até aos 90 anos... Por isso, e em respeito aos seus princípios, talvez tivesse sido preferível não se ter editado este livro agora. Pelo menos é essa a nossa opinião, que não obsta, no entanto, à leitura da obra pela obra, cujo valor não se perde.

Este volume pode ser adquirido online, neste link.

Um agradecimento à editora Guimarães pelo envio de um exemplar para análise.