segunda-feira, agosto 08, 2011

"Antologia de Poemas Portugueses Modernos " - Uma Apreciação Crítica



Em algumas análises que temos vindo a fazer, realçámos a importância de ler as obras que Fernando Pessoa mais admirava, para conseguirmos compreender melhor as suas influências. Há livros mais fáceis de apontar, porque ele próprio escreveu sobre isso, mas sabemos menos sobre os seus gostos em termos de poesia contemporânea (embora saibamos alguma coisa das sua correspondência com poetas do seu tempo).

O volume que apresentamos hoje, no entanto, é um veículo ideal para esta descoberta. Trata-se de um projecto conjunto de Pessoa e António Botto, um poeta que foi muito próximo de Pessoa (ele publicou as "Canções" de Botto e entre ambos havia alguma cumplicidade), em que ambos pretendiam elaborar uma antologia de poesia contemporânea. Projecto que, como inúmeros outros, ficou incompleto; embora neste caso António Botto o tenha levado até ao fim, seleccionando ele alguns poetas para uma edição em 1944. Uma parte do projecto tinha sido, entretanto, publicado em 1929, em fascículos.

Qual a utilidade deste livro? Desde logo perceber que poemas modernos Pessoa (e Botto) mais admiravam. Por outro lado, perceber o que era para eles "ser moderno". Com uma ressalva: foi Botto a incluir nesta antologia poemas de autores como José Régio (curiosamente não um grande admirador de Pessoa), Vitorino Nemésio, Carlos Queiróz e os heterónimos de um Pessoa já desaparecido à data da primeira edição.

A modernidade aqui é definida de um modo mais estrito, levando apenas em conta um critério temporal - supostamente desde 1927, com a "Escola de Coimbra", mas mais amplamente considerando as obras poéticas elaboradas já no pós-guerra (que Botto chama de "guerra Alemã"). Mas é curiosa a inclusão de alguns "tradicionalistas", como indica o prefaciador Eduardo Pitta, como se os autores pretendessem de certo modo fazer o fio condutor da antiga para a nova tradição poética, que inclui muitos dos correlegionários de Pessoa (Almada, Guisado, Sá-Carneiro, Gomes Leal...). Talvez esse seja afinal o objectivo mais claro de um projecto deste género: o de legitimar de certa forma o surgimento de uma corrente poética moderna, mostrando que mesmo na ocasião da ruptura com o passado, não deixa de haver uma certa continuidade, mesmo uma natural continuidade.

Deixamos apenas mais uma nota para o facto de apenas uma mulher ser incluída na antologia. Mas um nome de peso: Florbela Espanca. É um soneto dela que fecha a edição e não podemos deixar de nos questionar a que ponto Pessoa a terá lido. Ela morre em 1930, mas publica desde 1919 pelo que seria certamente conhecida pelos poetas da época. Em termos de profundidade e génio trágico sempre pensámos que seria o espírito paralelo ao de Pessoa e a sua inclusão numa antologia deste género só prova isso mesmo.

Este volume pode ser adquirido online, neste link.

Um agradecimento à editora Ática pelo envio de um exemplar para análise.