segunda-feira, agosto 15, 2011

Entrevista com Miguel Moreira e Catarina Verdier



Temos o prazer de apresentar uma entrevista com os autores do blog "As Aventuras de Fernando Pessoa" - um projecto que está a elaborar, há já alguns anos, uma biografia de Fernando Pessoa em formato BD. Miguel Moreira (M.M.) faz os desenhos, Catarina Verdier (C.V.) trata da cor.

O que são "As aventuras de Fernando Pessoa" e o que cada um de vocês traz para o projecto?

M.M.: “As aventuras de Fernando Pessoa, Escritor Universal…” é uma introdução à vida e à obra de Fernando Pessoa. É também uma história, a história de uma personagem chamada Fernando Pessoa, neste caso uma personagem de banda-desenhada, que vive aventuras, como é típico nas bandas-desenhadas mas não obrigatório. O subtítulo desta história lança alguma luz sobre a natureza das aventuras desta personagem e a capa do álbum, tal qual está projectada, ilustrará outro aspecto dessas aventuras: a personagem encontrar-se-á flutuando sozinha no espaço sideral.


C.V.: O Miguel faz a história e os desenhos, eu faço a cor. Para mim “As Aventuras de Fernando Pessoa” é uma banda-desenhada que vai permitir mostrar aspectos da vida de Fernando Pessoa que são geralmente menos conhecidos e não menos importantes para a compreensão daquilo que foi e é Fernando Pessoa. Eu, por exemplo, não tinha tomado consciência do facto de F.P. ter ido para a África do Sul e ter tido uma educação inglesa, apesar de, muito provavelmente, isso ter sido abordado nas aulas de português no terceiro ciclo.


Porque foi Pessoa o escolhido?


M.M.: Pessoa veio antes desta banda-desenhada, de forma imprevista. O que começou por ser uma brincadeira superficial, uma série de tiras cómicas em torno de uma figura que eu mal conhecia, transformou-se gradualmente e graças à Catarina em um interesse sério da minha parte em saber mais sobre esse poeta que vim a reconhecer como sendo um desconcertante pensador: ao ler o seu texto “António Botto e o Ideal Estético em Portugal” (de que existe uma versão posterior intitulada “António Botto e o Ideal Estético Criador” - sublinho “criador”) percebi que o tempo das minhas brincadeiras superficiais com banda-desenhada tinha que acabar e decidi aprofundar essa minha abordagem inicial. Realizar uma biografia pareceu-me ser o procedimento mais interessante, para mim e para futuros e eventuais leitores.


C.V.: Eu só me lembro de dizer ao Miguel: «tens que ler Fernando Pessoa».


M.M.: Já lá vão onze ou doze anos…


Em que medida acham que esta BD se destaca de outras que já foram feitas em torno de Pessoa?


M.M.: Do pouco que eu vim a conhecer depois de termos começado este trabalho (em Dezembro de 2002), vejo que esta BD se diferencia pela extensão (terá mais de 150 páginas) e pelo facto de ser uma biografia. Penso que as bandas-desenhadas em torno de Fernando Pessoa e da sua obra têm em comum serem visões críticas ou de autor, de resto o mesmo se pode dizer de todo o tipo de trabalho em torno de Pessoa.


C.V.: Se calhar é uma abordagem mais densa sobre a obra, que exige uma maior pesquisa. Depois há um aspecto que eu acho curioso, que é a estrutura narrativa que o Miguel adoptou, da meia-página… com título… depois cinco meias-páginas compõem um grupo, e três grupos compõem um ciclo, etc… Mas isso já tem a ver com banda-desenhada em geral.


Qual é o processo típico para a produção de uma página, até a vermos online?


M.M.: A meia-página, ou prancha, é dividida em seis quadradinhos iguais que poderão depois ser por sua vez divididos ou fundidos formando assim um número maior ou menor de

“quadradinhos”. Segue-se uma operação de “preenchimento de espaços vazios” onde se define ou descobre o conteúdo de cada meia-página, quer a nível do desenho como do texto. Apesar de ter elaborado três versões do argumento da história antes de começar a desenhar, optei por não fazer nenhum story-board para não me aborrecer durante a realização da banda-desenhada, que passaria a ser a mera ilustração de uma série de ideias pré-definidas (e provavelmente mal definidas). Posso ir assim descobrindo o ritmo próprio de cada meia-página e manter o meu nível de interesse e ao mesmo tempo transmitir (ou tentar transmitir) esse interesse ao eventual leitor. Este trabalho de improviso criativo guia-se pela biografia de Pessoa (e contexto histórico) e pela linha cronológica da sua produção literária. A esse nível não posso de forma nenhuma tomar liberdades. A meia-página é desenhada e escrita a lápis, depois é “arte-finalizada” a tinta da china.

C.V.: Depois vem a digitalização da meia-página e a separação e ampliação de cada quadradinho, ou figura, no Photoshop. Estes são impressos em papel de 180 gramas, “Clairefontaine” é a marca que eu gosto de usar, e pinto com tinta acrílica no verso da folha por ter menos textura. Nesta fase o mais complexo é encontrar as cores certas porque, por um lado, tenho que respeitar aquilo que são as cores da época o que nem sempre é fácil porque os documentos visuais apresentam-se a preto e branco - aqui socorro-me da obra de pintores como Bonnard, Renoir, Rousseau e de, por exemplo, “As aventuras de Adèle Blanc-Sec” do Tardi que se desenrolam na mesma época – por outro lado tenho que respeitar o equilíbrio cromático de cada meia-página, e grupo e ciclo, etc… Terminada esta fase volto ao scanner para uma digitalização cuidadosa dos originais pintados; convém que essa fique o mais fiel possível ao original! Estes são reduzidos e acertados com o desenho no Photoshop para que a cor “não saia fora dos riscos”. Há também todo um trabalho de limpeza quer do desenho quer das letras.


