quinta-feira, agosto 25, 2011

"Livro do Desassossego" (Edição Assírio & Alvim) - Uma Apreciação Crítica




Saiu no início deste ano a 9.ª edição do "Livro do Desassossego" pela editora Assírio & Alvim. Trata-se, indiscutivelmente, nem que seja pelo número de exemplares vendidos, a mais bem sucedida edição deste paradigmático texto Pessoano, ao ponto de se ter tornado a edição de referência em Portugal (e mesmo no estrangeiro, visto que há uma tradução Inglesa directa).

"Contra" esta edição encontramos actualmente pelo menos outras duas de relevo - a de Teresa Sobral Cunha e a Edição Crítica da Imprensa Nacional. Não valerá a pena discutir agora a longo o que distingue as edições umas das outras, pois todas têm as suas virtudes e os seus defeitos. No que interessa à análise presente cabe, no entanto, distinguir as qualidades que terão tornado a edição da Assírio a mais popular.

Desde logo, uma razão de oportunidade. Antes de 1997 existiam poucas edições do "Livro do Desassossego" verdadeiramente completas. A primeira edição, de 1982, acaba por se espelhar nas edições seguintes (1986 pela Presença, replicada também nos livros de bolso da Europa-América, a edição mais acessível de todas). Em 1997, Teresa Sobral Cunha edita o que seria um volume I de uma edição mais completa (seguindo a evolução desde 1982), mas a pesquisa cessa por ordem judicial dos herdeiros, que tinham entretanto entregado a edição à Assírio, regressando em 2008 mas com menos fulgor.

Crédito terá, no entanto, de ser dado à Assírio na divulgação de Pessoa junto do grande público, com edições cuidadas, atractivas e (na sua maioria) bem conseguidas ao nível técnico. Não será alheio a esse sucesso Richard Zenith - um americano, também ele poeta, freelancer, que se introduziu "maliciosamente" no meio Pessoano, continuando a ser um corpo estranho e continuando a gerar polémica e inveja em igual medida. O facto é que Zenith é o segundo factor essencial para a popularidade desta edição. O americano é conhecedor, muito prático, muito concreto, to the point e essa abordagem destoa completamente do resto das abordagens à obra de Pessoa que encontramos no mercado (demasiado simples ou demasiado académicas e complexas).

E se há uma edição onde compensa ser prático é precisamente esta. Sabemos como o "Livro" é fragmentário, difícil de editar, com mil critérios possíveis de adoptar para organização de textos... Zenith aproximou sempre a tarefa com algum pragmatismo, mesmo que sacrificasse supostamente o teor científico da obra final (sobretudo filológico). Aliás, como bem se entende, a edição de Zenith não é (nem pretende ser) uma edição crítica. A saída da edição crítica, no final de 2010 (a cargo de Jerónimo Pizarro) é mesmo abordada por Zenith na sua nota à 9.ª edição e toca precisamente no facto da sua organização poder ser cronológica e, por esse facto, talvez menos subjectiva.

Não haverá, porventura, grande grau de admiração entre a equipa da Imprensa Nacional (responsável pela Edição Crítica da obra Pessoana) e a equipa da Assírio & Alvim. Muita dessa inimizade tem bases científicas, mas existe um grau de competição, algo primitivo, que, sinceramente, sempre me escapou. O trabalho de ambas as equipas (bem como de Teresa Sobral Cunha na Relógio d'Água) é meritório e complementar, desaguando em melhores opções para o leitor de Pessoa. Quem se dirige a uma livraria em busca de uma edição do "Livro do Desassossego" tem hoje em dia uma escolha com grande variedade e qualidade, ficando, talvez, só mais exposto à edição da Assírio por razões de marketing editorial (a editora mostra uma grande força no destaque dado às suas obras nas prateleiras, em detrimento de uma muito menor exposição da Edição Crítica e mesmo da edição da Relógio d'Água, ambas com muito menos volumes impressos).

Pessoalmente, e tendo lido as três edições, não conseguiria recomendar apenas uma. Para o leitor ocasional a da Assírio será talvez a mais indicada, por ter uma essência mais simples e directa. No entanto essa simplicidade empalidece-a perante a Edição Crítica, mais robusta e apaixonadamente próxima dos papéis originais. Quanto a mim, e embora a edição de 2008 fique aquém da edição de 1997, continua a ser Teresa Sobral Cunha a apresentar a edição mais equilibrada, entre a aproximação ao original e o compromisso científico.

Ps: uma referência (sentimental) cabe ainda à edição da Europa-América, de António Quadros (pela qual eu li Pessoa pela primeira vez), ao que sei ainda a única de bolso, embora muito desactualizada continua a ser uma boa opção para quem gosta de ler Pessoa fora de casa (e são muitos que o fazem). Seria interessante que alguma editora abordasse o projecto de uma nova edição de bolso com as alterações necessárias advindas das outras edições já mencionadas.

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