quarta-feira, julho 06, 2011

Uma nota sobre Sebastianismo



No passado dia 2 de Julho tive a grata oportunidade de assistir a uma conferência na Quinta da Regaleira sobre D. Sebastião. O orador, o Prof. José Manuel Gandra, não sendo um historiador, falou habilmente sobre a vida e - o que foi mais interessante - a morte de D. Sebastião.

Segundo o Prof. Gandra, o rei teria sido capturado em Álcacer-Quibir e feito refém, sendo depois aprisionado na Itália (onde teria ido procurar ajuda do Papa), encontrando-se finalmente em reclusão num mosteiro em Limoges, França, onde viria a morrer com vetusta idade de mais de 90 anos. A história, plenamente fantástica, embora comece de uma premissa que não é original (há várias teorias bastante antigas a este respeito), parece agora basear-se em documentos oficiais encontrados pelo investigador. Investigador esse que chegou, no final da conferência a mostrar uma foto do que seria o ossário do rei - abandonado, ironicamente, em plena rua e já utilizado enquanto vaso de flores...

Para além do interesse óbvio desta história - qualquer Português que se preze terá curiosidade em ouvir falar sobre isto - pessoalmente eu não deixava de pensar em Fernando Pessoa. Em que medida o facto de D. Sebastião não ter morrido poderia ter influído na sua posição Sebastianista? Pior ainda, se fosse verdade que D. Sebastião tentou forçar a realização do seu próprio mito, sabendo que lutava para ser derrotado e morto, o que significaria isto, mais amplamente, para o Sebastianismo enquanto teoria filosófica e religiosa?

Pessoa teve, desde o início, consciência de que o mito Sebastianista pouco ou nada tinha na realidade a ver com o rei propriamente dito. Para além de ser um mito fundador, ainda mais antigo, é essencialmente uma representação simbólica de uma aspiração. "O Sebastianismo pouco tem que ver com o D. Sebastião que morreu em África , e muito com o D. Sebastião que tem o número cabalístico da Pátria Portuguesa", diz Pessoa (in Portugal, Sebastianismo e Quinto Império, Europa-América, pág. 133). Noutra passagem ele insistirá que a morte do rei, é também ela simbólica da morte da grandeza do país - o regresso do rei será, simbolicamente, o regresso da grandeza do país. Neste sentido, que é o mais forte, o mito do Encoberto, é o mito do regresso simbólico do rei na forma da grandeza da Pátria.

Curiosamente, o rei pode mesmo ter morrido, continuando vivo. Gandra falou da teoria dos dois corpos do rei - o corpo mortal e o corpo espiritual. Em verdade, o rei desaparece, o que poderia significar a desaparecimento de um dos seus dois corpos. O rei morrera, mesmo que permanecesse o corpo material. "No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal" (Ob. Cit., pág. 151). Nos períodos de perda de identidade nacional, aqueles que clamam o regresso do rei, chamam isso sim pelo regresso dessa identidade nacional primitiva, linear e sem quebras. Há aqui a consagração da nação enquanto entidade metafísica - enquanto "organismo psíquico", usando a expressão que Pessoa usa - que recusa os limites da territorialidade ou sequer da imanência material.

Ora, o Quinto Império sonhado por Pessoa é precisamente... espiritual. O renascimento da alma Portuguesa - ou melhor ainda, transmutação - seria para uma realidade intectual, espiritual. Iniciaticamente, a morte do corpo do rei poderia simbolizar esse passo necessário na Obra: a passagem do inferior para o superior, pelo fogo (pelo aço quente). O rei teria de morrer para renascer. Neste limite, a sua morte real pouco interessa. O facto é que o seu corpo espiritual foi perdido em Alcácer-Quibir e isso permite ao mitologista trabalhar a realidade em função disso mesmo. Como tal, o Sebastianismo em nada parece perder com esta investigação de Gandra.

O que interessa é compreender a profunda influência na alma do "organismo psíquico" da perda da independência nacional enquanto dupla catástrofe - fim inegável do Império Ultramarino e diluição das fronteiras com os nossos inimigos. Para o fim da recuperação deste trauma bicéfalo, há que contar apenas com um princípio puramente simbólico - D. Sebastião já só mito e mais nada.

Vejamos aliás como tudo isto se confirma na "Mensagem". D. Sebastião aparece primeiro enquanto uma das "Quinas" e com o título de "Rei de Portugal" (o corpo espiritual):

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

"Fico meu ser que houve, não o que há" - perdeu-se o corpo espiritual do rei. Que mais tarde reaparece, já nos "Símbolos", já sem o título de rei, só "D. Sebastião":

Esperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

"Que importa o areal e a morte e a desventura", escreveu Pessoa. Na realidade, o rei já tinha morrido e estava em símbolo para sempre presente na nossa identidade nacional, para ser usado para o nosso renascimento espiritual a caminho do Quinto Império, o Império Espiritual. A sublimação operada pela morte tinha filtrado qualquer elemento material - no fim da viagem, D. Sebastião já não é um homem, apenas uma representação simbólica de algo superior. Um mito. E esse mito não pode ser abalado por nenhuma revelação humana.

Isto para concluir que, por muita polémica que se levante nos próximos tempos sobre a data e circunstâncias reais da morte de D. Sebastião, isto em nada vai afectar a validade das teorias Sebastianistas. Esta é, pelo menos, a nossa opinião sincera (e, creio, também seria a de Pessoa).