M.M.: Finalmente a meia-página está pronta para ser divulgada no blogue.


Pessoa teve uma existência exterior apagada. Não acham paradoxal falar da vida dele em imagens?


M.M.: Quando decidi fazer esta banda-desenhada as únicas dificuldades ou limitações em que pensei foram as minhas. A principal, que se mantém ainda hoje, tem a ver com tentar compor um retrato de Pessoa que não seja erradamente influenciado pelas visões críticas ou de autor de outros comentadores pessoanos, não ignorando portanto o que de bom essas visões possam ter. O primeiro comentador pessoano cuja obra conheci, ainda na escola, foi o pintor António Costa Pinheiro que produziu todo um discurso sobre Pessoa unicamente por meio de imagens (de que conheço ainda só uma pequena parte). Não achei portanto impossível ou contraditório falar da vida do poeta em banda-desenhada.


C.V.: Fernando Pessoa não era um escritor fechado em casa. Ele cultivou a sua imagem, que é há muito um ícone. Foi ele que a criou. Deixou-se ou melhor fez-se fotografar nas ruas de Lisboa, a descer a Baixa, sozinho ou acompanhado…


M.M.: Resta saber quem é que teve uma existência exterior apagada, se foi Fernando Pessoa ou então o meio cultural lisboeta e português. Talvez seja por isso ainda hoje tão incómodo o seu vulto que, por mais que o digam, não vai parar de crescer.


Acho a figura do corvo interessantíssima (muitas vezes presente), mas quero ouvir a vossa opinião sobre ele.


M.M.: O corvo surgiu durante o processo que acima descrevi como “preenchimento de espaços vazios”. É uma referência ao poema “O Corvo” de Edgar Allan Poe que F.P. traduziu e publicou na sua revista Athena. É também, dentro da banda-desenhada, uma referência à décima quarta meia-página cujo título é “Nevermore”.


C.V.: Também acho interessantíssima a presença do corvo e a sua permanência ao longo das meias-páginas. Para mim representa o indizível, o mistério na vida, o Destino: «Nevermore».


Pessoa aparece sempre de fato azul, porquê?


M.M.: É uma homenagem à tradição clássica da banda-desenhada de representar estereotipadamente as personagens. Facilita o seu reconhecimento (quase todas personagens desta história estão sempre vestidas da mesma maneira) mas é também um importante elemento estético. A cor azul em particular foi por mim escolhida por causa dos fatos dos super-heróis, de cores primárias onde o azul é normalmente uma cor importante, como é o caso do super-homem, do homem-aranha ou do capitão américa.


C.V.: Eu, neste caso, tentei corresponder ao que o Miguel me pediu utilizando azul cobalto misturado com azul claro permanente e branco. O vermelho do laço e da gravata pareceu-me a melhor opção, para o Pessoa não ficar todo de azul.


Foi difícil de conciliar a inclusão de muitas passagens de texto com o desenho e a cor das páginas?


M.M.: Graficamente a inclusão de muitas passagens de texto não é difícil. O que é difícil é seleccionar as passagens certas dos textos de Pessoa de forma a dar, ao longo da história (que ainda não está acabada), uma ideia geral dos diversos temas da sua obra, ou pelo menos os principais, de forma a não dar dele um retrato incompleto e manter ao mesmo tempo a coerência narrativa.


C.V.: Em termos de cor, é difícil encontrar as tonalidades certas e manter uma certa diversidade cromática ao longo da banda-desenhada. Por vezes tento criar a atmosfera própria para aquilo que está a ser narrado, outras vezes a única preocupação é o equilíbrio cromático da meia-página. Normalmente procuramos em conjunto encontrar a melhor solução.


M.M.: Voltando à pergunta inicial, eu submeto muitas vezes as páginas à Catarina para apreciação pois confio no seu sentido crítico e conto com o seu distanciamento para melhor ajuizar de possíveis erros meus no que diz respeito à lucidez da minha abordagem.


Como imaginam a BD publicada? E já agora, como gostariam que as pessoas a recebessem?


M.M.: Tenho uma ideia muita concreta da forma final que quero para esta BD. Da capa já acima falei: será uma representação do espaço sideral no qual “este” Fernando Pessoa surge flutuando, à deriva. O formato será vertical, preferencialmente com capa rija e as folhas cosidas.


C.V.: Esperamos que seja acolhida sem preconceitos e que possa interessar a um público variado e que tenha um preço acessível.


M.M.: Ou pelo menos não exorbitante.


Façam uma pergunta um ao outro.


C.V.: Como é que te sentes Miguel por estares há tanto tempo a dedicar-te a este projecto de banda-desenhada?


M.M.: Já lá vão de facto uns anitos, nove para ser mais ou menos exacto, tendo-me dedicado a ele exclusivamente nos últimos três. Sinto-me já no limite das minhas forças, mas a história ainda não está acabada, portanto ainda não posso descansar. Estou satisfeito com o trabalho até agora realizado e espero poder orgulhar-me do resultado final.


M.M.: Catarina, queres colaborar comigo no meu próximo projecto?


C.V.: Sim, com todo o gosto. Será mais um desafio.